O gesto arrojado de “Cuqui” ao encerrar- se na Praça “Daniel do Nascimento” para lidar seis toiros da ganadaria Palha, calou fundo no sentimento dos aficionados ao toureio a pé. Muitos duvidavam da capacidade do jovem diestro para enfrentar uma corrida tão exigente quando está pouco placeado por falta de oportunidades, outros tantos punham em causa os benefícios de tão ousado gesto quando se sabe que as oportunidades para os matadores e novilheiros portugueses são tão escassas.

Creio que também Joaquim Ribeiro “Cuqui” estava ciente dessas duas dimensões da questão, no entanto, a sua torería falou mais forte e decidiu correr todos os riscos, ainda que um desejado triunfo nada venha a alterar a sua situação profissional. Andou bem o jovem e valoroso diestro que ousou e venceu este tremendo desafio.

Em tempos idos quer os empresários quer os próprios aficionados valorizavam gestos desta índole e o toureiro lograria rubricar mais meia dúzia de contratos, porém, os tempos que atravessamos são bem diferentes e ninguém reconhece o mérito de quem se dispõe a tragar assim.

No mínimo, o empresário da Moita do Ribatejo, Ricardo Levesinho, tem a obrigação moral de o incluir num dos cartéis da Feira de Setembro e, eventualmente, numa das corridas de Vila Franca, terra tão aficionada ao toureio a pé.

“Cuqui” não escolheu facilidades, optou por uma ganadaria dura, que não facilita a quem a enfrenta, mas o diestro moitense exibiu-se num louvável plano de dignidade, explanando imensos recursos técnicos e artísticos, o que lhe valeu ter dado volta em cinco dos toiros que lidou e ter sido sacado em ombros no final da corrida.

Frente aos toiros mais complicados, os que lidou em primeiro e em quarto lugares, “Cuqui” demonstrou que é capaz de superar as dificuldades que lhes são impostas e sem perder o sítio cumpriu a sua função com a máxima dignidade, tanto no capote como com a muleta. Arrimou-se quanto os toiros lho consentiram, tragou uma imensidão e logrou tirar alguma água de um poço seco.

Com os restantes, que sem serem cómodos reuniam satisfatórias condições de lide, “Cuqui” abriu o compêndio e expendeu a matéria que costuma ensinar aos seus alunos da Escola de Toureio da Moita. Deu distância aos toiros quando estes a tinham, deixou-os embarcar na flanela e com elegância e suavidade foi construindo valorosas faenas, plenas de ofício, mas também com um certo duende, que caracteriza os toureiros que primam pela dimensão estética e artística do toureio.

Evidenciando competência na gestão da corrida, “Cuqui” foi alternando momentos de maior intensidade artística com outros de mais ousada exposição, ora recebendo os toiros de joelhos em terra, ora pisando terrenos do máximo compromisso, pondo toda a carne no assador.

Nesta memorável tarde de 21 de Maio, Joaquim Ribeiro “Cuqui” conquistou o respeito dos aficionados. Apesar de uma muito curta carreira de matador de toiros, “Cuqui” comprovou que reúne condições para funcionar mais, quer em Portugal quer em Espanha, pois apresentou excelentes credenciais que o recomendam. Valor, domínio, arte e ambição são alguns dos atributos com que é modelado este toureiro que justificou nesta tarde mais e melhores oportunidades. Se a opção ganadeira tivesse passado pela lide de toiros de diversas divisas talvez que fosse possível apreciar maior diversidade em termos do reportório artístico, mas perante toiros com idênticas características necessariamente houve alguma repetição de soluções. Porém, a nota final é amplamente positiva.

Nota positiva também para a quadrilha que se houve a contento tanto no manejo do capote como na colocação de pares de bandarilhas, tendo se destacado os escalabitanos Claúdio Miguel e João Ferreira. Fábio Costa, que esteve assessorado pelo médico veterinário Dr. Carlos Santos, dirigiu

o espectáculo com acerto e a praça registou uma entrada de público de 1/3 de casa, o que não é mau para a data.

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