Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o conceito de “saúde”, mais do que ausência de doença, representa uma situação de completo bem-estar físico, psíquico e social. Inclui também a adequação do sujeito individual ao meio em que está inserido. Mais do que uma situação estática, resulta de uma contínua intenção individual no sentido de gerir a afectividade, evitar atitudes e hábitos nocivos, e fazer vigiar regularmente certos parâmetros clínicos e analíticos. À medida que a pandemia do novo Coronavírus se foi instalando no quotidiano, o stress entrou também na vida de uma boa parte da população, o que pode conduzir a ansiedade e mesmo a depressão. Quase um ano após a Organização Mundial da Saúde ter declarado que a epidemia de Covid-19 atingiu o nível de uma pandemia (11 de Março de 2021), os especialistas fazem soar os alarmes alertando para elevados níveis de ‘fadiga pandémica’ da população portuguesa que está a passar por diferentes fases de confinamento para conter o contágio. Esta edição do Correio do Ribatejo olha, assim, para a Saúde para além da Covid, apresentando a visão de três profissionais que actuam na área: o psicólogo Paulo Domingos, o fisioterapeuta Diogo Baeta da Graça e a nutricionista Cátia Inácio.

Diogo Baeta da Graça – Fisioterapeuta

“O acesso a cuidados de fisioterapia é fundamental para os doentes Covid”

Quais são as condições de trabalho dos fisioterapeutas neste momento de confinamento?
Muitos de nós, fisioterapeutas, tiveram uma quebra abrupta da actividade, principalmente no primeiro confinamento, onde ainda não tínhamos muita informação sobre como nos comportarmos com a presença deste vírus, o COVID-19. Actualmente, estamos bem preparados, com planos de contingência e de desinfecção bem elaborados, de forma a permitir prestarmos os cuidados de saúde com toda a segurança.

Quais foram, para si, os principais desafios colocados pela pandemia da Covid-19 em contexto de trabalho?
O meu principal desafio quando esta pandemia começou, foi tentar perceber se poderia cuidar/tratar dos pacientes sem haver contacto físico. No primeiro confinamento, para não perder o trabalho já desenvolvido com os pacientes até então, recorri a videochamadas de forma a manter as consultas com os pacientes e certificar-me de que os mesmos mantinham a planificação e os exercícios propostos.

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Que intervenção pode ter um fisioterapeuta na reabilitação dos doentes de Covid-19, desde a fase aguda até ao acompanhamento a longo prazo?
O quadro sintomatológico característico dos pacientes nos contextos de isolamento domiciliário ou de internamento hospitalar, é marcado por dificuldade respiratória, tosse, cansaço e febre, e pela diminuição abrupta da actividade física, daí que a intervenção do fisioterapeuta é amplamente recomendada. Para estas pessoas, o acesso a cuidados de fisioterapia é assim fundamental para acelerar o processo de recuperação, particularmente, nos casos de pessoas com várias patologias, onde as limitações funcionais consequentes poderão ser graves e permanentes. Em contexto de recuperação pós-alta, as pessoas com COVID-19 podem apresentar baixa condição física, dificuldades respiratórias relacionadas com o exercício, atrofia muscular, dor e alterações posturais. Assim, a fisioterapia é fundamental também nesta fase, com efeitos comprovados na recuperação da tolerância ao esforço, aumento da funcionalidade, melhoria da qualidade de vida e auto-eficácia.

Recentemente, a Associação Portuguesa de Fisioterapeutas (APFISIO) alertou que a falta destes profissionais nas unidades de cuidados intensivos atrasa a recuperação de doentes com covid-19 que apresentam capacidade funcional reduzida. Partilha esta posição?
Partilho sim e reforço. Defendo até a necessidade de, nos cuidados intensivos, estarem presentes um ou mais fisioterapeutas, dependendo do rácio de utentes dessa mesma unidade, deveria ser de 24h/dia. A nossa presença implica uma recuperação muito mais rápida dos utentes internados, beneficiando o utente, assim como a própria unidade, a nível de custos com a redução do número de dias de internamento.

Defende que no SNS deveriam existir mais fisioterapeutas?
Isso é algo que o SNS anda a procrastinar desde há muitos anos. Recordo-me, na minha época de estágios curriculares em que passei por vários hospitais, e sempre que era a hora de realizar a volta pelos pisos, sim pisos, pois um fisioterapeuta passava por mais do que um piso, onde cada piso tem várias alas e que nessas alas existem vários quartos, sendo que nesses mesmo quartos mais do que uma cama, portanto veja, o tempo fugaz que tinha que ser aplicado com cada utente. Questionava sempre os meus orientadores sobre essa actuação e todos foram certeiros e unânimes na sua resposta, “Somos poucos…esta acaba por ser a melhor fase dos utentes, quando temos estagiários que nos dão algum auxílio e que nos permitem estar mais tempo com os utentes”.

Para lá da pandemia, qual é a importância da fisioterapia?
A fisioterapia tem vindo cada vez mais a ganhar magnitude. O pensamento antigo de que só se precisava de fisioterapia após lesão está colocada de parte. Cada vez mais somos solicitados para a prevenção, ou melhor, para a diminuição do risco de lesões. Porque prevenir lesões é impossível, elas irão sempre existir, podemos sim tentar diminuir esse risco de forma a evitar um período alargado de paragem. Embora a figura do profissional esteja fortemente associada aos atletas, esse não é o único grupo que pode beneficiar com a fisioterapia. Desse modo, existem várias situações em que o fisioterapeuta pode ser fundamental, algumas sem precisar sequer do encaminhamento médico. A importância da fisioterapia para a qualidade de vida não deixa dúvidas, afinal nós contribuímos para o bem-estar dos pacientes.

Fisioterapeutas estão em exaustão física e fadiga psicológica

Um estudo realizado por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que envolveu 511 fisioterapeutas, concluiu que mais de 40% destes profissionais estão “em situação de exaustão física e fadiga psicológica” devido à pandemia.
Em comunicado, a FMUP explica que o estudo, que envolveu também investigadores do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) e da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto, visava avaliar o impacto da Covid-19 nestes profissionais de saúde ao nível da depressão, ansiedade e ‘burnout’.
Dos 511 fisioterapeutas que participaram no estudo, que teve por base um questionário ‘online’, mais de metade tratam doentes presencialmente, 35% estão em serviços de internamento e 18% trabalham directamente com doentes infectados pelo novo coronavírus, que provoca a Covid-19.
Citada no comunicado, Cristina Jácome, investigadora da FMUP e do CINTESIS, afirma que a covid-19 “expôs a importância vital dos fisioterapeutas na reabilitação dos doentes, desde a fase aguda até ao acompanhamento a longo prazo”.
“Importava, por isso, perceber como se encontravam os fisioterapeutas do ponto de vista psicoemocional”, sublinha a investigadora.
No questionário, 42% dos fisioterapeutas afirmaram estar em ‘burnout’, “uma percentagem superior à de outros estudos nacionais e internacionais que apontam para 10 a 30%”, refere a FMUP.
Para os investigadores, tal fenómeno pode ser explicado pelo “envolvimento em situações de trabalho emocionalmente exigentes” e por uma “menor capacidade de adaptação ao ‘stress’ do contacto com doentes com covid-19”.
“Quando tentámos compreender que características estavam a contribuir para o estado de fadiga e exaustão, verificámos que os factores mais relevantes eram uma menor resiliência, níveis mais elevados de depressão, de stress e reabilitar doentes com covid-19”, explica a Cristina Jácome, que além de investigadora é fisioterapeuta.
Associados a estes factores podem também estar outros problemas, nomeadamente dificuldades económicas, menor produtividade, redução da qualidade dos cuidados de saúde prestados e o aumento do tempo necessário para a recuperação dos doentes “com todas as consequências que daqui advêm para o Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, alerta a investigadora.
Por esse motivo, Cristina Jácome considera ser essencial e “urgente” que se implementem estratégias de mitigação para promover a saúde dos fisioterapeutas para garantir a qualidade dos serviços prestados.
Paulo Domingos, Psicólogo Clínico

“Que a pandemia nos faça recordar da nossa capacidade de luta, da resiliência, do desejo de sermos livres e das possibilidades infinitas de nos ligarmos”

Ao fim de tantos meses de pandemia o cansaço começa a instalar-se, seja físico, seja emocional. O que fazer para o combater?
Penso que o nosso bem maior não é estarmos vivos, é vivermos a vida. Estamos a ser chamados para assegurar a nossa vida, suspendendo-a. Antes da pandemia já assegurávamos a nossa vida, vivendo-a. Nas relações que estabelecíamos, nos projectos que construíamos. Parece que estamos perante um dilema, que talvez seja o que gera o cansaço. Penso que o conhecimento e a criatividade serão a saída para este dilema e as principais armas de combate ao cansaço. Podermos travar este combate, esta luta, será o que nos manterá vivos.

Como gerir a ansiedade, a falta de afectos e a privação das rotinas sociais que nos definem enquanto humanos?
Somos seres afectivos e sociais e ter vínculos humanos protege o nosso cérebro. A diversidade e o movimento são essenciais para a saúde mental, geram novas conexões cerebrais. É o contacto com os outros que nos dá acesso ao diferente, ao desconhecido, à possibilidade de descoberta e troca de experiências. A ideia de paralisação, ficando confinados a dias iguais, ambientes físicos e relacionais iguais, pensamentos e acções iguais, e também notícias iguais, gera um enfraquecimento mental. Parece-me, portanto, que em prol da sanidade (mental) devemos combater a paralisação, desenhando e realizando alternativas criativas para continuarmos física e mentalmente em movimento, ligados a outras pessoas, à realização de projectos e a aprender coisas novas.
A respeito da ansiedade, parece-me também interessante cultivar a capacidade de saber “desligar o botão” que nos liga a informações, pessoas ou cenários que nos ampliam o medo e o stress. Isto pressupõe estar atento e informado, mas descobrir contextos apaziguadores que nos ajudem a descodificar a realidade.

A situação parece estar a prolongar-se no tempo de uma forma que ninguém previu. Teremos capacidade de nos readaptar a uma nova normalidade?
É essencial continuarmos a pensar sobre o que vai surgindo para nos conseguirmos posicionar. A maior preocupação em alterarmos a vida como a conhecemos prende-se habitualmente com as crianças, no sentido do risco que acarretam certas privações em períodos críticos do seu desenvolvimento. Que se integre o futuro, garantindo que as crianças possam continuar a receber vinculações seguras, que a curiosidade e o espanto se mantenham intactos, que o interesse pelos amigos e outros familiares permaneça e que os estímulos da natureza não fiquem inacessíveis.

Fala-se muito na possibilidade de uma “pandemia de saúde mental” após a pandemia de covid-19. Será mesmo assim? Os problemas de saúde mental vão multiplicar-se?
Não sei se será apenas “após” a pandemia de covid-19. A tendência é para a saúde física e mental fazer-se acompanhar de períodos de estabilidade e prosperidade. Por conseguinte, quando condicionamos comportamentos e restringimos contactos e acessos, quando a estrutura social e económica estremece, habitualmente a saúde mental também se ressente. Que esta pandemia possa resultar numa maior concertação em torno de cuidarmos preventivamente da nossa saúde mental. Devemos sensibilizar as pessoas para a valorização destas “dores invisíveis”, que parecem relacionadas com as nossas decisões, com a forma como nos relacionamos connosco e com os outros.

Medo, stress, angústia, incerteza… são alguns dos sentimentos que os cidadãos poderão estar a experimentar. De que forma os psicólogos podem ajudar?
Uma pandemia é por si só um cenário angustiante, que traz consigo vários medos. O medo da morte, o medo de ficar doente, de ficar frágil, de contagiar, de ser contagiado. A estes medos podem acrescentar-se as ameaças relacionadas com eventuais alterações da vivência familiar ou da situação profissional. Quando o stress se torna intenso, persistente e há uma sensação de que começa a ocupar uma parte importante da vida da pessoa, é aconselhável que se procure ajuda profissional.
A psicologia presta um cuidado dedicado a quem almeja recuperar o controlo e autonomia sobre a sua vida. Deverá ajudar a pessoa a ter um entendimento do que se está a passar consigo e que capacidades, por vezes pouco reconhecidas ou desactivadas, possui para ultrapassar a situação. Não poucas vezes ocorre a pessoa descobrir ligações entre estes sintomas e uma parte mais estrutural da sua personalidade, o que pressupõe um trabalho mais profundo.

Que aprendizagens retiraremos desta pandemia?
Que a pandemia nos faça recordar da nossa capacidade de luta, da resiliência, do desejo de sermos livres e das possibilidades infinitas de nos ligarmos.
O Homem do mundo que continua a crescer em moderna individualização e solidão, parece continuar a ser salvo pela ligação à natureza e pelo encontro com o seu semelhante.

Mais de 67 mil pessoas já recorreram

à linha de aconselhamento psicológico

Mais de 67 mil pessoas, entre as quais 5.249 profissionais de saúde, procuraram apoio na linha de aconselhamento psicológico do SNS 24, lançada em Abril.
Desde que foi criada, em 01 de Abril de 2020, a linha já atendeu 67.245 pessoas, entre as quais 5.249 profissionais de saúde, disse Luís Goes Pinheiro, presidente da SPMS, a propósito de um ano de pandemia, que em Portugal teve início a 02 de Março com o aparecimento dos dois primeiros casos de covid-19.
Apesar de ser uma linha que “está mais vocacionada para o cidadão comum, ainda assim houve 5.249 chamadas de profissionais de saúde, o que significa que também para estes, esta linha de aconselhamento psicológico foi importante existir”, disse o presidente da SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde.
“É normal que em momentos de maior ansiedade, resultantes da maior pressão no trabalho e dificuldades que, muitas vezes, todos temos de conciliar, agora em confinamento, as crianças em casa e a necessidade de assegurar funções laborais, tudo isso gera maior ansiedade”, observou.
Também pessoas que estão com receio quanto ao seu futuro laboral recorrem a esta linha devido à ansiedade que essa situação gera, acrescentou.
“E, portanto, ter esta linha para servir de apoio psicológico às pessoas tem-se revelado absolutamente crucial ou longo ao da pandemia”, salientou Luís Goes Pinheiro.
Este serviço foi criado com a parceria da Fundação Calouste Gulbenkian e a Ordem dos Psicólogos Portugueses para responder às alterações que a pandemia de covid-19 causou na vida das pessoas e dar apoio em várias situações, como por exemplo ansiedade aguda, fragilidade psicológica ou agravamento da doença psicológica.
Gerir emoções (stresse, ansiedade, angústia, medo) em situação de crise, promover a resiliência psicológica, diminuir a probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental na sequência da crise pandemia, promover o aumento do sentimento de segurança da população e dos profissionais de saúde e orientar para outras entidades de apoio, em caso de necessidade identificada pelo psicólogo são os objectivos deste serviço.
Além desta linha, o Centro de Contacto do Serviço Nacional de Saúde (SNS24 – 808 24 24 24) também criou em 21 de Abril de 2020 uma plataforma de atendimento por videochamada para os cidadãos surdos com intérpretes de Língua Gestual Portuguesa.
Segundo Luís Goes Pinheiro, já foi possível fazer mais de mil triagens intermediadas pelos intérpretes de Língua Gestual Portuguesa e no total houve praticamente duas mil chamadas de cidadãos que recorreram a este serviço.
Cátia Inácio, Nutricionista

“A prática de um estilo de vida saudável faz todo o sentido para a manutenção do sistema imunitário equilibrado”

Os hábitos alimentares alteraram-se com a pandemia?
Sim, a pandemia levou à mudança de hábitos alimentares, segundo um inquérito realizado pela DGS, cerca de metade dos portugueses alterou os seus hábitos alimentares e a prática de actividade física. Em que 41,8% referiram que a alteração foi para pior. As razões apontadas prendem-se pelo fato das medidas adoptadas para a prevenção da propagação da Covid 19, obrigarem a alterações de horários de trabalho, a frequência nos tempos de compras, além das alterações do apetite. Por último, a incerteza quanto ao acesso a alimentos por dificuldades económicas também foi um determinante das alterações alimentares. Mas pela positiva muitos portugueses aumentaram o consumo de frutas e hortícolas e a prática de actividade física.

A recomendação de uma alimentação saudável para fortalecer a imunidade serve em tempos de Coronavírus? Como seria essa alimentação?
No que diz respeito à relação entre a alimentação e o reforço do sistema imunitário, a evidência científica é escassa. Não existe nenhum alimento ou suplemento que possa prevenir ou ajudar no tratamento da Covid 19. As boas práticas de higiene alimentar continuam a ser a melhor forma de prevenir a doença. No entanto, a prática de um estilo de vida saudável faz todo o sentido para a manutenção do sistema imunitário equilibrado. Uma alimentação completa, variada e equilibrada, com o consumo de fruta e hortícolas, em que os congelados também podem ser uma opção, articulando com as leguminosas de baixo teor de sal. E promovendo um bom estado de hidratação ao longo do dia, com o consumo de bebidas sem açúcar. É fundamental manter a rotina das refeições diárias, principalmente neste tempo de confinamento, evitando alimentos ricos em açúcar, sal e gordura. Num tempo em que as famílias estão mais em casa é importante aproveitar para cozinhar produtos o mais naturais possíveis, esquecendo todas as opções pré-preparadas com elevado processamento. Todas estas indicações ajudam a manter ou a optimizar o estado nutricional e o bom controlo metabólico.
A informação que temos até ao momento, é que não existe evidência de que o Covid 19 possa ser transmitido através do consumo de alimentos cozinhados ou crus. No entanto, é necessário manter e reforçar as boas práticas de higiene e segurança alimentar durante a manipulação, preparação e confecção dos alimentos. É fundamental a lavagem frequente das mãos e também a correcta lavagem dos alimentos crus. Durante a preparação, confecção e consumo deve-se adoptar medidas de etiqueta respiratória.

Qual o papel da nutrição nos grupos de risco, como diabéticos, obesos e hipertensos?
Em contexto de pandemia, a alimentação e a nutrição são cada vez mais reconhecidas como fundamentais nestes grupos de risco. É conhecido hoje que a Covid 19 afecta com maior gravidade pessoas com obesidade, diabetes e hipertensão arterial. Sendo que a alimentação é um determinante para um bom controlo metabólico destes doentes. A adopção de hábitos alimentares saudáveis com a optimização do estado nutricional e um melhor controlo da pressão arterial e da glicémia, são medidas preventivas, que estão associadas a prognósticos menos graves quando se testa positivo à Covid19.

Qual seria a orientação de uma alimentação saudável para essas pessoas?
Um bom controlo das doenças de base através da adopção de comportamentos alimentares saudáveis, é essencial para melhorar a capacidade de resposta a uma eventual infecção. As orientações para estes grupos de risco são todas semelhantes às da população em geral. É fundamental que se adopte uma alimentação completa, variada e equilibrada, seguindo os princípios da Roda dos Alimentos. Que sejam preferidos alimentos o menos processados e o mais naturais possíveis, com baixo teor de açúcar, gordura e sal. Em situações específicas em que existe o descontrolo dos sintomas da doença é importante recorrer a um profissional de saúde para ajustar a terapêutica medicamentosa e alimentar.

De que forma podem as famílias fazer escolhas mais saudáveis e acessíveis?
Estamos a viver novamente um período de confinamento, em que as escolhas alimentares/compras assumem um papel extremamente importante na adopção de hábitos alimentares saudáveis. Uma compra de alimentos responsável e adequada em termos nutricionais é “meio caminho” para a adopção de hábitos alimentares mais saudáveis por parte de todos os elementos da família. O planeamento de uma ida às compras é a “chave” para escolhas mais saudáveis e acessíveis, onde não pode faltar a elaboração prévia de uma lista de compras, incluindo alimentos que fazem parte de um padrão alimentar saudável, como frutas e hortícolas. É importante que as famílias percebam que a compra de alimentos processados, fica muito mais cara, porque além do valor pago somam-se as consequências para a saúde.
Quanto às escolhas alimentares é importante começar o dia com um bom pequeno-almoço, por exemplo constituído por leite, pão com queijo ou fiambre e fruta, são ingredientes mais baratos e mais saudáveis, em comparação com cereais de pequeno-almoço que podem ser mais práticos, mas são mais caros e com elevado teor de açúcar. Nesta época em que estamos mais isolados socialmente é importante envolver toda a família na confecção das refeições, tentando rentabilizar os alimentos na sua totalidade e usar a criatividade com a transformação das sobras, deixando de lado os alimentos pré-cozinhados. Iniciar a refeição com um bom prato de sopa, rico em diferentes legumes e hortícolas, é uma forma fácil de aumentar o consumo destes alimentos, de forma económica, além de contribuir para o aumento da saciedade e consequentemente menor probabilidade de recorrer a snacks calóricos. Os legumes/hortícolas e frutas da época possivelmente são os mais económicos.

Que medidas seria importante tomar para que os hábitos alimentares dos portugueses melhorem?
Com esta pandemia infelizmente as desigualdades no acesso a uma alimentação saudável estão a agravar-se. O aumento da pobreza alimentar é uma realidade, resultante da insegurança alimentar que muitas famílias estão a passar, muitas das vezes escondida pela vergonha em pedir ajuda, o que leva as famílias a comprarem por impulso, alimentos que parecem mais económicos, mas que apresentam baixa densidade nutricional. São urgentes políticas alimentares que possam promover a literacia e a capacitação das famílias na área da alimentação saudável e segurança alimentar, além de identificação das famílias em situações de insegurança alimentar.
O maior acompanhamento nutricional dos grupos de risco pelos cuidados de saúde primários é uma medida urgente, com a política nacional mais forte em termos de prevenção de doença crónica, associada aos comportamentos alimentares.

O vegetarianismo tem vantagens para a saúde? Quem quer iniciar este tipo de dieta e que cuidados deve ter? A carne deve ser eliminada?
A pandemia também tem levado a mudanças positivas no comportamento alimentar, impulsionadas pela adopção de hábitos mais sustentáveis. Com o aumento do número de adeptos de uma alimentação com mais produtos de origem vegetal, a selecção de produtos locais e a utilização de produtos na justa medida, evitando o desperdício alimentar.
A dieta vegetariana pressupõe a utilização predominantemente de alimentos de origem vegetal. Existem várias modalidades de alimentação vegetariana que podem ser nutricionalmente equilibradas, para isso é necessária uma combinação dos vários nutrientes, para evitar carências. O maior conselho que posso dar a quem quer iniciar alguma das modalidades da dieta vegetariana é procurar um profissional de saúde médico ou nutricionista que possa orientar e esclarecer dúvidas que na fase inicial são normais. A dieta vegetariana tem as mesmas vantagens que outro tipo de dieta, desde que bem planeada e seguindo sempre as orientações de um padrão alimentar saudável, onde a ingestão de açúcar, gordura e sal devem ser moderados.

Confinamento coloca desafios para a adopção de uma alimentação saudável

O artigo “The national food and nutrition strategy for the Portuguese COVID-19 response”, onde se descreve de forma breve a estratégia alimentar e nutricional portuguesa desenvolvida pelo Programa Nacional de Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da Direcção-Geral da Saúde (DGS), foi publicado no European Journal of Clinical Nutrition.
Desde o início da pandemia da Covid-19, o PNPAS tem vindo a produzir um conjunto de orientações pertinentes e pragmáticas, juntamente com materiais informativos disponibilizados ao longo da resposta concertada de Portugal à pandemia.
A alimentação é cada vez mais reconhecida como um aspecto central no contexto da Covid-19, sendo que a obesidade é hoje um dos principais fatores de risco para a gravidade na infecção por SARS-CoV-2. E a par da obesidade, a Covid-19 também afecta com maior gravidade pessoas com outras doenças crónicas, como a diabetes e a hipertensão arterial. Em todas estas patologias, a alimentação saudável será determinante para um melhor controlo metabólico destes doentes.
Por outro lado, sabemos também que a otimização do estado nutricional nos doentes com Covid-19 pode ser de extrema importância para a sua recuperação e para a diminuição do risco de complicações associadas. Assim, os cuidados de nutrição, devem ser uma prioridade, tantos nos cuidados de saúde primários como nos cuidados hospitalares, em particular nas unidades que tratam de doentes com Covid-19, desde os doentes internados em enfermaria às unidades de cuidados intensivos.
O confinamento que se iniciou novamente em Portugal volta a colocar grandes desafios para a adopção de uma alimentação saudável na população portuguesa, em particular das famílias mais vulneráveis do ponto de vista socioeconómico.

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