João Pedro Bernardo nasceu em Lisboa, no dia 17 de Novembro de 1965, no antigo Hospital Militar da Estrela. Dali, saiu para a cidade de Santarém, onde passou a infância e boa parte da juventude.

“Sou filho de duas pessoas de que me orgulho muito por serem como são e pela forma como criaram dois filhos, eu e a minha irmã, atravessando a guerra no Ultramar e uma revolução, em que ambos participaram, embora de formas diferentes. O meu pai a comandar um pelotão na Guiné, onde perdeu uma perna e depois a organizar uma revolução, como capital de Abril.

A minha mãe a aguentar o barco, connosco lá dentro, a ajudar a recuperação da mobilidade do meu pai e a ser sua cúmplice na revolução de 1974, sem nunca deixar de dar as suas aulas de geografia”.

É desta forma que João Pedro, autor do livro “Um Tango com Matilde”, uma obra composta por dez contos, escritos ao longo de 22 anos.

Em que altura da sua vida descobriu a vocação para a escrita?

Durante a adolescência. Devia ter cerca de 14 anos quando escrevi a minha primeira história na máquina de escrever do meu pai. Mais tarde, quando sai de Santarém para Lisboa, para estudar em Agronomia, fartei-me de ler e experimentei vários géneros literários. Comecei a escrever poesia e aos 19 anos tive um poema publicado no Diário de Notícias. Desde então nunca mais parei de escrever.

O que inspirou esta sua obra, “Um Tango com Matilde”?

É um livro de contos, dez contos para serpreciso, escritos ao longo de 22 anos e por conseguinte com inspirações variadas. Nenhum é autobiográfico, mas, “Nas Costas dos Outros”, “Trás-os-Montes” ou “Porto Novo”, retratam cenários ou ambientes que vivi de perto, embora com outra idade ou noutras circunstâncias. O conto “Um Tango com Matilde”, que dá o nome ao livro, é uma história figurada escrita num período singular da minha vida, onde conheci a minha actual companheira, a Mafalda (Matilde e Mafalda são nomes com a mesma origem).

De que trata este livro?

O livro aborda a natureza humana nas suas contradições e na sua fragilidade, mas também as nossas capacidades mais extraordinárias, a sensibilidade de que somos capazes, a forma como nos transcendemos e uma generosidade que teima em não nos abandonar. Por isso tem histórias que nos confrontam com diferentes ângulos sobre o mesmo problema, histórias onde a sátira tem o papel principal e outras onde a coragem surge de forma inesperada. Trata igualmente dos temas do amor e da sua ausência, e da sensualidade e do sexo, sempre omnipresente nas nossas relações.

Como é o seu processo criativo?

As histórias surgem-me de várias origens. Muitas delas são memórias fotográficas, pontos de partida, de passagem ou de chegada que depois desenvolvo. Outras vêm coladas na bagagem das minhas viagens.

A leitura, seja de notícias, factos históricos ou mesmo simples curiosidades ou as conversas de ocasião podem também despoletar o esboço de uma ideia, de uma história.

Quando começo a escrever só estão definidas algumas personagens e alguns cenários ou passagens. O resto vai-se desenrolando com o próprio processo. As personagens ajudam a escrever as histórias, é por isso que lhes dou profundidade e uma enorme autonomia.

O que representa para si a escrita?

Escrever é comunicar. A escrita é o acto de contar histórias. Eu gosto de as imaginar e escrever. Tal como na experiência da leitura, a escrita é uma forma de viver outra vida, neste caso criada por nós. Nesse sentido é um acto de criação, quase tão forte como ter filhos. São dois dos momentos em que nos sentimos mais plenos.

Para mim, escrever é um acto compulsivo, irreprimível.

Que livros é que o influenciaram como escritor?

Imensos! Cada livro que li contribuiu, de uma forma ou de outra, para criar dentro de mim um imaginário de onde saem as minhas histórias. Claro que uns contribuem mais que outros. Por exemplo, a colecção Argonauta sobre ficção científica, onde pontilhavam escritores brilhantes como Robert Heinlein, Ray Bradbury, Isaac Asimov ou Arthur C. Clarke, que li ainda muito novo, abriu-me a janela para a imaginação. Mais tarde, já na universidade fascinaram-me os escritores sul-americanos, Luís Sepúlveda, Gabriel García Márquez, Mário Vargas Losa, Jorge Luís Borges, Pablo Neruda, Jorge Amado, porque traziam uma escrita com uma riqueza narrativa profunda, mas sem condescender nos factos crus e realistas das suas vivências. Em termos individuais posso salientar algumas obras como a Colmeia de Camilo José Cela, a Crónica do Rei Pasmado do galego Gonzalo Torrente Ballester, a Criação de Gore Vidal ou O Perfume de Patrick Süskind. Em termos de grande impacto, pela capacidade criativa quase ímpar, está naturalmente O Senhor dosAnéis de J. R. R. Tolkien.

Considera que um livro pode mudar uma vida?

Um único livro pode ser perigoso por ser demasiado redutor. Eu gosto da universalidade e da diversidade no conhecimento.

Mas os livros têm essa capacidade. Se alguém não teve a sua vida influenciada pela leitura é porque nunca leu o suficiente.

Tem outros projectos em carteira que gostaria de dar à estampa?

Sim. Acabei de receber, em Agosto, o prémio de literatura infantojuvenil da Fábrica do Livro, partilhado com a Inês Costa, que ilustrou “O que esconde a barriga da cobra”. Este livro vai ser publicado em Novembro e será também a minha estreia na literatura para crianças e jovens. Em 2023 queremos repetir a dupla e escrever/ ilustrar outro livro para esta classe etária.

Tenho um segundo livro de contos em conclusão que me está a dar um grande gozo escrever, ainda sem data de publicação.

Gostava também de finalizar os meus dois romances inacabados, mas tenho de conjugar bem essa ambição com as minhas responsabilidades profissionais.

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