O “Correio do Ribatejo”, de 30 de Setembro de 1939, relatava que “António Duarte, trabalhador, de Santa Comba Dão, que quando, acompanhado pela mulher, se dirigia, em busca de trabalho, de Almeirim para esta cidade, caiu, supõe-se que devido à fraqueza causada pelas privações, à vala daquela vila, vindo a falecer dias depois” (p. 6).

Este triste episódio era o retrato do Portugal do Estado Novo, cujo a economia continuava a assentar na agricultura de subsistência, com terrenos pobres e um elevado número de camponeses que se deslocava frequentemente do interior para as zonas de latifúndio, na esperança de vender a sua força de trabalho. Em 1940, Rafael Duque (1893-1969), ministro da Economia e um profundo conhecedor da agricultura, especialmente do Ribatejo, admitia que o problema daqueles tempos era o excesso de população e, por consequência, de mão-de-obra agrícola. Para combater este grave problema que atormentava o país, num quadro internacional complexo devido à II Guerra Mundial, lançou-se a “Campanha do Trigo”, nos latifúndios do Ribatejo e, especialmente, no Alentejo. “O celeiro de Portugal”, não obteve os resultados pretendidos pois nem combateu o desemprego rural, nem libertou o país da dependência cerealífera externa e acabou por esgotar os solos.

Apesar dos problemas explanados, o regime investiu, através da “política do espírito”, do secretário da Propaganda Nacional, António Ferro (1895-1956), na propaganda, evidenciando a imagem do mundo rural, das suas tradições, usos e costumes. O fruto dessa propaganda encontra-se expresso nalguns clichés do regime como: “Portugal é um país agrícola”, “Beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”, “Uvas fonte de saúde e alegria”, “Milho à terra”, “Capoeira povoada riqueza amealhada”.

Na década de 50, muita desta população do mundo rural passou a migrar para as cidades industriais ou a emigrar, o que reduziu a força de trabalho ligada ao cultivo da terra. É neste contexto que nasceu um dos maiores certames agrícolas do país, a Feira do Ribatejo, em 1954.

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A partir da Exposição Feira Distrital de 1936 e de outras feiras como a Exposição Feira de 1946, surgiu a ideia da realização de um certame agrícola anual, em Santarém. Na reunião da Câmara Municipal, de 4 de Fevereiro de 1953, o vereador Caetano Marques dos Santos (1900-1963) apresentou o seu projecto, “considerando que Santarém é a capital da província do Ribatejo e sede de distrito; considerando que esta província e distrito são sobretudo agrícolas; considerando que em Santarém se realizam duas feiras anuais, sendo pelo menos uma numa época quase morta e que só a tradição a tem aguentado; considerando que é preciso mostrar ao país a vitalidade do nosso querido Ribatejo, proponho: primeiro – que fosse criada uma feira anual em Maio ou Junho, depois de ouvidos os Grémios interessados e serviços técnicos competentes; segundo – que esta feira assentasse em moldes modernos e de elite para as espécies pecuárias; terceiro – que a duração fosse de oito dias; quarto – que fosse criada uma comissão presidida para elaborar o respectivo regulamento e manter a continuidade deste certame-feira e bem assim o nome da nossa terra” (Acta da Câmara).

A sua ideia obteve os apoios necessários para o primeiro certame se realizar entre 23 e 30 de Maio de 1954. A comissão que o organizou era presidida pelo vice-presidente da Câmara, capitão Joaquim Barros e Matos (1883-1954) e contava com a participação dos vereadores Caetano Marques dos Santos e Henrique Dias Vigário (1897-1954), do intendente da pecuária, Luís Hilário Barreiros Nunes (1905-), do director da Fonte Boa, Joaquim da Silva Portugal, do presidente do Grémio da Lavoura, José Infante da Câmara (1892-1961), do representante do Grémio do Comércio, Augusto Sobral Bastos, Celestino Graça (1914-1975), Joaquim Ferreira Campos, José de Sousa Rafael e Alfredo Ribeiro Noel de Oliveira (1913-1995). Se Luís Hilário Barreiros Nunes foi, durante anos, o presidente da comissão executiva da Feira do Ribatejo, o “senhor feira” rapidamente se salientou, Celestino Graça.

A mostra de máquinas agrícolas e de gados decorria no campo Chã de S. Lázaro posteriormente chamado Emílio Infante da Câmara e assentava numa avenida com pavilhões de expositores assentes nas representações da maioria dos concelhos do Ribatejo. A Feira centrava-se na Casa do Campino, numa primeira versão muito básica que, posteriormente, ardeu e numa construção mais robusta, inaugurada em 1965. O campino era a figura mais acarinhada da Feira tendo mesmo um dia de destaque. As corridas de campinos, a mostra de gado, as corridas de cabrestos marcavam a feira e as casas agrícolas da região. A contrastar com estes homens de trabalho queimados pelo sol da lezíria, as casas agrícolas apresentavam desfiles de cavaleiros ou de charretes protagonizados pelas elites desse mundo agrícola. As picarias permitiam testar a coragem dos mais audazes.

A partir de 1957, a construção dos pavilhões deixou de ser da responsabilidade das Câmaras dos concelhos ribatejanos o que levou à privatização dos espaços, a cargo dos expositores. Em 1963, o projecto da Feira tinha ultrapassado bastante os objectivos dos seus fundadores. Caetano Marques dos Santos assumiu que nunca pensou “que o certame viesse a adquirir êxito tão grande, em relativamente pouco tempo. Entretanto, sempre acreditei na sua utilidade como meio de propaganda da moderna lavoura e incentivo para a criação e seleccionamento das espécies pecuárias, objectivo, que creio, foi em grande parte conseguido. Onde foi admiravelmente ultrapassado, felizmente, foi no campo da projecção turística da nossa província, graças às múltiplas manifestações etnográficas que têm lugar na Feira e que em qualquer parte do mundo, constituem um expressivo cartaz da nossa terra. (…) Isto de se dizer que se os homens que fazem a Feira, amanhã por qualquer circunstância não possam continuar à frente dos seus destinos, a Feira deixará de existir, deve ser combatido como complexo pernicioso. Que Diabo, agora que a Feira está criada, enraizada mesmo nos nossos hábitos, decerto que haverá sempre gente à altura de a realizar. Mais que um dever, será antes uma obrigação daqueles que verdadeiramente amam a terra onde nasceram ou onde vivem” (“Notícias do Ribatejo”, 23/5/1963).

Em 1963, pela primeira vez, um país estrangeiro participou na Feira, o Brasil. A internacionalização do certame deu-se no ano seguinte, com a presença do Brasil, daí a mudança de nome, por despacho ministerial, para Feira Nacional da Agricultura. O certame que nascera no seio do Ribatejo e para o Ribatejo tinha ultrapassado todos os objectivos iniciais e tornou-se um evento nacional a fim de se internacionalizar e apresentar-se como uma fonte de propaganda especialmente no mundo ocidental, numa época de Guerra Fria. Nesse ano, constrói-se no recinto os pavilhões da Agricultura e do Artesanato e uma nova praça de touros. A internacionalização da Feira firmou-se em 1965, com a participação da França, da República Federal Alemã e dos Estados Unidos que se juntaram ao Brasil. A importância da Feira levou à construção de pavilhões definitivos e específicos dos países participantes.

Um certame com estas características, atraiu os apoios governamentais e a presença de ministros e presidentes da República, primeiro Francisco Craveiro Lopes (1894-1964) e, depois, Américo Tomás (1894-1987), quer na inauguração quer no decorrer do evento. A primeira feira foi inaugurada pelo ministro da Economia, Ulisses Cortês (1900-1975) e pelo Subsecretário da Agricultura, Domingos Vitória Pires (1903-). No decorrer da VI Feira do Ribatejo, a 21 de Junho 1959, na Casa do Campino, o presidente da República, Américo Tomás condecorou com a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial (Secção Agrícola) o vice-presidente da Feira, Caetano Marques dos Santos juntamente com o presidente do certame, Luís Hilário Barreiros Nunes, Celestino Graça e Joaquim Caetano Frazão (1893-1975).

Muitos dos discursos proferidos podem ser consultados integralmente nas páginas do “Correio do Ribatejo” que fazia edições especiais dedicadas à Feira, algumas com capa a uma cor e, a partir da década de 70, com uma revista em separata à edição do jornal. Muitos dos textos eram dedicados aos concelhos que participavam na Feira e aos expositores.

A Feira do Ribatejo teve momentos marcantes durante o período do Estado Novo, difíceis de enumerar, como: a declamação do poema “Em louvor do Ribatejo”, de Alberto Cardoso dos Santos (1876-1964), em 1955; a forte trovoada que provocou o pânico no recinto e levou ao corte de água e luz na cidade (23 de Maio de 1955); a prova automobilística “Rampa de Santarém” (1956); o espectáculo “Ode de Exaltação ao Ribatejo”, onde participaram o Orfeão Scalabitano, a Orquestra Típica Scalabitana e a Banda dos Bombeiros, dirigidos pelo maestro Herculano Rocha (1893-1964) (1956); a tourada à antiga portuguesa (26 de Maio de 1957); “Ode de Encerramento”, do maestro Herculano Rocha, dirigida pelo maestro António Gavino (1923-2005) (9 de Junho de 1957); o “Cortejo das Bandeiras de Adiafa” organizado por Celestino Graça e Viriato Ferreira; o “Cortejo do Trabalho” (1961) e o “Cortejo Etnográfico do Trabalho” (1963).
Os Festivais de Folclore estiveram sempre ligados à Feira. Em 1956, Celestino Graça fundou o Grupo Académico de Danças Ribatejanas que integrava o Grupo Infantil. Estes alcançaram grande sucesso, tornando-se embaixadores do Ribatejo. O I Festival Internacional de Folclore surgiu em 1958, investindo em grupos totalmente desconhecidos dos escalabitanos, como os dos Países de Leste.

Os tempos de mudança inicialmente marcados timidamente pela “Primavera Marcelista” avizinhavam-se. A ditadura agonizava. As mudanças da década de 70, especialmente o Golpe Militar de 25 de Abril de 1974, trouxeram novos figurinos e desafios à Feira.

As fotos foram cedidas pela família Marques dos Santos / Sacramento Marques e por Custódio Alexandre Silva.

Teresa Lopes MoreiraMemórias da Cidade

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