As pedras como “testemunhas silenciosas” unem três artistas escalabitanos

O centro histórico de Santarém vai acolher, em Setembro, uma exposição colectiva de três artistas plásticos escalabitanos que estão a trabalhar o tema “as pedras são testemunhas silenciosas” com intervenções na calçada, pintura e instalações.

O projecto começou numa “ideia” do escultor Mário Rodrigues, que pegou em pedras da calçada e começou a “trabalhá-las em baixo e alto relevo”, fazendo “pequenas esculturas” e incrustando pedaços de azulejos, peças que irão ser colocadas na zona histórica de Santarém, para serem “pisadas” e também elas sofrerem “o desgaste do tempo”.

A “destruição” implícita neste trabalho, desde a pedra da calçada que “vem de um grande bloco que é destruído, é partido” e que o escultor vai “destruir mais, acrescentando coisas”, veio dar o mote para a questão da destruição das cidades e o sofrimento humano, trabalhados por Carlos Amado e Fernanda Narciso.

Fernanda Narciso, cujo trabalho é marcado pela incorporação dos mais diversos materiais nas suas telas, juntou-se ao projecto, trabalhando a dimensão humana a partir das pedras “mudas e atentas ao que se passa”.

“Há pedras gastas pelo tempo, algumas carregadas pelas pessoas, nós temos pedras no sapato muitas vezes, e dói imenso, e só ela sabe que está lá, porque quando calçamos não damos por ela. Foi esse lado do sacrifício, da obediência, do ser mudo, do observar, que desenvolvi”, disse à Lusa.

Carlos Amado andava a trabalhar o tema das guerras e da destruição que elas provocam, em seres humanos e na memória colectiva, pelo que o seu trabalho acabou por “encaixar” no projecto.

Nas suas pinturas, a partir de imagens da guerra na Síria, mas também de outras retiradas de filmes, sem que se distinga o que é realidade e ficção, não há figuras humanas, “mas o humano está sempre presente, subjacente a essa destruição, porque ela é provocada pelos e aos humanos”, afirmou.

“Os três começámos a trabalhar ao mesmo tempo e depois, na primeira conversa que tivemos juntos, percebemos que havia coisas que se completavam, as minhas imagens ligam-se com a destruição do Carlos. Não foi combinado, cada um foi para o seu canto trabalhar e agora estamos a juntar as ideias e as formas”, afirmou Fernanda Narciso.

O resultado poderá ser visto a partir de 03 de Setembro, em duas lojas da Rua Direita (Serpa Pinto, que liga o Largo do Seminário ao de Marvila), estendendo-se para a rua.

A ligar as duas lojas Fernanda Narciso quer colocar um pano com cinco metros “que é um jardim magnífico”, a “felicidade”, o antes da “intervenção humana” que, à medida que “vai acontecendo, as coisas vão descambando”.

As pequenas esculturas de Mário Rodrigues vão ficar instaladas na rua: “as pessoas podem pisar, há também um certo desgaste, uma certa destruição, que é provocada pelas pessoas que vão passando, pisando, e vai sendo destruída pela erosão da chuva”.

Nas pedras nasceram figuras humanas, mais mulheres que homens, frutos, animais, “um jogo de coisas que vão surgindo” ao escultor e há ainda o azulejo, “também do tal processo destrutivo, porque há muito azulejo que se parte nas cozeduras” que faz e depois parte ainda mais para lhes dar “uma forma e depois incrustá-los na pedra”.

Nas telas de Fernanda Narciso há pedras e madeira e, pela primeira vez, uma vasilha com água, “água benta”, porque lhe faz “muita confusão” os “corredores das pedras das promessas em que as pessoas desgastam o corpo e desgastam a pedra a andar”, e a cera, que dá “imagens muito interessantes quando derretida na madeira e em bustos”.

Carlos Amado escolheu como mote a frase de Fernando Pessoa “não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança”, para uma das partes – da destruição da arte e da memória colectiva, cultural –, e a passagem bíblica sobre a destruição de Sodoma que questiona o poder de alguém decidir “que o outro não serve, pode ser destruído”.

A inauguração da exposição vai acontecer quando estará já a decorrer um encontro internacional de artistas plásticos, inserido na programação “Verão I.Str… É um Espanto!”, que trará à cidade 13 artistas plásticos de oito países – Polónia, Reino Unido, Rússia, Ucrânia, França, Brasil, Nigéria e Portugal.

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