“Foi com a escrita que cresci, que conheci o amor, que me levantei quando podia ter ficado prostrado”

Nuno Garcia Lopes nasceu em Linhaceira, concelho de Tomar, a 27 de Novembro de 1965. Os livros têm sido o centro da sua vida como autor, editor, revisor, tradutor, investigador, professor ou divulgador. A sua obra literária editada consta de catorze volumes de poesia, monografia e literatura infanto-juvenil, alguns dos quais integram o Plano Nacional de Leitura. Tem sido diversas vezes premiado, e foi um dos fundadores do grupo O Contador de Histórias, com o qual tem vindo a realizar centenas de actividades de promoção da leitura e da escrita por todo o país.

Em que altura da sua vida descobriu a vocação para a escrita?
Estava no início da 2ª classe quando escrevi o meu primeiro poema, que integrei numa “revista” que fiz com notícias e outros textos. Acabara de descobrir a vocação literária e jornalística. Depois aconteceu essa coisa espantosa que foi o meu pai levar a revista para mostrar aos colegas de trabalho, e então percebi desde logo que seria esse o meu caminho.

O que inspira a sua obra?
A vida, essa coisa maravilhosa que faz do mundo um lugar fantástico.

Como é o seu processo criativo?
Geralmente, quando começo a escrever já tenho uma ideia do que pretendo. A poesia escrevo quase sempre em cadernos, ultimamente quase sempre com lápis. A prosa começa a maior parte das vezes em cadernos, mas pode ser feita no computador a partir de determinada altura. De uma forma ou de outra, transcrevo para o computador e nesse processo faço sempre uma revisão. E depois imprimo e faço nova revisão. Por vezes o resultado agrada-me desde logo, mas há situações em que tenho de deixar marinar, dias, ou até meses, e depois reler e rever de novo.

Tem algum tema predominante nos seus livros?
Creio que o tema predominante são as palavras. A literatura em geral, e a poesia em particular, são antes de mais jogos de palavras. Aquilo que tento fazer, de cada vez que escrevo, é dizer coisas que no geral já foram ditas com novas tonalidades, novas harmonizações, novos modos de jogar com elas. Claro que sempre com o objectivo de transmitir uma mensagem, sendo que a mais recorrente é que as palavras são o mais precioso dos bens que possuímos, com o qual podemos matar ou salvar alguém.

O que representa para si a escrita e, em particular, a poesia?
Tudo. Foi com ela que cresci, que conheci o amor, que me levantei quando podia ter ficado prostrado. Sempre.

Que livros é que o influenciaram como escritor?
Tudo o que li me influenciou, mesmo aquilo de que não gostei e que contribuiu para que não escrevesse de determinadas formas que considero erradas. Indo muito à génese, aos 16 anos ganhei um prémio de poesia, em Tomar, que me ofereceu o equivalente a uma prateleira inteira de livros, entre os quais vários de poemas que me revelaram todo um mundo novo (havia lá Mário Dionísio, mas também nomes obscuros como António Tavares Manaças). Durante meses escrevi de forma imparável testando todas as possibilidades. E algum tempo depois deu-se a minha descoberta do Herberto Helder. Fiquei de tal modo entusiasmado que retive o livro em casa um ou dois anos apesar dos postais insistentes da Biblioteca a solicitar a sua devolução.

Considera que um livro pode mudar uma vida?
Sim. Conheço vários casos de pessoas que o garantem. No meu caso pessoal, não houve um livro que o fizesse, mas é frequente chegar a uma biblioteca ou livraria, folhear um volume desconhecido, em especial de poesia, e abri-lo no texto exacto que precisava de ler nesse momento.

Tem outros projectos em carteira que gostaria de dar à estampa?
Há dois livros de poesia prontos e também duas colectâneas de contos, além de vários textos infanto-juvenis, todos ainda à espera de editor. Até final do ano vão ser publicados três contos alusivos ao Natal, em livros e jornais. E estou a trabalhar naquela que será uma das minhas obras mais importantes: um livro para crianças sobre uma das pessoas mais extraordinárias que conheci, a Lena, minha companheira durante 25 anos, que a doença nos roubou em 2019.

Um título para o livro da sua vida? 
A invenção do dia claro.

Viagem?
Montanhas e mares do Norte.

Música?
Do mundo, pop rock alternativo, toda a portuguesa de qualidade.

Quais os seus hobbies preferidos?
Jardinagem.

Se pudesse alterar um facto da história qual escolheria? 
O momento em que trocámos a capacidade de sonhar do 25 de Abril pela vontade de sermos ricos que se lhe seguiu.

Se um dia tivesse de entrar num filme que género preferiria?
O género (ou génio) do Tarkovsky, do Woody Allen ou do João César Monteiro.

O que mais aprecia nas pessoas?
Serem genuínas.

O que mais detesta nelas?
Não gostarem de pessoas.

Acordo ortográfico. Sim ou não?
Completamente em desacordo.

Foto: DR

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