Quando olho para trás, assim em jeito de balanço da vida, o que me ocorre? Muitas coisas, naturalmente. Muitos factos, situações, projectos não realizados, etc. Mas – é bom afirmá-lo: – certos momentos que vivi ficaram de tal modo apegados à minha memória, que os considero a minha tábua de salvação quando pergunto se a vida, para além da vivida profissional e familiarmente, teve algum sentido. Penso que sim. E então apetece-me lembrar.

1. A boa educação cristã que recebi de meus pais, a formação cultural que me foi dada pelos professores primários e liceais de grande nível;

2. A boa camaradagem que sempre mantive com meus colegas e amigos e foi muito importante.

3. Viver no campo, como eu vivi mais de trinta anos, onde se aprendem coisas maravilhosas, desconhecidas dos meus amigos da cidade; a intimidade com a agricultura, os animais domésticos e os bichos, os primeiros amigos, etc.

4. Quando comecei a trabalhar, depois de concluído o Liceu, em 1942, as lições profissionais de dois grandes chefes, António de Vasconcelos e Joaquim de Sousa Oliveira, respectivamente, tesoureiro e chefe de Secretaria da CM de Santarém (1943).

5. As horas que passei na Associação Académica de Santarém, na Biblioteca Braamcamp Freire e na Biblioteca do Liceu Sá da Bandeira, enquanto estudante, foram muito proveitosas;

6. A minha passagem pela Juventude Escolar Católica (JEC), Oh! O nosso amigo e velho padre Garcez, de Marvila, e os senhores padres que lhe seguiram. O coro da missa das 9, da JEC e a pianista (ao órgão), D. Georgina Perdigão. Depois na sede, na Rua Júlio Araújo (antiga Trav. Da Sardinha) os jogos e reuniões. Que formação recebemos! Fui duas vezes a Fátima pé, por Minde, e não sei quantas a partir de Chã de Maçãs (actualmente Estação de Fátima) e a 20 km da Cova da Iria;

7. A entrada para o Orfeão Scalabitano em 1942 (em 1953 passou a Círculo Cultural Scalabitano) e onde permaneci até 1965, fazendo parte de todas as secções, a saber: Orfeão, Orquestra Típica (guitarra), Orquestra de Câmara e Orquestra Sinfónica (violeta), Secção de Teatro (curso “Arte de Dizer e Representar”), com entrada em 12 peças. Foi uma grande ajuda, onde recebemos óptima formação musical e teatral.

Até cheguei a fazer uma parelha de palhaços com António Cacho, no Carnaval e Natal para entreter os jovens do Círculo Cultural. Não é vergonha dizê-lo, mas até fui convidado duas vezes para trabalhar no Circo, uma vez com o inesquecível Palhaço Kinito e outra com o Empresário da Circo Mariano, Harry Tony, que me desafiou a ir para Angola e Moçambique com a sua Companhia. Depois de pensar maduramente, apostei em ficar na minha velha cidade de Santarém e não seguir a vida de saltimbanco. Opções!

8. Outro marco importante da juventude foi o meu pai ter-me mandado aprender música com o Prof. Alfredo Ferreira, Regente Agrícola e 1º violino na orquestra do Orfeão e em Lisboa, na Orquestra Ligeira de Tavares Belo. Residia na rua João Afonso, nº 30, elemento de uma família de músicos, onde aprendi solfejo (Freitas Gazul), teoria musical e ensino de violino. Desisti ao fim de 3 anos. Que grande asneira cometi, meu Deus, mas retomei mais tarde o ensino do instrumento quando, em 1943, me dediquei à violeta para ingressar na Orquestra Sinfónica,

fazendo naipe com o velho músico e alfaiate, Sr. Eurico Ferreira Pinto, pai do advogado, Dr. Eurico Ferreira, com o sr. Joaquim Mata e ainda com o amigo, Eurico Peste, o quarteto das violetas.

9. Começar a escrever para jornais e revistas a partir de 1950 sobre temas de cultura e história da minha cidade e do Ribatejo. Foi entusiasmante. Foram muitos anos.

Em 2011, por exemplo, escrevi o artigo “A Procissão do Senhor dos Passos não se realiza há 46 anos”. Em Abril de 2016 (na edição comemorativa dos 125 anos do Correio do Ribatejo) ainda escrevi o longo artigo “O que Santarém deixou de ter…” e em Setembro escrevi “Evocação de um baile no Taborda nos anos 50”.

10. Ter entrado em 1948 para o saudável desporto – o Campismo – o que me permitiu ir conhecendo Portugal e diversos países da Europa. Magnífica experiência que durou cerca de dez anos. Colaborei na organização do 2º Acampamento Nacional que se realizou na Quinta dos Anjos em 1951;

11. O sonho, há tantos anos sonhado, de conhecer Paris, só o consegui concretizar em 1949, quando da minha participação no Rally Internacional de Campismo, realizado em Fontainebleau. Depois de uma maravilhosa viagem, o acampamento e finalmente uma semana na cidade luz! Oh! Torre Eiffel, como a abracei com um prazer indescritível! Nesta jornada inesquecível, fiz imensos amigos, sobretudo raparigas. A última vez que lá estive (depois de quase vinte visitas e passagens) foi em Novembro de 2012, onde participei, como Membro de Honra, num Congresso do CIOFF (Conselho Internacional de Organizadores de Festivais de Folclore e de Artes Tradicionais) onde tive o supremo prazer de encerrar o referido Congresso. Tinha feito 90 anos e já me desloquei com dificuldade…

Depois de Paris e de ter visitado a Bretanha, estive nos Rallies de Campismo na Bélgica (Spa), Itália (Florença) e muitas visitas a outras cidades europeias, sempre acampando. Mochila às costas e a pedir boleia, também tive as minhas desilusões: nem sempre corria bem. De tal sorte me dediquei a este belo desporto que pensei instalar um parque de campismo na cidade de Santarém ou perto, o que consegui com o apoio empenhado do Vereador Caetano Marques dos Santos: depois de visitarmos diversos locais, optou-se pelo parque da Câmara, local dentro da cidade, mas escondido pela vasta vegetação, onde se procedeu a diversas obras para instalação de sanitários, água corrente e portão para limitar o espaço. Muitos campistas ficaram neste parque, por uma noite ou duas, visitando a cidade e fazendo compras. Trabalhei bastante para a legalização deste local, indo mesmo a Lisboa à Federação de Campismo para o incluir no roteiro campista e colocando sinalização apropriada nas diversas entradas de Santarém. Qual não foi a minha desilusão quando um dia vejo que o Parque desaparecera? Tinha sido transferido para Alpiarça, para a aldeia avieira do Escaroupim. Como diabo foi possível deixar ir o parque, sem luta pela sua permanência? A senhora Cambra tem culpa … e eu estava em Lisboa…

12. Convite para fazer parte da equipa da Rádio Ribatejo, em 1951, uma iniciativa do Sr. Cap. Jaime Varela Santos, levou-me para um mundo desconhecido que me enriqueceu muitíssimo. Foram 5 anos de trabalho árduo, noitadas, gravações, escrever programas, fazer entrevistas, muitos contactos, etc., mas esforcei-me por cumprir com o que se esperava de mim. E fiquei amigo de toda essa malta! Convite para colaborar com o Cap. Varela quando se mudou para Lisboa. Recusei.

13. A entrada em 1954 para adjunto da Comissão da Feira do Ribatejo abriu-me portas de conhecimentos e de experiências que nunca havia sonhado. Um ano mais tarde entrei mesmo para a Comissão e até 1974 fui um dos adjuntos do Secretário-Geral, o grande Homem do Ribatejo, Celestino Graça. Para além do meu trabalho na correspondência, no gabinete de turismo, colaborei de modo intenso na organização dos festivais internacionais. Escrevi dezenas, centenas de cartas para o estrangeiro. Hoje faz-se tudo pelo computador. Saímos todos em 1974. Em 1977, já em situação democrática, voltei mais cinco anos para a Comissão da Feira a pedido do Sr. Presidente Ladislau Teles Botas.

14. A minha permanência no Círculo Cultural Scalabitano (antes só chamado de Orfeão Scalabitano) obrigava-me a ensaiar todas as noites: ou no Orfeão, na Orquestra Típica, na Sinfónica (enquanto durou) ou na Secção de Teatro. A nossa compensação eram as excelentes emissões para a Emissora Nacional (150), os espectáculos anuais, muito famosos, no Teatro Rosa Damasceno e as visitas a cidades amigas, em comboio especial, com todo o potencial artístico da nossa cidade, Orfeão, Variedades, Orquestras Típicas de grande nível, que sempre ficavam para recordar.

Foram mais de vinte anos nestas actividades artísticas regionais. Lembro-me de visitarmos a cidade da Covilhã (nossos irmãos da serra), depois (e não por esta ordem) Castelo Branco, Évora, Beja, Figueira da Foz, Aveiro, Rio Maior, Cascais, Mação. E não me lembro de mais saídas. Foi muito bom. Nestes tempos de grande entusiasmo orfeónico o Orfeão até cantou no S. Carlos, em 1945, a “Sinfonia Negra”, de Belo Marques, acompanhada pela Orquestra Sinfónica Nacional. Grande honra para o Coral de Santarém, assim chamado na altura. Mantive com todos os maestros – Belo Marques, Fernando Cabral, Joel Canhão e Silva Pereira – uma relação de franca amizade, colaboração e até admiração, pois além de orfeonista também fui arquivista das secções musicais e encarregava-me de fazer as cópias dos números escolhidos pelos maestros.

Este contacto que me transportava para a boa música ligeira e sinfónica muito me serviu depois em Lisboa (a partir de 1963) para me encantar com as dezenas de concertos sinfónicos, óperas e bailados a que assisti no Coliseu, São Carlos, Fundação Gulbenkian, Teatro S. Luís, Estufa Fria, Teatro Tivoli, etc. Só não colaborei com a maestrina Tilita Cravador.

15. O vereador Caetano Marques dos Santos, por volta de 1948 ou 49, então vereador encarregado da Comissão de Turismo, começou a chamar-me para acompanhar turistas pela cidade e desde então não mais parei. Todos os seus sucessores – Dr. Luís Hilário Barreiros Nunes, José Carlos Oliveira e Sollas e Alexandre Duarte da Silva Veríssimo – me fizeram idêntico pedido. Vinte anos ao serviço do turismo de Santarém. Só parei em 1963, quando fui para Lisboa, mas mesmo daí ainda trouxe muitos turistas a Santarém;

16. Outra grande referência do meu amor pelo Ribatejo foi, sem dúvida, a longa convivência com Celestino Graça, sobretudo nos nossos passeios pela lezíria ou pelo bairro, onde se deslocava na sua acção de técnico agrícola, chamado pelos proprietários e a quem aconselhava como proceder para a cura de diversos males que infectavam os seus produtos; era mesmo bom nestas práticas. Fez imensos cursos de podadores de oliveiras. A convite de Celestino Graça fui diversas vezes falar com os “ganaderos” e maiorais que já tinham apartado um curro de toiros para uma corrida da Feira do Ribatejo. Na Golegã era certo encontrarmo-nos com o bandarilheiro e muito bom rapaz, o José Tinoca, com quem lanchávamos, e Celestino Graça se informava de como iam os assuntos referentes aos toiros e toureiros para as próximas corridas.

Durante estas passeatas fiquei a conhecer algumas propriedades de referência no Ribatejo, como a Quinta da Broa, Marquês de Rio Maior, dos Coimbras, dos Infantes etc., integradas na província do Ribatejo desde 1937, devido ao bom trabalho do Dr. Virgílio Arruda, e saboreava as descrições do “mestre” sobre as característicasdos terrenos que íamos atravessando. Por toda a parte Celestino Graça era recebido por proprietários e campinos com grandes provas de amizade e admiração. Daí que era impossível não ver o Ribatejo com outros olhos e sentir como era diferente este pedaço de terra ribatejana, desde o ondulado Bairro até à extensa Lezíria e a afastada Charneca. Compreendi depois por que razão, nos ensaios dos Grupos Folclóricos que dirigiu, Celestino Graça, natural do Graínho (Fontainhas), explicava, com tantos pormenores a vida do campo e os seus costumes. Era realmente um “mestre” nestas matérias;

17. Como diversão é que dei bastante espaço ao Fado. Já em Santarém andei muitos anos na “fadistice”. Mas em Lisboa, posso afirmá-lo, conheci todas as Casas de Fado da época e fiz amizade com grande número de cantores de ambos os géneros, entre eles a grande Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Maria da Fé, Beatriz da Conceição, etc.;

18. Falta-me acrescentar a componente taurina. Porque gosto de Corridas de Toiros, Garraiadas, enfim, da Festa Brava, podem perguntar-me? Tenho resposta para esta questão. Vivi em S. Domingos 40 anos e era rara a semana, no verão, que não havia entrada de toiros que vindos das Cortezes (actual Avenida de Nossa Senhora de Fátima) subiam até à Praça de Toiros. Era uma festa para a malta amadora e mesmo para mim, encarrapitado em cima de uma oliveira a vê-los passar… por baixo.

O que os campinos sofriam com estas intervenções públicas! Depois, meu pai levava-me às corridas e (muito importante) tinha um irmão, António, chamado António Grande ou o Calmeirão, que foi sucessivamente forcado de cernelha, cabo de forcados e empresário das Praças de Toiros do Cartaxo, Figueira da Foz, Nazaré, Abiul e o primeiro a possuir uma Praça de Toiros Desmontável. Faleceu nos anos 50. Logo, eu tinha todas as razões para vir a ser aficionado;

19. Claro que, com toda esta bagagem adquirida na cidade, a viver em S. Domingos, beneficiando, portanto, do bom ar do campo, que me proporcionava assistir às entradas de toiros e confraternizar com amigos de infância (e não só!). Também é verdade que sempre tive um espírito irrequieto e por todas estas razões, procurei distribuir o meu tempo livre por diferentes actividades o que me fazia sentir feliz e útil, por “trabalhar” para a minha cidade, para o meu Ribatejo;

20. Também gostava de me divertir e era assíduo frequentador de bailes no Taborda, nos Caixeiros e na sua esplanada no campo de jogos “Albano Colaço”, por vezes nos Bombeiros Voluntários, no Club da Ribeira e em bailaricos populares e durante o Carnaval, em S. Domingos, em bailes por vezes só com um banjo e uma viola. Ainda estudante do Liceu, comecei a frequentar as praias do Tejo, onde aprendi a nadar, a andar de barco e conviver com os pescadores de Alfange, desporto que continuei pela vida fora a praticar até à minha ida para Lisboa. Futebol, só quando jogava a Académica e fazia claque pela “Briosa”. Custa-me dizer isto, mas não aprecio futebol nem nunca li jornais desportivos.

Sei que é um grande “negócio” e que vivem milhares de pessoas à sua sombra, mas … tanto entusiasmo e tanto dinheiro em jogo! Fui um doente pelo cinema e grande frequentador da “pildra” do Teatro Rosa Damasceno. Por vezes pedia dinheiro, uns tostões, aos amigos para ir ao cinema, pois vivi um período em que as “massas” não chegavam para tudo e tinha os remédios dos velhotes, despesa que não admitia desculpas. Cheguei mesmo a ter uma conta na Farmácia Veríssimo que só liquidei quando fui para Lisboa. Momentos difíceis”. Compras a prestações. Acontece!

Enquanto colaborador da Rádio Ribatejo, por acordo estabelecido entre as duas organizações, tínhamos entrada de “borla” no Cinema Rosa Damasceno, o que era uma delícia para mim. … Se em 1949 fui a Paris com o campismo, o gosto pelas viagens continuou a ocupar as minhas férias. E se este desporto e os festivais de folclore me trouxeram momentos de rara felicidade, o certo é que também vim a descobrir, “in loco”, testemunhos das atrocidades que o Homem é capaz de praticar, quando, cioso do seu poder e de uma ambição desmedida, sacrificou, sem dó nem piedade, vidas humanas aos milhares, invadindo países que viviam a sua vida normal e até feliz. Exemplos: em Agosto de 1952 fui convidado para acompanhar três amigos de Santarém (Drs. Eduardo Cambezes, Jaime Figueiredo e o António Coelho, de Almoster), e, de comum acordo, optámos pelo campismo como medida económica.

Deste pelouro me encarregava eu, com provas já dadas nesta actividade. E entre cidades belas (Nice e Menton, na “Riviera” francesa), Milão e Pádua, em Itália, Viena e Salzburgo, na Áustria), ainda Bona e Berlim, na Alemanha, gozando as óptimas paisagens e a boa disposição que entre nós sempre reinou, alguém sugere que visitemos os lúgubres Campos de Concentração de Mathausen, perto de Linz, na Áustria, e outros na Alemanha, como Dachau e Buchenvald, locais sinistros onde milhares de judeus, ciganos e resistentes anti-fascistas, para além de populares que nada tinham a ver com o terror da guerra foram martirizados. Assistimos, silenciosos e de alma amargurada, às tristes e horrorosas descrições que os guias nos faziam e que as instalações ainda existentes no local comprovavam, das atrocidades que os prisioneiros sofriam, executadas por oficiais e soldados imbuídos de um espírito desumano e cruel. Terríveis horas em confronto com esta triste realidade de que o Mundo deve envergonhar-se … Mas, ainda relacionado com as atrocidades dos nazis na Europa, recordo que, depois de mais uns anos de excelentes passeatas no verão, surge outra oportunidade, em Agosto de 1971, a que não consegui resistir e que me ia recordar esta viagem de 1952. Eu conto. Em Agosto de 1971, encontrando-me em Confolens, no Festival Internacional de Folclore, a 60 Km de Angoulême, considerado o mais bem organizado do mundo, alguém amigo me leva a uma povoação não muito longe, Oradur-sur-Glane, onde os “senhores” alemães, em 1945, assassinaram, em sucessivos fuzilamentos, numa trágica tarde de verão, 246 crianças indefesas, 239 mulheres e 190 homens, só porque em outra aldeia com o mesmo primeiro nome, e próxima desta, tinha existido um grupo clandestino de resistência aos alemães. Uma punição terrível e um massacre desnecessário (como são todos os massacres), pois a guerra já tinha terminado. Nessa aldeia mártir, deixada como ficou nesse triste dia, podem ler-se à entrada “Souviens-toi” – “Remember” e “Silence”. Saímos dali arrasados! Voltando a 1954, ou será que foi em 56? adquiri uma “lambreta”, paga a prestações, o que me proporcionou participar em acampamentos de campismo e gozar férias nas praias mais próximas. Fiz mesmo, acompanhado do Fernando Pereira (do Governo Civil), uma viagem ao norte do país, sempre acampando, indo pelo interior e voltando pelo litoral.

21. A ida de meus pais para Vila Nova, por volta de 1955, obrigou-me a deixar S. Domingos e arranjar quarto em Santarém. Quais?

22. Também neste ano (ou próximo) fui destacado pela Câmara para a Subdelegação de Saúde na parte da tarde, onde permaneci dois anos a trabalhar em consonância com o Clínico, Dr. Manuel Pereira Branco.

23. Seguidamente, pelo facto de o bibliotecário, Manuel Granado Vidal, ter atingido o limite de idade e reformar-se, fui enviado para a Biblioteca Braamcamp Freire, para conferir os livros e atender os leitores. Foi dos trabalhos que mais gostei de fazer, pois terminada a agradável tarefa de ver passar pelas minhas mãos os milhares de obras preciosas legadas por Anselmo Braamcamp Freire à nossa cidade, pude dedicar o meu tempo ao serviço da Biblioteca, pedindo à Câmara que adquirisse novas obras. Consegui autorização para a leitura domiciliária e abri as portas aos alunos das diversas instituições escolares de Santarém para visitas com seus professores ao fabuloso espólio de pintura, mobiliário e, naturalmente, algumas obras pouco vulgares. Depois da minha saída, em 1959, entrou para a minha vaga o funcionário municipal e distinto músico e amigo, Bertino Coelho Martins, para trabalhar com a bibliotecária, Dr.ª Maria Alzira Proença Simões, e ali se manteve até se reformar, em 1973.

24. E, finalmente, Lisboa, Novembro de 1962. Muito me custou deixar a minha cidade, os meus amigos, as instituições que servi com tanto prazer e carinho e toda esta envolvência da cidade a que estava habituado. Mas, há que tomar opções na vida como a experiência demonstra. Paciência!

O lugar que fui ocupar na firma, “Ferraz & Lynce, Lda.”, produtos farmacêuticos, na Rua Rosa Araújo, n.º 17, 1º, proporcionava-me o dobro do que ganhava na Câmara e permitiu-me, em menos de um ano, liquidar as minhas continhas de Santarém. Ufa! Que alívio! Fiquei em casa de meu irmão Idalino, em condições favoráveis, naturalmente, e iniciei uma nova fase da minha vida.

25. Devo, no entanto, acrescentar, que mesmo em Lisboa e até o Maestro Joaquim Luís Gomes dirigir a Orquestra Típica (1957), sempre vim com ele aos ensaios e aos concertos. Depois deixei de pertencer à Orquestra, mas acompanhei diversas excursões ao Ribatejo e a Santarém como guia, para as firmas, Claras e Wastells? Curso de Turismo no Instituto de Novas Profissões. Bolsa! O meu amigo, Dr. António Machado, do Seminário de Santarém e já em Lisboa, matriculou-me a mim e ao irmão Jorge, no Instituto de Novas Profissões, na Av. Duque de Loulé, em frente ao

Café Frontal, que comecei a frequentar. Foi um curso maravilhoso, com bons professores e onde arranjei inúmeros amigos (e amigas). Ampliei conhecimentos de Turismo e de Cultura Geral e cheguei a ser indicado para uma bolsa na Suíça, que não aceitei, pois, estava há pouco tempo em Lisboa e tive medo que falhasse e pudesse ficar sem emprego. Afinal a coisa era séria e podia ter tirado um Curso de Hotelaria na Suíça! Dos amigos do Curso posso destacar dois que vieram muitas vezes ajudar-me com os Grupos estrangeiros durante o Festival Internacional de Folclore: Amélia Neves, da TAP, e Vasco Sequeira Costa, irmão do pianista Sequeira

Costa, regressado de Moçambique.

26. Também durante anos acompanhei as visitas que os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa, estrangeiros, faziam no verão a Santarém, acompanhados de excelentes professores e que depois de recebidos na Câmara visitavam os monumentos da cidade, almoçavam nas Portas do Sol, onde Celestino Graça estava presente com o seu Grupo Infantil ou Académico. Era um delírio para os estrangeiros, vindos, por vezes, de 35 países onde se estudava português, assistir às danças do Ribatejo.

27. Ainda em Lisboa, como vinha semanal ou quinzenalmente a Santarém, terra dos meus encantos, fui convidado para fazer parte da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém, associação que foi consequência de, em 1977, uma equipa de scalabitanos amigos de sua terra, como Pedro Canavarro, Florindo e Jorge Custódio e alguns outros, ter levado a efeito a importante Exposição “Santarém – A Cidade e os Homens”, de grande impacto na cidade. Sou, portanto, um dos fundadores dessa Associação, que hoje pretende renascer, e esperamos que assim seja.

28. Entretanto, a partir de, mais ou menos 1982, comecei a levar para Vila Nova de S. Pedro, livros, muitos livros que já adquirira em Lisboa e que juntamente com os deixados pelo meu pai, já somavam cerca de 10.000 volumes, com benefício para a secção de história, de literatura portuguesa e estrangeira e ainda de etnografia. Claro que o Castro Arqueológico de Vila Nova de S. Pedro estava bem estudado, pois assistira às primeiras escavações pelos arqueólogos Padre Eugénio Jalhay, SJ, e tenente-coronel Afonso do Paço, com quem aprendi muito sobre o Castro, o que me permitiu acompanhar dezenas de turistas que ali se deslocavam.

A minha Biblioteca estava à disposição dos jovens estudantes da aldeia que necessitavam livros para os seus estudos e para mais gente que a ela recorria para satisfazer o desejo de ler. Durante mais de 20 anos, todos os sábados depois da catequese e domingos depois da missa o velho “Solar dos Moreiras” enchia-se de jovens que iam buscar ou entregar livros. Até havia fichas de leitores e tudo… E muitas vezes acompanhava-os pela aldeia chamando-lhes a atenção para as velhas chaminés e portas de postigo ainda existentes e aconselhando-os a não colocarem portas de alumínio como seus pais estavam fazendo. Este serviço voluntário durou até eu vir para Santarém, Centro de Dia, em 1999. Mais de vinte anos. Entretanto vendia a minha casa à Câmara de Azambuja, com direito à Biblioteca e mais recheio valioso, com a finalidade de a Câmara ali instalar um pólo cultural, o que o novo presidente não fez levando todo o recheio para o Museu de Azambuja. Grande desilusão para mim!…

29. Já em Lisboa e em anos que não vinha a Santarém durante as férias (poucas vezes) viajei pelo mundo, tendo visitado: Em África, Marrocos e Angola. A Ilha da Córsega, Turquia e Mar da Mármara, cidade de Kiev, na Rússia, a partir da Roménia e Mar Negro; na Ásia, Hong Kong, Macau e China; o México, o Brasil e Argentina. Nos Estados Unidos, além de Nova York, Washington, Filadélfia e, na Flórida, Miami, Palm Beach e as Ilhas Kay, até à vista de Cuba. Na Flórida também visitei a cidade de Orlando, donde parti para visitar a Nasa, no Cabo Canaveral (donde são enviados os foguetões), os Estúdios da MGM e Disneylândia. No Canadá, as cidades de Montreal, Toronto, Drumonville e as célebres quedas de água de Niágara Falls. Nestes últimos 4 anos (até 2012) ainda fui à Bulgária, Ilha de Cuba e Paris a Congressos do CIOFF.

30. Um percurso de vida tão variado e tão rico e, sobretudo pela minha dedicação a Santarém, acabou por chamar a atenção da Câmara e de diversas Associações da cidade, pelo que me honraram com algumas distinções, como: Medalha de Mérito Agrícola, concedida pelo Governo; Medalha de Prata, pela Câmara Municipal de Santarém; Diploma de Louvor (Feira do Ribatejo), pela Câmara Municipal de Santarém, atribuição do meu nome a uma Rua; Placa de Honra pela Federação do Folclore Português; Medalha de Bons Serviços, Classe Ouro, da Câmara da Azambuja: Sócio de Honra do Círculo Cultural Scalabitano e gravação do seu nome no mármore; Sócio de Honra da Casa do Ribatejo, Lisboa; Sócio de Honra dos Grupos Infantil e Académico, de Santarém; Sócio de Honra do Rancho de Ceifeiras e Campinos, da Azambuja; Sócio de Honra do Correio do Ribatejo; Diversos Diplomas de Cursos rápidos: Muitas Medalhas de Folclore.

Desde o ano 2000 que estou em Santarém, portanto há 16 anos, voltei a encontrar-me com a minha sonhada cidade, agora mais velha, a transbordar de casas pelas encostas e pelos bairros adjacentes, sinal de progresso, sem dúvida, mas com o Centro Histórico, mais envelhecido, abandonado e um comércio com dificuldades em sobreviver com a existência dos diversos Supermercados na área da cidade e as normas de trânsito impostas pela Câmara e, não só, também pela crise que assola o mundo europeu.

Particularmente, vou envelhecendo com alguns achaques normais, vou quando posso e me vêm buscar, a manifestações culturais. Com grande orgulho, fiz parte do Grupo de Guitarra e Canto de Coimbra (2000-2013) grupo que tem percorrido o país e já se deslocou ao estrangeiro, levando, consigo, a mensagem romântica da canção do Mondego.

E é tudo por agora. Falta referir por certo algumas actividades que desenvolvi em Santarém, como sejam, na qualidade de guia turístico, atravessar a cidade de autocarro para levar turistas às Portas do Sol, percurso hoje tornado impossível. Ou haverá soluções? A cidade é que perde.

De 2010 para cá tenho vindo a ter mais dificuldades em me deslocar tendo recorrido ao uso permanente de muletas (canadianas) e a vista cada vez mais deficiente (nada a fazer, só pôr pingos…), o que não me permite ler bem o jornal ou um livro o que, para mim, era uma necessidade premente. Tenho imenso desgosto de não poder ler, reler os nossos poetas e escrever… já não consigo escrever direito e depois ler.

Uma decepção! Tenho, felizmente, três amigos, os Drs. Ludgero Mendes, Nelson Ferrão e João Luís Madeira Lopes, que, atentos, me levam muitas vezes a ver um espectáculo – que sabem me agrada – ou no Círculo, Centro Cultural, Teatro Sá da Bandeira, Casa do Campino ou S. Francisco. Como lhes fico agradecido, amigos! Também o Dr. José Manuel Nogueira me vem buscar quando dos almoços mensais da malta do Liceu, mas o que custa, mesmo, a suportar, é subir 39 degraus para regressar a casa. Paciência, muita paciência. Não consigo resolver este problema!

Uma alegria semanal que tenho há alguns anos é o facto de o Prof. Vítor Serrão (filho amado do meu grande amigo Prof. Dr. Joaquim Veríssimo Serrão), me vir buscar para almoçarmos os três num restaurante da cidade ou em Alfange, suavizando, assim, o ambiente que o Prof. vive na Residência Assistida Vale dos Reis onde se encontra internado [faleceu a 31-07-2020]. O Vítor Serrão também já me levou a Fátima, a Almoster, Manique do Intendente e Vila Nova de S. Pedro, para além das passeatas com o pai pelas freguesias do concelho de Santarém.

PS – Reli este texto e cheguei à conclusão de que valeu a pena trabalhar por Santarém, Cidade que nada me deve e de que me orgulho de ser a minha terra, porque nela nasci em 22 de Agosto de 1922, bem no centro histórico, no Beco das Cortezes, nº5, 1º andar. (1.º Beco a seguir à Pastelaria Bijou).

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