Entre os dias 8 e 14 de Outubro, no âmbito do Dia Mundial da Saúde Mental, decorreu no Hospital Distrital de Santarém (HDS) a Semana da Saúde Mental, dinamizada pela Associação r.INserir – projeto OficINa – Arte Bruta Inclusiva, o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental e a Unidade de Psicologia do HDS, com o apoio do Correio do Ribatejo.

O programa iniciou-se com uma tertúlia dedicada ao tema “A arte cura?”, que ocorreu no dia 8 de Outubro e foi transmitida em directo através do Facebook do Correio do Ribatejo e do HDS (ver aqui).

Nesta tertúlia – moderada por Carla Ferreira, enfermeira do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém – Ana Carvalho, decoradora de interiores, David Antunes, cantor, compositor e pianista, Jorge Viegas, presidente da Exhibitio – Associação Lusa de Galeristas e José Salgado, psiquiatra e antigo galerista de Santarém, colocaram em diálogo as suas perspectivas sobre a arte e de que forma os processos criativos podem ser mobilizados como ferramenta terapêutica.

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“Portugal é o país da Europa com maior prevalência de doença mental na população adulta: um em cada cinco portugueses sofre de uma doença mental”, começou por contextualizar Carla Ferreira, apontando que o diagnóstico social no Município de Santarém identifica, precisamente a saúde mental “como um dos eixos no qual é necessário actuar”.

Segundo referiu, o mesmo diagnóstico aponta, ainda, a escassez de soluções de inclusão face ao crescente número de casos: “de facto, verifica-se uma falta de respostas para a reabilitação de adultos, de jovens, concretamente na Lezíria e Médio Tejo. Torna-se necessário criar respostas de inserção social e profissional”, afirmou.
Foi nesse sentido que o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental (DPSM) decidiu criar em 2016 o Projeto “INcluir – OficINas para todos e para cada um”, que se consubstanciou com o apoio financeiro da Fundação EDP. Este Projecto, alicerçado em OficINas de arte dinamizadas por um professor de artes convidado, permitiu descobrir o potencial artístico dos participantes, os utentes deste Departamento.

Com a dinamização e divulgação destas OficINas, que decorram em espaços cedidos e nas principais ruas do Município de Santarém, o Projecto tornou-se acarinhado pela comunidade e o grupo “ASAS pela Vida”, grupo voluntário local, dinamizou a “Festa AZUL” em 2018, o que permitiu ao Projecto “ganhar asas”, tendo sido a semente para a constituição da Associação R.INserir – OficINas para todos e para cada um.

Em 2018, diversificaram-se as OficINas artísticas com o Projeto IN_Cooking – OficINas de culinária, patrocinado pela Missão Continente, que possibilitaram aos participantes a aquisição de competências técnicas de culinária, com receitas saudáveis, bem como a aquisição de hábitos alimentares saudáveis, sob a orientação de um chef de cozinha. Estas OficINas contribuíram para o desenvolvimento da autonomia dos participantes no âmbito das actividades da vida diária.

Em 2019 foi criado um espaço próprio, contíguo às instalações do DPSM, designado “OficINa”, com o apoio do Prémio Fidelidade Comunidade e em 2020 surgiu o Projecto “OficINa.com”, com o apoio do Prémio BPI Fundação “la Caixa” Capacitar.

Surgiu assim o conceito de OficINas de arte bruta inclusiva – um espaço de liberdade artística, com carácter sócio profissionalizante, coabitado por artistas convidados. Pretende-se que as pessoas com Doença Mental (DM) se sintam artistas, tenham um espaço e liberdade para criar.

Estas OficINas têm carácter inclusivo dado que os grupos integram pessoas com DM, pessoas em risco de exclusão e pessoas da comunidade, mobilizando a arte como ferramenta terapêutica.

Segundo José Salgado, psiquiatra e antigo galerista de Santarém, a criação existe independente do estado psíquico e mesmo entre os que possuem doença mental.
“A arte representa a expressão de emoções. Há pessoas que as sabem exprimir melhor que outras. Mas todos nós podemos ter e podemos usar a arte como uma forma de partilharmos aquilo que pensamos sobre tudo o que nos rodeia”, comentou.

Apontando a “ligação natural” da área da psiquiatria à arte, José Salgado considerou que, actualmente, é consensual olhar-se para a arte “como arma terapêutica”.

“Não é por ter ou não doença que é melhor ou pior artista. A arte é uma forma de exprimir emoções que, no caso de pessoas que têm doença, são emoções que não percebemos imediatamente”, explicou, referindo que no hospital onde trabalha neste momento, no antigo Júlio de Matos, “há uma atitude desde há muitos anos de trabalhar a questão da arte ao nível da terapia ocupacional”.

“A arte está muito relacionada com a imaginação, com a capacidade de sonhar sem limites, e a capacidade de representar aquilo que somos. A ciência também pode ser criativa, não é um campo anti-arte. A ciência também é a procura de coisas novas e pode haver uma ligação muito clara entre a ciência e a arte”, defendeu.

Na perspectiva do médico, a arte de viver também é também um processo criativo: “eu costumo dizer que a única pessoa com quem vivemos 24 horas por dia é connosco e convém darmo-nos bem connosco. A criatividade passa muito por aí. Nós só somos uma obra acabada quando morremos e a nossa tarefa será, ao longo da vida, irmos aprendendo a viver melhor connosco”, afirmou.

Questionado sobre se “A arte cura?”, o médico psiquiatra foi peremptório: “sim, claro que contribui para que a pessoa se possa tratar. E para as doenças que são curáveis para, que a pessoa se possa curar”.

“É também uma forma de descompressão. Todos temos pressão no nosso dia-a-dia, e temos que ter mecanismos para descomprimir. A panela de pressão, se tiver válvula de escape funciona bem, se não tiver, rebenta”, explicou, concluindo: “se nos desgastamos, temos que compensar esse desgaste se não vamos adoecer. Há psicoterapeutas que fazem arteterapia, que é um contributo para o tratamento da pessoa”.

Segundo frisou, a arte não substitui o tratamento psiquiátrico, mas pode ser usada como mais uma ferramenta de intervenção, sendo uma forma “de trabalhar a auto-estima, a autoconfiança”.

E não há a preocupação de interpretar o trabalho do utente. “O objectivo é que a pessoa encontre significado para a sua criação. A arte estimula o imaginário simbólico da pessoa”.

Ana Carvalho, decoradora de interiores e responsável pelo restauro criativo e decoração da OficINa, a arte é, realmente, uma forma de catarse: “eu acho que a arte ajuda, efectivamente, a curar. Tive a oportunidade de ver o efeito do processo criativo nos utentes. Ajudou, sem dúvida, a curar”, afirmou.

“A nível pessoal, todos temos os nossos momentos, mais ou menos depressivos, mais ou menos felizes, e há determinados factores que nos ajudam. Eu sinto que o processo criativo me ajuda a conectar comigo própria”, confessou Ana Carvalho, que tem um ateliê de restauro criativo.

Sobre a experiência de trabalhar na OficINa – Arte Bruta Inclusiva, o espaço instalado no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do HDS, que tem como objectivo dar respostas de inclusão socioprofissional e a desmistificação da barreira do estigma associado à doença mental, Ana Carvalho revelou: “Fiz muitos amigos. É uma ligação que vai ficar para sempre”, afirmou, confessando que também ela chegou com receios inculcados por estereótipos, receando não saber lidar com os utentes, e que sente hoje “muito orgulho” do que resultou desta experiência.

David Antunes, cantor, compositor e pianista dispensa o título de “artista”: “não me considero um artista. Canto canções e o meu propósito na vida é fazer as pessoas felizes e fazer o que gosto na vida”.

Sobre o papel da música na saúde, David Antunes refere que a música pode, sem dúvida, “mudar o nosso humor”. Isso porque, “a música evoca em nós emoções e sentimentos diferentes”, afirmou, apontando que a música consegue melhorar a nossa criatividade, humor, concentração e bem-estar.

“Cantar, ouvir ou tocar uma música tem um grande poder sobre as emoções das pessoas”, disse.

De uma forma mais abrangente, Jorge Viegas, presidente da Exhibitio – Associação Lusa de Galeristas, considera que a arte faz parte da vida.

“Fazendo uma analogia com algo que está na moda, para mim, a arte tem funcionado como a terceira dose da vacina. Se cura ou não, não sei, mas eu vivo melhor com arte do que sem ela”, concluiu.

OficINa: um projecto que faz a diferença
Esta tertúlia decorreu no espaço OficINa – Arte Bruta Inclusiva, projecto do HDS para a estimulação da criação artística, desde expressão plástica, costura, reciclagem de móveis, entre outras expressões.

Esta oficina de artes tem aqui duas vertentes muito importantes, uma é permitir que qualquer pessoa, utentes ou não, possa vir aqui e possa produzir arte”, afirmou, em jeito de conclusão, Carla Ferreira.

A ideia deste espaço é, portanto, “permitir às pessoas, até ao cidadão comum, que experimentem produzir arte. Às vezes falta condições, falta acompanhamento e permitir que as pessoas venham aqui e explorem essa possibilidade nem que seja para dizer que não é importante. Gostávamos de ver aqui o pintor, a senhora a fazer arraiolos, escultor, músicos, o escritor, e por aí fora, qualquer artista, que pudesse usar este espaço nos dignificaria muito e ficaríamos satisfeitos”, afirmou.

A outra vertente importante, segundo a responsável, é permitir a essas pessoas que gostariam de ser artistas e desenvolver as suas capacidades artísticas de poderem observar outros a produzir.

“Gostávamos muito que artistas já com experiência viessem aqui produzir a sua arte, que usassem este espaço para o fazer e que permitissem as pessoas, inclusive os doentes, que pudessem observar. Gostávamos de poder ter aqui concertos, lançamentos de livros, exposições de fotografia, o objectivo é que a OficINa seja uma verdadeira casa dos artistas e das artes.

“Gostávamos que a oficina se transformasse nesse ponto. Que às pessoas associassem a palavra OficINa à palavra arte”, explicou.

“Acreditamos, igualmente que este é um espaço efectivo de combate ao estigma da doença mental, de reintegração e de inclusão na sociedade”, acrescentou, destacando o facto de o projecto incluir uma “componente muito valorizável”.

A OficINa, decorada com as peças que resultaram de uma oficina de restauro criativo de móveis e decoração orientada por Ana Carvalho, resulta de duas candidaturas a prémios no âmbito da responsabilidade social, um da Fidelidade Comunidade, que permitiu construir a sala, anexa ao serviço de psiquiatria, e outro do BPI “la Caixa” Capacitar, que permitiu dinamizar o espaço.

A reciclagem de móveis, com o reaproveitamento dos que não eram utilizados no hospital, decorreu com ajuda de uma monitora, no âmbito da preocupação da sustentabilidade que tem sido marca dos projectos do DPSM.

Além da reabilitação dos móveis e das peças que decoram o espaço, feita por um grupo de 10 utentes do hospital de dia, com o financiamento obtido foi adquirido um programa informático de reabilitação cognitiva, o RehaCom, “com bastante evidência científica no trabalho com pessoas com doença mental”.

“Este programa aliado com a parte das artes vai marcar a diferença no dia-a-dia deles”, salientou a enfermeira, adiantando que diariamente 35 utentes poderão fazer reabilitação cognitiva, através de programas parametrizados individualmente.

A nova sala exibe peças como um candeeiro de bloco operatório recreado com tule ou um espelho aproveitando a roda de uma velha cadeira de rodas, dispondo de mesas amplas de trabalho, um cantinho para leitura ou para quem queira aqui escrever, zona dos computadores e muitos materiais de artes arrumados em armários reaproveitados.

Ao longo da Semana da Saúde Mental decorreu, ainda, nas instalações do HDS a “Campanha Pensa Positivo, Ganha Saúde”, que visou promover a Saúde Mental através de mensagens positivas, dirigida a utentes e profissionais do Hospital.

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