A geografia da COVID – um olhar

Texto da edição impressa de 19 de Junho

Com preocupação, mas sem alarmismo. Estas foram as minhas primeiras palavras naquele dia 19 de março (feriado municipal em Santarém), quando dei início a uma análise diária à situação COVID no nosso país. E quis registar aquelas palavras apenas pela simples razão de que era aquele o meu sentimento. Uma análise breve, despretensiosa, de meia dúzia de linhas, que se prolongaria pelos meses de março, abril, maio e junho, e que foi crescendo porque se foi tornando interessante analisar a evolução da COVID. O início do texto manteve-se, porque foi sempre assim que me fui sentido, mesmo quando caminhávamos para o pico da epidemia, e, também, porque ia percebendo que era um sentimento partilhado por muitos cidadãos. É curioso pensar hoje que nunca foi minha intenção fazer uma análise diária desta epidemia, muito menos mantê-la ao longo destes meses, mas cedo se tornou um desafio procurar perceber através dos números diários de outros países, onde o vírus já iniciava o seu percurso avassalador, de que forma poderíamos vir a ser afetados no nosso país. Fazer comparações e poder projetar era então a minha curiosidade.

A COVID no mundo
Para esse efeito construí um quadro onde fui registando diariamente o número de novos casos, número de óbitos e número de internados em UCI (unidade de cuidados intensivos) em alguns países europeus. Na primeira linha inseri o dia em que surgiu o primeiro caso e na terceira linha o dia em que em cada país o número de novos casos tinha um valor próximo dos 160/170 casos. Na segunda linha inseri o número de dias entre o primeiro caso e os 160/170 casos. Depois procedi aos registos diários e iniciei as comparações e as projeções. Registámos o primeiro caso em Portugal no dia 1 de março e, rapidamente, atingimos os 169 casos, mais precisamente no dia 14 de março, isto é, em apenas 13 dias, tendo sido dos países que mais rapidamente alcançou este valor (tal como a República Checa), o que indiciava a probabilidade de assistirmos no nosso país a uma mais rápida propagação do vírus, comparativamente a outros países. Em Itália, por exemplo, o primeiro caso foi registado em 29 de janeiro e só ao fim de 25 dias se registaram 157 casos (dia 23 de fevereiro), e, em Espanha, que registou o primeiro caso em 30 de janeiro, só ao fim de 33 dias atingiam os 165 casos (3 de março). Quando no dia 16 de março ocorreu a primeira morte em Portugal por COVID, em Itália esse número atingia as 2158 mortes. Na segunda quinzena de março, neste país, batiam-se sucessivos recordes diários de mortes com o máximo de 919 no dia 27, para no dia seguinte o total ultrapassar a barreira de 10.000 mortes. O mundo, e em particular a Europa, olhava com apreensão para este novo vírus, que se mostrava indiferente às classes sociais, à religião, ao maior ou menor desenvolvimento dos países ou das regiões, muito menos respeitava fronteiras ou barreiras físicas neste novo mundo global, propício à sua propagação. Preocupados, uns mais do que outros, os governos tomavam as suas decisões. Em Portugal entrava em vigor, no dia 10 de março, o Plano Nacional de Contingência (fase 2 – fase de contenção alargada). Por iniciativa própria algumas escolas e universidades começaram a fechar entre o dia 7 e o dia 12 de março, e no dia 16, por decisão do governo, fecharam todas as escolas, foram decididas restrições fronteiriças, para dois dias depois, a 18 de março, ser decretado o estado de emergência. É interessante percebermos as implicações que estas medidas tiveram na contenção do vírus no nosso país, tal como na República Checa onde as escolas foram todas fechadas no dia 11 de março, o estado de emergência foi decretado no dia seguinte, dia 12, as restrições fronteiriças aplicadas no dia 16 e a proibição de ajuntamento de mais de 2 pessoas a partir do dia 23 de março, já para não falar do uso obrigatório de máscara. Ou seja, estes dois países tomaram estas decisões duas ou três semanas depois do primeiro caso, ao contrário de outros que tiveram estas iniciativas mais tarde ou tomaram opções diferentes. Comparemos, por exemplo, Itália (60,5 milhões de habitantes) e Portugal (10,2 milhões de habitantes) quanto ao número de internados em UCI por 100 mil habitantes. No dia 14 de março Portugal tinha 169 casos confirmados de coronavírus e a Itália tinha um valor similar, 157, em 23 de fevereiro. Consideremos então estes dois dias como ponto de partida em cada um dos países: nos primeiros 20 dias, Itália teve sempre um melhor comportamento no indicador “internados em UCI por cada 100 mil habitantes”; ao 20.º dia Portugal estava com 2,35 e a Itália com 2,20; mas, a partir deste dia a situação alterou-se e Portugal passou a ter melhores indicadores; ao 21.º dia Portugal tinha 2,40 e a Itália 2,51; cinco dias depois Portugal tinha 2,66 (valor mais elevado no nosso país) e a Itália 3,73. Enquanto que Itália continuaria durante mais 16 dias a aumentar esse valor até 6,72, Portugal iniciava a sua redução, conseguindo afastar do nosso sistema de saúde a pressão (negativa) que se chegou a temer, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, em Itália e em Espanha (que chegou a ter 16,72 internados em UCI por cada 100 mil habitantes). Lembramo-nos todos das imagens que nos chegavam diariamente destes países (e de outros, também) cujo sistema de saúde não conseguia dar resposta aos problemas existentes, ou pela dimensão dos casos, ou pela incapacidade do próprio sistema. É, também, por isto que nos devemos orgulhar do nosso sistema de saúde e o devemos defender. Podemos, ainda, fazer a comparação com a Suécia onde o número de internados em UCI chegou aos 9,45 por 100 mil habitantes. Aliás, não deixa de ser curioso que a Suécia apontada inicialmente como um país exemplar por não ter tomado as mesmas medidas de contingência adotadas noutros países, entre os quais o nosso, apresente agora indicadores nada invejáveis. E para concluirmos comparações com o nosso país, façamos uma última análise comparativa entre 4 países da mesma dimensão populacional: Suécia (10,1 milhões de habitantes), Portugal (10, 2 milhões), República Checa (10,6 milhões) e Bélgica (11,5 milhões). Para o efeito apresento três gráficos, ao dia 10 de junho, com o total de casos (gráfico 1), de internados em UCI (gráfico 2) e de óbitos (gráfico 3). Mais do que qualquer palavra, os gráficos ajudam-nos a entender as consequências das decisões tomadas em cada país. Aliás, Bélgica, Reino Unido, Espanha, Itália e Suécia são, a 10 de junho, os países com mais mortes por milhão de habitantes, superior aos Estados Unidos da América e ao Brasil, que são, no entanto, o primeiro e o terceiro em valor absoluto (quando este artigo for publicado já o Brasil terá, certamente, passado para segundo, ultrapassando o Reino Unido). A Europa surge assim com valores muito elevados, consequência de ter sido o centro da epidemia durante bastante tempo. Tal como escrevi na análise diária de 25 de março, com a evolução da COVID o continente americano seria o próximo centro desta epidemia. Hoje, EUA e Brasil dominam os noticiários e batem recordes diários de novos casos e mortos por COVID. São os países de maior dimensão e, por isso, com números mais elevados, mas outros países deste continente têm sido também bastante fustigados com a propagação deste vírus, com os números dos diferentes indicadores a subirem de forma preocupante nestes últimos tempos: México, Canadá, Perú, Equador, Chile, Colômbia, Argentina e Bolívia. A América Latina é o novo centro desta epidemia. Mas, atenção, a Índia, o Paquistão e o Bangladesh começam também a ter indicadores preocupantes, surgindo, nestes últimos dias, entre os países com maior número de novos casos diários e número de óbitos. Se relativamente à Europa falamos de países desenvolvidos, tal como os EUA e Canadá, com excelentes índices de desenvolvimento humano (IDH muito elevado), os restantes países, atrás referidos, no continente americano ou asiático, têm um IDH médio ou baixo, com a maioria da população com dificuldades no acesso aos serviços de saúde ou sem condições de vida minimamente dignas. E se pensarmos em África como o continente com maior nível de pobreza e onde a maioria dos países têm um IDH baixo, devemos ter uma especial preocupação com a evolução da COVID. Neste continente, África do Sul, Egito e Nigéria começam, também, a assumir indicadores elevados, neste momento, já entre os 30 países com maior número diário de novos casos e de óbitos.

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A COVID em Portugal
A forma como a COVID se propagou no nosso país não foi indiferente à sua demografia, nem indiferente às características urbanas. A distribuição da população, em Portugal, evidencia duas tendências, identificadas como litoralização e bipolarização. Litoralização porque existe uma concentração da população e das atividades económicas no litoral, grosso modo, entre Viana do Castelo e Setúbal, em contraste com um interior muito despovoado, e uma bipolarização que se refere à elevada densidade populacional nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Foram precisamente estas duas áreas metropolitanas as responsáveis pelos maiores valores diários de novos casos COVID, embora com tendências diferentes, isto é, a propagação da COVID ocorreu de forma diferenciada nestas diferentes duas regiões, começando por ser mais intensa e rápida na região Norte (gráfico 4), com valores mais elevados a partir de 25 de março (387 casos). E durante cinco semanas consecutivas os valores médios diários, por semana, foram superiores a 300 novos casos, chegando mesmo a atingir nos dias 9 e 10 de abril, respetivamente, os valores de 716 e 795 novos casos, valores diários mais elevados registados até hoje. A semana de 26 de abril marca a descida acentuada de novos casos diários na região Norte, nesta última semana com valores médios diários de 17 novos casos, onde podemos considerar controlada a propagação da COVID. Por contraste, a região de Lisboa e Vale do Tejo (gráfico 5) teve sempre valores muito mais baixos que a região Norte até ao início de maio, apresentando a partir dessa data valores muito mais elevados. Podemos comparar os dois gráficos e perceber uma tendência de descida no Norte e de subida em Lisboa e Vale do Tejo, onde nas últimas duas semanas se atingiram as médias mais elevadas (226 e 278), ainda assim, bem abaixo da média diária semanal mais elevada da região Norte (464). Aliás, se olharmos, não para as médias semanais, mas para valores diários, é importante salientar que a região Norte, até ao dia 10 de junho, teve 25 dias com um valor diário superior a 300 novos casos, enquanto que Lisboa e Vale do Tejo apenas teve 9 dias, embora 6 deles nos últimos 13 dias, o que justifica uma inevitável preocupação. Nas outras regiões podemos considerar que a situação também se encontra controlada, tal como no Norte. Nas últimas 2 semanas a região Centro teve 147 novos casos, o que dá uma média diária de 10,5 novos casos. Neste mesmo período temporal o Algarve teve 28 novos casos (média de 2 por dia), o Alentejo 18, Açores 7 e a Madeira está há 34 dias sem registos. Podemos, por isso, concluir, que a situação está controlada em todo o país, à exceção de Lisboa e Vale do Tejo, designadamente em alguns concelhos da Área Metropolitana de Lisboa que têm merecido um olhar muito atento da saúde pública e do poder político, nacional, mas também local, porque os focos nesta fase estão identificados, justificando-se, por isso, algumas medidas específicas. Aliás, o regresso à normalidade, ou a um “novo normal”, noutros países também gerou alguns surtos, localizados em áreas urbanas de maior dimensão. Este aumento na região da Grande Lisboa tem contribuído para que, a nível nacional, o número de novos casos diários não desça, tal como já aconteceu noutros países. Por exemplo, na Bélgica, há 12 dias que o crescimento diário é inferior a 200 novos casos, com uma média diária de 126. Durante este mesmo período, em Portugal, a média diária foi de 304, na Holanda, de 169 e, na República Checa, de 52 (os últimos 23 dias teve sempre valores diários abaixo de 100 novos casos). Embora se mantenha esta preocupação pode, mesmo assim, dizer-se que, no nosso país, os valores são, na generalidade, bastante favoráveis. Para que não subsistam dúvidas sobre esta ilação, deixo para o fim a análise ao número de óbitos, ao número de internados e ao número de internados em UCI, que felizmente, nunca chegaram a valores que inicialmente se temia, porque as notícias que chegavam de outros países, onde o sistema de saúde entrou em colapso, não eram nada animadores, bem pelo contrário, vinham carregadas de pessimismo. Porque, por vezes, as imagens expressam-se melhor do que as palavras apresento os gráficos da evolução do número de óbitos (gráfico 6), do número de internados (gráfico 7) e do número de internados em UCI (gráfico 8), onde é bem evidente a tendência de descida, depois de valores mais elevados no mês de abril.

A COVID na Lezíria do Tejo
Integradas na região de Lisboa e Vale do Tejo (NUT II), encontram-se as sub-regiões da Lezíria do Tejo e do Médio Tejo (NUT III). O Médio Tejo (MT) é constituído pelos municípios de Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha, além da Sertã e de Vila de Rei, ambos do distrito de Castelo Branco, e a Lezíria do Tejo (LT) pelos municípios de Almeirim, Alpiarça, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Coruche, Golegã, Rio Maior, Salvaterra de Magos e Santarém, além de Azambuja, do distrito de Lisboa. A primeira curiosidade consiste na diferença do número total de casos até ao dia 10 de junho, com a Lezíria do Tejo a ter mais do dobro de casos por COVID: LT – 562; MT – 223. A esta circunstância não será alheia certamente a maior ou menor proximidade à Grande Lisboa, aliás bem evidenciada nos números dos concelhos que fazem fronteira com o distrito de Lisboa, como Benavente, com 69 casos, e o Cartaxo, com 71 casos, ou que já estão no distrito de Lisboa, como a Azambuja, com 130 casos. Estes concelhos estão entre os quatro com maiores valores destas duas sub-regiões, sendo o concelho de Santarém o primeiro, com 184 casos (gráfico 9). É verdade que o concelho de Santarém é o que tem maior número de habitantes e essa é a primeira razão para aquele valor ser o mais elevado de entre os concelhos do distrito, mas quando comparamos o número total de novos casos, considerando a população de cada concelho, por exemplo, calculando a incidência por cada 1.000 habitantes, Santarém volta a estar em primeiro lugar (no distrito, porque o concelho de Azambuja é claramente o que tem maior valor por 1.000 habitantes), surgindo nos lugares imediatos Cartaxo, Coruche, Benavente e Almeirim. Poderemos, assim, inferir que a proximidade à Grande Lisboa pode ter tido a sua influência, não sendo abusivo arriscar que certamente continuará a ser um fator contributivo para aumentar estes nossos números. Entretanto, continuemos a seguir os conselhos da DGS e ter em atenção as orientações que vão sendo emitidas. Devemos manter todos os cuidados, individuais e coletivos.

António José Carmo
Geógrafo

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