Agosto marca, como é tradicional, o período mais emblemático das férias de verão. É uma época propícia à descontração e à boa disposição, convidando ao humor em convívios de amigos.

Não bastava a pandemia de COVID-19 para impor limitações ao convívio e à descontração, ainda se têm avolumado ao longo dos anos uma outra ameaça à boa disposição e ao sentido de humor: a postura do “politicamente correto” mais ou menos demagógico em nome de causas cuja solução não passa pelo silêncio, antes pelo contrário. Anedotas que evocam traços de nacionalidade ou geografia, género, filiação ou religião não são forçosamente nacionalistas, racistas, antidemocráticas, antidesportistas ou sexistas; são caricaturas de costumes, características da liberdade de pensamento e de expressão, próprias do convívio diverso e plural dos povos.

Gerações sucessivas de brasileiros caricaturaram os portugueses no seu país, num anedotário riquíssimo, que constitui hoje um legado histórico. O anedotário é o reflexo de uma imagem da imigração portuguesa e nunca beliscou o reconhecimento que os brasileiros nutrem pelo espírito empreendedor dos portugueses que muito contribuíram para alavancar a economia brasileira em meados do século XX. Podemos, mesmo assim, alegar que a imagem dos portugueses neste anedotário não é totalmente realista, logo não é justa; sem dúvida! Uma caricatura é uma deformação, não um retrato, e assim deve ser entendida e relativizada. O mesmo se passa entre nós com os alentejanos, com os holandeses em relação aos belgas, ou com os norte-americanos em relação aos polacos.

O humor tem um valor cultural e social inestimável e, quando bem feito, pode chegar a um nível de arte que muito valoriza a condição humana. A imposição de censura, ainda que informal, por pressão, a coberto de doutrinas “politicamente corretas”, quase sempre camuflando sentimentos de arrogância totalitária de quem se considera monopolista da razão, pode ter um efeito extremamente perverso de degradação da liberdade de expressão a troco de moralismos mesquinhos e sem consistência.

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Seria abominável chegarmos ao ponto em que o humor se tornasse uma matéria de tal maneira delicada e intocável que exigisse uma licença profissional. Só os humoristas profissionais, devidamente credenciados, poderiam contar anedotas e criar outras formas de humor. Como outras profissões com o exclusivo para a execução de determinados atos, como médicos, engenheiros ou advogados, poderia até ser constituída uma Ordem para regular o acesso e exercício da profissão. Só os membros da Ordem dos Humoristas poderiam, então, contar anedotas sem infringirem a lei. Parece piada, mas de humor negro. Do humor esperamos desordem!

Miguel Castanho – Investigador em Bioquímica

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