“A criação é algo que vai crescendo dentro de mim até não ter mais espaço e a ter de passar para o palco”

Nuno Labau é um criador, bailarino, professor, produtor, barman, acrobata aéreo, empregado de mesa, entre outras coisas que vão aparecendo. Tem ascendência angolana e diz ser “só um rapaz que não se habituou a crescer e questiona tudo o que o rodeia”. A sua formação assenta em artes circenses, na EPAOE – Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo (Chapitô), tendo, ainda, estagiado na Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo onde pode estudar e praticar o trabalho de coreógrafos como Benvindo Fonseca, André Mesquita e Vasco Vallencamp, entre muitos outros. Nuno Labau é o responsável pela Associação Cultural Vaca Magra e foi professor de dança contemporânea no Conservatório de Música de Santarém. Actualmente frequenta a licenciatura em dança na Escola Superior de Dança.

Como é que nasce esta paixão pela dança? Não sei explicar como começa uma coisa que sempre existiu. O meu avô materno, João Santos, foi um enorme dançarino de danças de salão. Em Angola era muito conhecido por isso. Costumava mostrar-me o livro onde ele o nome dele eram mencionados por causa disso. O meu pai, Rui Labau, e o meu avô paterno, Custódio Labau, também dançaram no Rancho, e o meu pai fez teatro quando era mais novo. A minha mãe, Manuela Santos, cura as doenças a dançar. Acho que foi uma coisa genética, tinha de acontecer! Comecei a dançar aos seis anos num grupo de dança tradicional, o Rancho Folclórico da Sociedade Recreio e Educativa da Romeira. É a partir dessa idade que criamos a maioria das memórias, por isso sempre me lembro de mim a dançar. Sei que eu e uma amiga, a Vera, dos seis aos oito anos dançávamos fora da roda sozinhos a tentar copiar os movimentos de quem estava a ensaiar a sério, lá os vencemos pelo cansaço, e lá nos deixaram entrar.

Considera que para se ser um bom bailarino tem de se ter uma óptima formação? Depende do que estejamos a considerar formação. Não acredito – apesar de achar que facilita, ou não estaria a esforçar-me para acabar o curso na Escola Superior de Dança – que uma formação académica regular seja necessária. Ou seja, não acredito que o resultado de uma pessoa que pratica Dança Clássica e Contemporânea desde os seis anos, que tenha passado pelo Conservatório, e que tenha seguido regularmente a sua formação, seja a fórmula para um bom bailarino. Hoje em dia, conheço muitos casos de bailarinos excelentes que não tiveram formação regular, que até começaram no futebol, e só mais tarde enveredaram pela Dança. O que quero dizer é que acredito em formação, acredito que tem de existir a capacidade, vontade e horas de treino, seja ele de que tipo for, para controlar o corpo, e poder satisfazer as exigências do que é dançar. Agora se essa formação vem das danças de salão, do teatro, das artes marciais, do circo, ou de qualquer outra escola, não acho que seja relevante. Agora, há um aspecto essencial que um bailarino tem de ter, é a capacidade de interpretar, e de saber expressar essa interpretação através do movimento, essa capacidade para mim chega a ser quase mágica. É mais ter esta capacidade que me faz pensar no que é um bom bailarino, um bom performer.

Para além de bailarino e interprete é também criador de espectáculos de dança. Que trabalhos fez até aos dias de hoje? Aluário, uma interpretação de um dos trabalhos de Al Berto. Violência das coisas Insensíveis, um trabalho que abordava as cidades e a pressa, a repetição da rotina num cansaço reflectido em movimento. E Step 2 Duplicate, que aborda as questões de identidade permitidas pelas redes sociais, ou pela tecnologia. Estou neste momento a preparar o próximo espectáculo que será um solo meu, sem nome ainda.

Em que é que se inspira para realizar o seu trabalho? Acho que não me inspiro para criar. Talvez seja por isso que em tantos anos o repertório ainda não seja tão grande. Acho que a criação tem de sair de algo que já existe a priori dentro de ti, algo que te incomoda, ou algo que te exalta, que te faz transbordar de felicidade, mas normalmente é algo que vai crescendo dentro de mim até não ter mais espaço e o ter de passar para palco. Acho que as minhas peças são maneiras de lidar com o que não consigo processar da realidade ou sociedade em que vivemos, nesta perspectiva não me refiro apenas ao negativo, por exemplo, o próximo trabalho é um trabalho que tem o objectivo de voltar ao homem natural, ao “bom selvagem” do Rosseau, que é um desejo que se tem vindo a acumular em mim depois de ter trabalhado tanto a tecnologia e o conceito da utilização da mesma  e o seu impacto nas pessoas. Se for uma encomenda, inspiro-me no tema que me dão e pronto. Não há grande coisa a fazer aí, e às vezes com resultados surpreendentes para mim!

É director artístico na Associação Vaca Magra. Em que é se traduz este projecto? A ideia por detrás deste projecto sempre foi ligar artistas de áreas distintas, aliás, isso pode-se ver pelos membros fundadores do grupo que vêm de áreas de formação muito diferentes. Queremos também ser uma produtora activa com vários espectáculos em cena de vários artistas diferentes, desenvolver a comunicação dos mesmos. Eventualmente criar uma escola, e um espaço de apoio social. Pretendemos descentralizar a Arte e nesse sentido até estamos a ponderar mudar a nossa sede para Santarém. Pretendemos criar uma companhia oficial. Neste momento com os nossos quatro anos de existência, e pelo facto de termos todos vidas profissionais activas, a parte da produtora é a que funciona melhor. Os outros projectos dependem de trabalho que se cria ao longo de muitos anos, mas sinto que estamos no caminho certo. O meu trabalho reflecte-se em gerir todas estas coisas e dar visibilidade a este projecto, com as conquistas que vai alcançando.

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