Antropólogo Aurélio Lopes lança livro sobre santos da terra

O antropólogo Aurélio Lopes apresentou este sábado, 16 de Março, no Fórum Actor Mário Viegas, em Santarém, o livro “Deuses Menores e Espíritos dos Lugares: Os santos da terra, em terra de santos”, sobre os padroeiros locais.

O livro, com a chancela da editora “Apenas Livros”, será apresentado pelo historiador Vítor Serrão, cabendo ao historiador Ernesto Jana a apresentação do autor.

A obra debruça-se sobre os santos, enquanto “símbolos e protectores de povos e lugares”, aqueles que “o povo elege para causas comuns” e considerados pelo autor como “fator primevo do surgimento da aldeia ou da freguesia”.

Aurélio Lopes, doutorado em Antropologia Cultural, disse à Lusa que o livro resultou do seu percurso de vida, pois o assunto está presente desde as suas primeiras publicações – uma dezena de livros publicados nos últimos 12 anos sobre cultura tradicional, especialmente na área do sagrado e da religiosidade popular – e “toda a gente contacta com ele”.

O tema “carecia de todo um conjunto de reflexões sobre as razões de ser” das lendas sobre fugas e aparecimentos de santos, do “santo ao pé da terra”, das “pequenas coisas que são hoje fruto de processos de dessacralização”.

Pensado inicialmente para sair em quatro pequenos fascículos, estes acabaram por constituir os capítulos do livro, que trata da imagem do santo e das suas idiossincrasias, do santo da terra, do lugar onde ele está, da “maneira como se comportam conforme o sítio em que estão”, e das promessas.

“Há casos muito curiosos”, disse, narrando, entre muitos outros, o caso da senhora dos Anjos de Punhete (actual Constância, no distrito de Santarém), que estava numa igreja antiga e, quando foi feita uma igreja nova, a imagem fugia para a velha.

“Resolveram então deixar lá a imagem e comprar outra para a nova igreja, mas ela, que era considerada uma divindade de muitos poderes, deixou de fazer milagres, uma porque estava na igreja nova, a outra porque estava fechada e ninguém lá ia”.

“Uma vez, uns indivíduos do convento do Loreto (em Tancos, no vizinho concelho de Vila Nova da Barquinha) pediram a imagem velha e eis que começa a fazer milagres. Eram tantos que o próprio director do convento teve que pedir à senhora para não fazer tantos milagres. Quando os indivíduos de Punhete souberam, exigiram a devolução da imagem, mas agora ela fugia para o convento e tiveram de a deixar ir para lá”.

Se a primeira parte do livro aborda “a maneira como a imagem é uma representação e ao mesmo tempo um representado, como é um foco de poder e não apenas um mediador de poder”, na segunda Aurélio Lopes aborda a questão do lugar, de como os santos ocupam o seu lugar e têm relações de vizinhança.

O terceiro capítulo incide no facto de cada terra ter o seu santo, havendo tantos santos padroeiros quantas freguesias há em Portugal, além dos outros santos de devoção das pessoas que podem ser até mais queridos que o padroeiro, como é o caso de Amiais de Baixo em que a padroeira é nossa senhora da Graça, mas o santo de devoção é o mártir são Sebastião e é em honra dele a festa da freguesia.

“O padroeiro tem um carácter essencialmente colectivo enquanto o santo da romaria é mais da busca individual”, cabendo aos padroeiros a protecção das comunidades, de pestes, de pragas, de inundações, de secas, sendo, por isso, a eles que é dedicada a festa da terra.

Aurélio Lopes referiu as práticas para pedir chuva, geralmente com uma deslocação até junto a um rio, onde se “revolve um penedo” (no passado, por jovens de nome Maria vestidas de branco), como um ritual em que se destapa um canal.

Deu o exemplo da senhora da Enxara, no concelho de Campo Maior (Portalegre), cuja lenda diz que apareceu em cima de uma pedra e que é levada, juntamente com a pedra, para o rio Xévora, onde é deixada até que volte a chover. Ou dos Amiais, em que, ao contrário, o santo é imergido de cabeça para baixo para que fique farto de água e não chova durante as festas.

Finalmente, o livro fala das promessas, individuais e colectivas, estas normalmente em situação de catástrofes, “muito invulgares, mas que se preservam no tempo”, como o caso da senhora de Aires, em Viana do Alentejo, onde ainda hoje se cumpre “uma promessa por causa de uma peste, feita por uns indivíduos de Évora”.

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