Assinalou-se no passado domingo, dia 14 de Fevereiro, o dia de S. Valentim, dia consagrado também aos namorados. A escolha desta data para celebração do namoro assenta em duas tradições muito antigas.

Para uns, o dia dos namorados recai nesta data porque este era o dia em que antigamente se realizava o festival romano chamado Lupercália, o qual celebrava a fertilidade homenageando Juno (deusa da mulher e do casamento) e Pan (deus da natureza), para além de, ao tempo, assinalar também o início da primavera.

Para outros, é considerado o facto de o bispo Valentim de Roma (226-269) haver desobedecido às ordens do imperador Cláudio II, que havia proibido os casamentos em período de guerra, posto que, no seu entendimento, os homens solteiros seriam melhores combatentes, uma vez que não os apoquentavam tanto as responsabilidades familiares.

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Valentim, ignorando a ordem imperial, continuou a celebrar os casamentos dos jovens que o procuravam, pelo que foi preso e mais tarde condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens o visitavam e lhe ofereciam flores. Entre as muitas visitas que recebia incluía-se a jovem Artérias, filha de um carcereiro e invisual de nascença. Segundo a tradição histórica, Valentim, sensibilizado com a doença de Artérias, implorou a Deus para que a fizesse recuperar a visão e, certo dia, durante uma das suas visitas, uma luz radiosa iluminou a cela do cárcere e a jovem começou a chorar e… a ver.

Numa estratégia de menorizar as festividades pagãs em torno da mítica fundação de Roma pelos gémeos Rómulo e Remo, filhos do deus Marte e de uma Vestal, os quais foram amamentados por uma loba, o Papa Gelásio I (410-496) canonizou o mártir casamenteiro, constando no respectivo decreto papal que “São Valentim é venerado pelos homens, mas as suas acções só Deus as conhece”.

No ano de 1969 a Igreja Católica deixou de celebrar o dia de S. Valentim, quer por duvidar dos fundamentos da sua santidade, quer por questionar até a sua própria existência. Do que não restam dúvidas é que já na Idade Média se começou a considerar o dia 14 de Fevereiro como o Dia dos Namorados, porque, então, se dizia que este era o primeiro dia de acasalamento das aves e indicava o início da Primavera no hemisfério norte, sendo costume deixar mensagens manuscritas aos apaixonados na entrada da sua porta.

Nos nossos dias, a celebração desta data parece encontrar mais ânimo na sociedade de consumo em que vivemos, tudo parecendo tornar-se auspicioso para potenciar o comércio em torno da relação afectuosa dos namorados, sugerindo-se a troca de presentes, o que, como se compreende, muito contribui para a expansão comercial em torno desta festividade. No entanto, vivemos um tempo em que o namoro em si mesmo está particularmente ofuscado no seu ritual e na sua importância. Hoje, ao que parece, namora-se pouco, ou, pelo menos atribui-se menos significado ao namoro, tão facilitados estão os contactos entre rapazes e raparigas.

Como era, então, o namoro em tempos idos?

Como se sabe, a humanidade, tal como a natureza, é caracterizada por um constante processo de mudança, pelo que as tradições associadas a estas atitudes e manifestações de afecto têm conhecido inúmeras variantes, as quais não decorrem apenas do fluir dos tempos e da afirmação das modas, cada vez mais efémeras, mas também das variantes locais, que resultam da identidade social de cada região. O que aguça ainda mais o desejo que aprofundar este tão interessante tema.

Não tenho a pretensão de discorrer sobre as múltiplas expressões de namoro, o que constituiria uma tarefa tão hercúlea quão ingrata, no entanto, proponho-me referir alguns aspectos mais ou menos comuns no namoro à maneira antiga.

Chegada a idade “namoradeira”, como se lhe referiam as pessoas mais velhas, o rapaz começava a deitar o olho a alguma rapariga do seu agrado. A qual, para além de ser, desejavelmente, bem-parecida, pelo menos aos olhos do interessado, deveria reunir alguns atributos, como o de ser pessoa séria e de família honrada, de ser boa dona de casa, mesmo em tempo de miséria, o que implicava saber cozinhar, remendar a roupa e ser zeladora do asseio do lar. Cumulativamente, deveria aparentar ser boa mãe, pois, era hábito os casais terem muitos filhos.

Nas andanças do trabalho, na ida à missa ou, mais frequentemente, nos bailaricos tinham lugar as primeiras abordagens. Desde logo com simples trocas de olhares, depois, se havia correspondência, com algumas pequenas conversas e, se os ventos estivessem de feição, mais a sério, com o pedido de namoro. Pedido que, quase sempre partia da iniciativa do rapaz, pois parecia mal que fosse a rapariga a dar o primeiro passo, o que a vizinhança reprovava, qualificando a rapariga de oferecida.

Quando o rapaz fazia o pedido, era vulgar que a rapariga, se gostasse do rapaz, lhe dissesse que só podia responder depois da autorização do pai, e este se não lhe desagradava o futuro genro, autorizava o namoro e logo ali ditava as regras, porque o namorar tinha preceitos a cumprir.

O namoro começava sempre por ser muito discreto, até os pais da rapariga estarem certos das boas intenções do rapaz, sendo que os jovens namorados se falavam à janela, e depois, se as coisas corressem bem, é que o rapaz poderia namorar dentro de casa, em dias previamente determinados e sempre sob a vigilância de algum familiar da rapariga. Em regra, a avó ou um irmão mais novo. (Continua)

Ludgero Mendes

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