Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, defende que a escolha dos pequenos frutos como tema da Feira Nacional de Agricultura reconhece o crescimento de uma fileira que passou de 85 milhões de euros em exportações, em 2015, para 398 milhões em 2025. O responsável destaca a vantagem competitiva de Portugal na produção de framboesas e amoras durante todo o ano, mas avisa que o futuro do sector depende de uma resposta estrutural ao problema da água.
A Feira Nacional de Agricultura tem este ano os pequenos frutos como tema em destaque. Que importância tem esta escolha?
É uma escolha muito justa para os empresários e agricultores do sector dos pequenos frutos. Estamos a falar de uma fileira que evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, tem cerca de cinco mil hectares de produção e números impressionantes: em 2015, Portugal exportava cerca de 85 milhões de euros em pequenos frutos; no ano passado, atingimos 398 milhões. Por isso, o facto de o CNEMA dar esta visibilidade ao sector, no maior evento agrícola nacional, é muito importante para nós.
O que explica este crescimento das exportações?
Desde logo, as condições únicas que Portugal tem, sobretudo junto à costa atlântica, para a produção de framboesas e amoras. Dos 398 milhões de euros exportados, 257 milhões correspondem à framboesa. A amora representa 74 milhões e o mirtilo 59 milhões. Portugal é o único país da Europa que consegue produzir amoras e framboesas todas as semanas do ano, graças à influência atlântica, com Verões menos extremos e Invernos menos rigorosos. A maior expansão deu-se no sudoeste alentejano, embora existam áreas importantes no Algarve e no Norte, sobretudo no caso dos mirtilos.
A origem Portugal já está suficientemente valorizada nos mercados internacionais?
Está mais valorizada do que estava antes da criação da Portugal Fresh, em 2010. Nessa altura, Portugal exportava cerca de 780 milhões de euros em frutas, legumes e flores. No ano passado, fechámos com 2,6 mil milhões. Também ganhámos escala na promoção externa. Antes íamos às feiras internacionais com 40 ou 50 metros quadrados; em Outubro, estaremos na Fruit Attraction, em Madrid, com 840 metros quadrados. Mas ainda há caminho a fazer, sobretudo na procura de mercados com maior valor acrescentado.
A União Europeia continua a ser o principal destino. Há margem para crescer noutros mercados?
Sim. A União Europeia continua a ser fundamental, mas há mercados com grande potencial. Estivemos no Dubai, em Hong Kong e na China, e já se encontra uma presença interessante de produtos portugueses nos melhores supermercados. Nos Emirados Árabes Unidos, algumas organizações de produtores já têm um peso superior a 10% das exportações. É um mercado com enorme poder de compra. Mas também temos de olhar para a Ásia e estar atentos aos acordos comerciais da União Europeia, como o acordo com o Mercosul.
Vê esse acordo com bons olhos?
Sim, mas com cautelas. A União Europeia é líder mundial nas exportações agroalimentares, à frente dos Estados Unidos e do Brasil, e tem uma balança positiva de cerca de 50 mil milhões de euros. Precisamos de acordos comerciais, mas também temos de garantir que as exigências ambientais, sociais e económicas não retiram competitividade aos agricultores europeus. O equilíbrio é essencial.
O sector pode continuar a crescer sem uma resposta estrutural para a água?
A posição da Portugal Fresh é muito clara: a primeira prioridade é a água, a segunda é a água e a terceira é a água. Precisamos de investir em reservas, charcas, reservatórios e barragens. Vimos com entusiasmo o anúncio de cinco mil milhões de euros até 2030 para o projecto Água que Une, mas precisamos de ver esses investimentos no terreno. Só cerca de 15% da superfície agrícola tem acesso a regadio. Sem água, não conseguimos aproveitar a enorme oportunidade que existe para a agricultura portuguesa.

