A arte do bunho em Santarém poderá vir a integrar o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, mas, para já, o processo encontra-se numa fase preliminar. Existe um anteprojecto, um esboço estruturado que identifica critérios, fragilidades e medidas necessárias para que, no futuro, a candidatura possa avançar com solidez. No centro da iniciativa está Vítor Lima, que defende a necessidade de preparar terreno antes de qualquer submissão formal. “O que foi feito foi um esboço de uma candidatura”, afirma, sublinhando que o objectivo não é apresentar um dossier simbólico, mas criar condições para “concorrer para ganhar”. 

A proposta assenta numa ideia clara de urgência. O bunho — planta ribeirinha que dá forma a bancos, cadeiras e outros elementos de mobiliário utilitário — distingue-se pela sua singularidade técnica e pela ligação histórica ao território scalabitano. Mas enfrenta fragilidades estruturais. “Há três defesas que se têm que fazer: uma é do bunho, outra é dos artesãos e outra é da arte. E por esta ordem. Sem bunho não há artesãos. E sem artesão não há arte.” 

Entre a escassez de matéria-prima, o reduzido número de praticantes e a ausência de presença pública consolidada na própria cidade, a arte do bunho encontra-se num ponto de inflexão. O anteprojecto agora delineado procura, precisamente, responder a essa encruzilhada: afirmar Santarém como território do mobiliário em bunho, estruturar mecanismos de formação e salvaguarda e criar visibilidade permanente antes de avançar para uma candidatura formal. O futuro da arte, defende Vítor Lima, dependerá da capacidade colectiva de transformar intenção em compromisso efectivo.

A arte do bunho em Santarém ainda não entrou formalmente no circuito das candidaturas a Património Cultural Imaterial. O que existe, para já, é um trabalho preparatório, um anteprojecto que procura reunir condições antes de qualquer submissão formal. Vítor Lima sublinha-o com clareza: “O que foi feito foi um esboço de uma candidatura. Apenas um esboço.” 

A estratégia, explica, não passa por avançar precipitadamente, mas por consolidar bases. “Concorrer para perder não vale a pena. Ou se concorre para ganhar, e temos quase a garantia de que ganhamos, ou então não faz sentido”, afirma, defendendo que o reconhecimento deve resultar de um processo estruturado e sustentado, e não de uma iniciativa avulsa. 

O caminho delineado assenta em dois momentos distintos. O primeiro, considera, deveria passar por afirmar Santarém como território de origem do mobiliário em bunho, através de um reconhecimento de âmbito europeu. “Primeiro reivindicar o nosso território como o território do mobiliário do bunho”, sustenta, admitindo que, sem essa salvaguarda, poderão surgir dúvidas futuras quanto à origem da prática. 

Só depois dessa consolidação territorial faria sentido avançar para uma candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, eventualmente até por via de salvaguarda urgente. “Quanto mais depressa esse processo for feito, melhor”, acrescenta, sublinhando que o reconhecimento europeu reforçaria a posição portuguesa numa eventual avaliação internacional. 

A génese da ideia remonta a um debate interno no Rotary Club de Santarém, onde surgiu a convicção de que o conhecimento especializado deveria ser colocado ao serviço da comunidade local. Entre várias hipóteses inicialmente ponderadas — desde festivais a manifestações culturais diversas — foi o bunho que acabou por reunir os critérios exigidos. “Quando o bunho apareceu, eu disse: vou incluir o bunho numa nova análise. E, para meu espanto, o bunho passava em todos os parâmetros”, recorda. 

Esse momento marcou a viragem. “A partir da altura em que passava em todos os critérios, comecei a refazer os elementos dirigidos ao bunho e não às outras”, explica, descrevendo um processo de afunilamento técnico, onde o entusiasmo foi substituído por verificação criteriosa dos requisitos. 

O que hoje existe, insiste, não é uma candidatura entregue, mas um documento orientador que identifica condições, fragilidades e medidas necessárias para que, no futuro, a arte do bunho possa ser apresentada com reais hipóteses de reconhecimento. “O que eu fiz foi um esboço daquilo que seria uma candidatura ganhadora”, resume. 

Uma arte diferenciadora e a via da salvaguarda urgente

O argumento central assenta na singularidade da prática em Santarém. Ao contrário de outras formas de cestaria ou de utilização da fibra vegetal, o bunho local distingue-se pela vertente utilitária ligada ao mobiliário. “A arte do bunho de Santarém diferencia-se porque é utilitária. Mesas e cadeiras. Não é ritual, não é tapete, não é esteira. É mobiliário”, sublinha. 

Essa especificidade, aliada à sua ligação ao ecossistema ribeirinho do Tejo, constitui um dos pilares da fundamentação apresentada. O bunho não é apenas matéria-prima; é expressão de um território, de uma prática consolidada e de um saber-fazer transmitido ao longo de décadas. Mas é também, alerta, uma arte exposta a fragilidades.

A própria técnica poderá enquadrar-se na chamada via da salvaguarda urgente, prevista nos mecanismos de reconhecimento patrimonial. “Há duas vias para concorrer: a via normal e a via urgente, da salvaguarda urgente”, explica, referindo que esta última se aplica quando existe risco real de desaparecimento. 

No caso do bunho, identifica três frentes de vulnerabilidade. “Há três defesas que se têm que fazer: uma é do bunho, outra é dos artesãos e outra é da arte. E por esta ordem. Sem bunho não há artesãos. E sem artesão não há arte.” 

A escassez da matéria-prima é uma preocupação que lhe foi transmitida pelos próprios artesãos. “O bunho aparentemente existirá em falta, segundo os artesãos”, refere, admitindo que essa dimensão ecológica reforça o argumento da salvaguarda. 

Mas o risco maior, sublinha, reside no reduzido número de praticantes activos. A continuidade da arte depende de garantir que o saber-fazer não se esgota numa geração. E é precisamente essa articulação entre diferenciação técnica e vulnerabilidade estrutural que, no seu entendimento, justifica a pertinência de avançar com uma candidatura sólida e estrategicamente preparada.

Três fragilidades: a planta, os artesãos e o saber

Para Vítor Lima, a eventual candidatura só faz sentido se partir de um diagnóstico claro das fragilidades que envolvem o bunho. E essas fragilidades não são abstractas. Têm nomes, têm causas e têm consequências.

“O bunho deve ser salvaguardado”, afirma, sublinhando que a matéria-prima é o primeiro elo da cadeia. 

A planta, que cresce em zonas húmidas, depende de equilíbrio ecológico e de práticas de colheita adequadas. Qualquer alteração significativa — seja na disponibilidade da fibra, seja nas condições ambientais — tem impacto directo na produção artesanal.

Mas a vulnerabilidade não termina aí. “Sem bunho não há artesãos. E sem artesão não há arte.” 

A frase, que sintetiza a hierarquia das prioridades, revela uma preocupação estrutural: a continuidade do saber-fazer depende de um ecossistema completo, que começa na natureza e termina na transmissão técnica.

O número reduzido de praticantes activos constitui, no seu entendimento, o segundo grande risco. A prática do mobiliário em bunho está concentrada em poucos artesãos, com idade avançada, e não existe ainda uma rede consolidada de formação que assegure a renovação geracional. A arte sobrevive, mas de forma frágil.

A terceira dimensão da ameaça é menos visível, mas igualmente determinante: a invisibilidade pública. Vítor Lima lamenta que, na própria cidade, não exista um espaço permanente onde o bunho possa ser visto e comunicado. “Não há nenhum sítio da cidade, neste momento, onde a arte do bunho esteja exposta”, observa. 

Essa ausência de presença institucional dificulta a afirmação do bunho como património identitário. Para que uma candidatura tenha consistência, defende, é necessário demonstrar que a comunidade reconhece, valoriza e promove activamente esse saber.

Por isso, insiste na necessidade de envolver instituições locais, designadamente a Escola Superior Agrária, não apenas para estudar a preservação da planta, mas também para investigar problemas técnicos associados às peças, como a sua durabilidade em ambientes húmidos. 

A componente científica, entende, reforça a credibilidade da salvaguarda.

O diagnóstico é claro: a arte do bunho não está extinta, mas está exposta. E é precisamente essa exposição — ecológica, demográfica e institucional — que fundamenta a ideia de que o momento exige planeamento e estrutura.

Criar condições antes de candidatar: formação, ciência e presença pública

Para Vítor Lima, a questão central não é apenas cumprir critérios formais, mas garantir continuidade efectiva. “Não basta só dizer que cumprimos todos os critérios. Temos de dar garantia de continuidade desta arte”, sublinha. 

Essa garantia, defende, constrói-se com medidas concretas. A primeira passa pela formação. “Tenho que ter formação de artesãos e tenho, obviamente, que aumentar o número de artesãos”, afirma, reconhecendo que o actual núcleo é insuficiente para assegurar futuro sustentável. 

Entre as hipóteses que elenca estão cursos de formação profissional, o envolvimento do Instituto do Emprego e Formação Profissional e até a introdução da técnica nas escolas técnicas locais. Não necessariamente para formar artesãos a tempo inteiro, mas para proporcionar contacto inicial com a prática. “Sem experimentação não há vocação”, observa, defendendo que o primeiro passo para despertar interesse é permitir que os jovens experimentem a técnica. 

Outra vertente considerada essencial é a componente científica. A Escola Superior Agrária de Santarém poderia ter papel determinante na salvaguarda da planta e no estudo de soluções para problemas técnicos das peças, como a susceptibilidade à humidade ou ao aparecimento de insectos. 

A integração do conhecimento académico reforçaria, no seu entendimento, a solidez da candidatura.

Mas a dimensão simbólica e urbana também é crucial. Vítor Lima insiste na necessidade de dar visibilidade pública ao bunho. 

O Mercado Municipal surge como hipótese privilegiada. Um espaço dedicado ao bunho, com demonstrações regulares, permitiria afirmar territorialmente a prática e simultaneamente valorizá-la do ponto de vista turístico e económico. “Se tivéssemos ali um espaço permanente, estariamos logo a marcar posição perante a própria candidatura”, sustenta. 

A ideia não se limita à exposição estática. Poderia incluir demonstrações ao vivo, momentos de experimentação por parte de visitantes e a presença regular de artesãos a trabalhar. Uma forma de transformar o bunho em experiência e não apenas em objecto.

Para Vítor Lima, a candidatura só deverá avançar quando estas condições estiverem criadas. Não se trata de um gesto simbólico, mas de um compromisso estruturado. 

Um território a afirmar e um tempo que não é infinito

Ao longo da entrevista, Vítor Lima regressa várias vezes à mesma ideia: o bunho não pode ser tratado apenas como memória. Tem de ser assumido como património vivo e como responsabilidade colectiva.

A defesa de uma eventual denominação territorial surge precisamente nesse quadro. “Primeiro reivindicar o nosso território como o território do mobiliário do bunho”, sustenta, alertando para o risco de, no futuro, outras geografias reivindicarem a mesma prática. 

O reconhecimento formal da origem funcionaria como escudo identitário e reforço estratégico.

A sua preocupação não é teórica. Admite já conhecer casos fora do concelho onde o mobiliário em bunho começa a surgir, o que reforça a necessidade de afirmar Santarém como referência histórica e técnica. Quanto mais cedo esse processo for estruturado, entende, maior será a probabilidade de sucesso numa fase posterior de candidatura patrimonial.

Mas a responsabilidade não é individual. O anteprojecto, como faz questão de sublinhar, não tem carácter oficial nem institucional. Resulta de iniciativa cívica, nascida em contexto associativo, e aguarda vontade política para ganhar escala. “Devemos olhar para a nossa comunidade e tentar resolver por meio da nossa comunidade”, afirma, defendendo que o conhecimento local deve ser colocado ao serviço do território. 

A decisão de avançar — ou não — dependerá, em última instância, do Município e da capacidade de mobilizar parceiros institucionais. O que existe é um trabalho prévio, uma base técnica e argumentativa que poderá sustentar um processo formal.

O tempo, porém, é um factor determinante. A continuidade da arte do bunho não está garantida por inércia. Depende de políticas activas, de formação estruturada, de visibilidade pública e de um compromisso claro com a salvaguarda da matéria-prima e do saber-fazer.

A proposta está delineada. Falta saber se Santarém a assumirá como desígnio estratégico.

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