A subida abrupta do preço dos combustíveis, confirmada no início desta semana, desencadeou uma corrida aos postos de abastecimento em várias zonas do país durante o fim-de-semana, com muitos automobilistas a anteciparem o aumento anunciado para segunda-feira. O fenómeno, que deixou alguns postos temporariamente sem gasóleo, reflecte o nervosismo dos consumidores perante a escalada dos preços da energia provocada pelo agravamento da situação no Médio Oriente.
No Ribatejo, operadores do sector já antecipavam na passada sexta-feira que o mercado iria reagir rapidamente à subida das cotações internacionais do petróleo. Rosário Cordeiro, sócia-gerente da empresa J. M. Cordeiro, em Santarém, alertava então para sinais claros de pressão no mercado.
“No meu sector as coisas já se vão começar a sentir esta semana. Normalmente nós temos indicação de para onde vão caminhar os preços, para cima ou para baixo”, afirmou a empresária.
As previsões que circulavam no sector apontavam para um aumento significativo. “As previsões eram de subir cerca de 20 cêntimos”, referiu Rosário Cordeiro na ocasião, sublinhando que a subida poderia começar a reflectir-se rapidamente nos preços praticados nas bombas.
“Pelo menos este fim-de-semana ou segunda-feira já vai subir”, acrescentava.
A actualização de preços confirmada no início desta semana veio dar razão às expectativas do sector, num contexto em que o Governo anunciou mecanismos de compensação fiscal caso os aumentos ultrapassem determinados limites. Ainda assim, os operadores mantêm alguma prudência quanto à eficácia destas medidas.
“Supostamente o primeiro-ministro diz que tudo o que fosse acima dos 10 cêntimos iria ter uma ajuda. Vamos ver se vai conseguir”, observou Rosário Cordeiro.
Impacto que vai muito além do depósito
Para quem acompanha o mercado de combustíveis no terreno, a subida dos preços não afecta apenas os automobilistas. O aumento do custo da energia repercute-se rapidamente em toda a cadeia económica.
“Os combustíveis não envolvem só os particulares. Especialmente as empresas, os transportes, as distribuições, tudo isso”, sublinha a empresária.
Num território como o Ribatejo, onde o transporte rodoviário desempenha um papel central na actividade agrícola, industrial e logística, qualquer aumento significativo no preço do gasóleo tende a reflectir-se nos custos de produção e distribuição.
“É com muita preocupação que vejo estes tempos que estamos a passar”, admite.
O encarecimento dos combustíveis acaba, por isso, por atingir indirectamente diversos sectores da economia, desde o transporte de mercadorias à distribuição alimentar, com reflexos potenciais no preço final de muitos bens de consumo.
Temor de um choque energético prolongado
O receio mais profundo no sector prende-se com a possibilidade de o conflito no Médio Oriente provocar perturbações duradouras no abastecimento energético mundial.
Um dos pontos críticos é o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circula uma parte significativa do petróleo comercializado no planeta. Um eventual bloqueio ou perturbação prolongada nessa rota poderia ter consequências imediatas nos mercados internacionais.
“Se isto não pára a breve trecho, muita coisa pode parar”, alerta Rosário Cordeiro.
Segundo a empresária, os sistemas de abastecimento energético funcionam normalmente com margens de segurança relativamente limitadas, pensadas para absorver oscilações temporárias do mercado.
“As capacidades de armazenamento que existem não são para uma situação prolongada”, sustenta.
Crises sucessivas mantêm energia sob pressão
A actual turbulência no mercado energético surge num período em que o sector ainda recupera de outras crises recentes, nomeadamente a forte subida dos preços da energia após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Para Rosário Cordeiro, a sucessão de choques internacionais tem mantido os mercados permanentemente instáveis.
“Foi como a Covid e como outras crises. Na altura os cuidados são extremos e depois as pessoas relaxam e esquecem”, observa.
Contudo, sublinha, os preços raramente regressam aos níveis anteriores quando ocorrem crises deste tipo.
“A guerra da Ucrânia continua há anos e os preços subiram em todos os níveis. E agora temos mais este conflito.”
Petróleo dispara nos mercados internacionais
Desde o final de Fevereiro, as cotações internacionais do petróleo têm registado uma subida acentuada na sequência da escalada do conflito envolvendo o Irão. O preço do barril de Brent, referência para a Europa, disparou nas últimas semanas, reflectindo o receio de perturbações nas principais rotas de abastecimento energético.
Apesar de Portugal não enfrentar risco imediato de ruptura no abastecimento — graças às reservas estratégicas e à diversificação de fornecedores — os preços praticados nos postos acompanham inevitavelmente a evolução dos mercados internacionais.
Se a instabilidade persistir, o impacto poderá estender-se a toda a economia, pressionando custos de transporte, logística e produção industrial.
Para quem trabalha diariamente no sector, o risco maior é que a escalada dos preços ultrapasse a capacidade de adaptação da economia real.
“Os combustíveis não podem subir sem limite”, adverte Rosário Cordeiro. “Se isso acontecer, muitas actividades deixam simplesmente de conseguir funcionar.”
