“A minha melhor fotografia é aquela que eu vou tirar amanhã”

Ao longo da sua história, a Santa Casa da Misericórdia de Pernes (SCMP) tem promovido a publicação de livros, que têm como objectivo registar e perpetuar no tempo uma identidade institucional e comunitária, preservando a história e a memória dos que para ela contribuíram. Nestas publicações, poderão encontrar-se desde monografias até registos de histórias de vida, de factos, de temas, de profissões, entre muitas outras abordagens de utentes desta Misericórdia ou das suas estruturas e património.

Um destes livros tem a particularidade de recolher o olhar único de Lúcio Caldeira, o ‘Poeta das Imagens’, que, aos 81 anos de vida, não consegue estar um dia sem fotografar.

Com o título “Um ponto de vista sobre a vida”, a obra foi editada em 2018, por ocasião do 431º aniversário da instituição, sob a temática “Mais que um Encontro, uma Partilha em Páginas de Misericórdia”.

Uma frase que encaixa, como uma luva, na obra que Lúcio Caldeira – que se define como “um apaixonado pela fotografia” – deu à estampa e que se orgulha em mostrar.

A fotografia cruza-se com a sua própria vida: foi aos 15 anos que, na AFARI, uma loja da Rua Augusta, em Lisboa, comprou a sua primeira máquina fotográfica. Custou-lhe 220 escudos, que pagou, do seu bolso, em dez prestações, com o dinheiro que ganhava no primeiro emprego, no antigo Banco Espírito Santo (BES), onde fez carreira como tesoureiro e prospector.

Natural de Alcanena, Lúcio Caldeira foi criado pelos avós maternos, numa quinta no Paço do Lumiar, pertencente a Azeredo Perdigão, ex-presidente da Fundação Calouste Gulbenkian.

Foi aí que o gosto pela fotografia e pela natureza se encontraram: “Passava a vida a tirar fotografias. Eu era miúdo e conhecia muito bem aquela zona. E foi nessa altura que começou o meu fascínio pela natureza, em particular pelos pássaros”, recordou.

Mais tarde, e já depois de ter casado e de se ter estabelecido em Santarém, comprou uma outra máquina, uma Canon, “semiprofissional”, que um cliente do banco, piloto da TAP, lhe trouxe dos Estados Unidos.
“Comprei-a por 470 dólares. Ia pondo, aos poucos, algum dinheiro de lado para comprar os dólares. Já era uma máquina que dava para fazer outras coisas”, disse.

Desde então, Lúcio Caldeira intensificou o seu gosto pela “captura de momentos”, ficando com eles para sempre. Foi investindo em novas máquinas e lentes. Hoje, encomenda-as da China: “demoram dois meses a chegar, mas compensa, em termos de custos”, confidencia, enquanto mostra a sua última aquisição, uma “lente luminosa, indicada para retratos”.

“Cada vez que estou a fazer uma fotografia, deixo um pedaço de mim. Estou a fotografar e estou a sentir aquilo que estou a fazer. Não fotografo no modo automático. Eu vivo o momento, cada disparo do obturador, como se fosse uma criança, porque fico inquieto para chegar a casa e passar as fotografias para o computador e ver como é que ficaram”, confessou-nos.

No computador, passa, depois, horas a ‘retocar’ imagens, a tirar-lhes as imperfeições, a corrigir o brilho, a ajustar contrastes: “para mim, fotografar é viver. Não sou capaz de estar um dia sem fotografar. Todos os dias fotografo, nem que seja em casa”, afirmou Lúcio Caldeira que mora actualmente numa Residência Assistida do Complexo da Quinta da Torre da Misericórdia de Pernes.

Lúcio Caldeira já obteve vários prémios e, inclusive, viu publicado, na revista ‘Visão’, um dos seus trabalhos, escolhido de entre as centenas de fotografias que possui na galeria do site ‘Olhares’, onde marca presença desde 2007.

“Eu coloco lá as fotografias mais para partilhar do que propriamente para alcançar notoriedade. Não ando à caça de votos. No entanto, já tenho mais de uma centena de fotografias em Galeria Pública”, diz, com orgulho.

Além da paixão pela fotografia, Lúcio Caldeira, que ocupou também diversos cargos políticos na Junta de Freguesia de Pernes, revela ainda um fascínio pela poesia. Tanto, que cada foto que coloca no ‘Olhares’ é acompanhada de um poema.

Uma das utilizadoras da galeria on-line, chegou a contactar-me para me dizer: “Lúcio, sei que os poemas que escreve não são para mim, mas qualquer mulher os pode interpretar como seus”, confidenciou.

“Eu achei isto fabuloso porque senti que, com o meu trabalho, consigo chegar ao coração das pessoas e até houve uma pessoa que me pôs o título de ‘Poeta das Imagens’”, afirmou Lúcio Caldeira.

E foi precisamente a fotografia publicada na ‘Visão’ que esteve na origem da mostra permanente, composta por 70 trabalhos, que a Santa Casa da Misericórdia de Pernes (SCMP) decidiu colocar no Lar de Grandes Dependentes, complementando a remodelação do espaço.

Confessando-se “orgulhoso, satisfeito e recompensado” por ter sido dado este destaque ao seu trabalho, Lúcio Caldeira não se sente, no entanto, um fotógrafo profissional, mas sim “um simples amador que vive a fotografia com paixão”.

“Nunca tirei nenhum curso de fotografia. Aquilo que sei vem de experimentar e da leitura de livros e artigos da especialidade. Sou um autodidacta”, diz, com um sorriso rasgado e sincero.

Lúcio Caldeira gosta de “acompanhar o espírito dos tempos” e, por isso, partilha o seu trabalho na rede social Facebook, onde constam mais de 800 registos fotográficos, que “são muito comentados e elogiados”.

Dos “milhares de fotografias” que já tirou, Lúcio Caldeira não consegue eleger aquela que mais gosta e cita, a este propósito, Henri Cartier-Bresson, um dos fotógrafos que admira: “A minha melhor fotografia é aquela que eu vou tirar amanhã”.

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