Um ano mais passou na já longa história do “Correio do Ribatejo”, consolidando, assim, a missão iniciada em 1891 pelas mãos de João António Arruda, homem empenhado em marcar o seu tempo através de uma prática cívica a todos os títulos notável, mas, outrossim, em legar a memória do seu tempo a um tempo futuro que então não se adivinhava muito auspicioso, tais eram os constrangimentos sociais, políticos e económicos que marcaram essa última década do século XIX.
O tipógrafo-jornalista João Arruda, homem inteligente, perspicaz e corajoso, assumiu sem temor as contingências dessa circunstância, e o tempo veio demonstrar que as credenciais deste jovem nascido na Ribeira de Santarém bastariam para assumir um papel tão relevante na defesa de princípios, de valores e de causas, que, então como hoje, despertam atitudes de retaliação, tentando atemorizar quem não hesita em defender a verdade e o bem-estar da população, opondo-se tantas vezes às medidas injustas, inadequadas e pouco sérias de quem detém o poder.
João Arruda viveu uma época muito conturbada, e se não vejamos: a mudança do século, assistiu ao regicídio, ao derrube da monarquia, à proclamação da república, à instauração da democracia, à instabilidade social e política decorrente das dificuldades de toda a ordem que afectavam Portugal e o mundo, o que originou a frenética nomeação e derrube de governos e de presidentes da república; depois deu notícia da Primeira Grande Guerra, na qual o nosso país teve intervenção directa, enviando militares para África e para França, do assassinato de Sidónio Pais e do golpe militar de 1926, encabeçado por Gomes da Costa, que escancarou as portas a uma ditadura militar; sofreu ainda as maleitas da gripe pneumónica, conheceu as vicissitudes da crise financeira de 1929, seguida de dificílima recessão económica, que impactou tão negativamente no nosso país, e ainda haveria de assistir, quase no final da sua vida, à emergência do Estado Novo, iniciado em 1926, mas consolidado através da Constituição de 1933.
Em 1934 faleceu este prestigiado cidadão que, não obstante haver iniciado a sua actividade como tipógrafo, haveria de ocupar cargos de grande relevância regional, como Vereador do Município de Santarém, Administrador do Concelho de Almeirim e Procurador à Junta Geral do Distrito de Santarém, tornando-se notável a sua acção regionalista nas diversas funções que exerceu, designadamente através do “Correio da Estremadura”, Jornal que fundou e dirigiu durante 33 anos.
Espírito culto, percorreu grande parte da Europa e Norte de África, tendo publicado as suas impressões de viagem em livros que intitulou “Cartas dum Viajor” e “Céus de Itália”, publicando ainda o livro “Através de Santarém”.
Esta referência, um pouco mais exaustiva, à figura e à obra do fundador do nosso “Jornal”, serve tão somente para lembrar os mais distraídos, que os há por aí, que este semanário regional já cá anda quase há século e meio e já viu muita coisa. Viu e documentou, para memória futura, pois se não fosse este nosso Jornal, que em cento e trinta e cinco anos de vida, que se completam no dia 9 de Abril, nunca faltou ao convívio com os seus Leitores uma única semana, não seria possível documentar a história de uma época tão fervilhante de circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais.
Como é possível conhecer-se em profundidade a história da região sem consultar este Jornal? Em quantas causas sociais, culturais, económicas e políticas não se envolveu este Jornal, para dar voz às populações, pugnando pelas suas legítimas ambições e expectativas, ou lamentando solidariamente as suas perdas e os seus fracassos quando não foi possível levar por diante os desígnios desejados?
Por morte do Fundador do Jornal, sucedeu-lhe no ano de 1934 seu filho, o prestigiado jurista e historiador Dr. Virgílio Arruda, que concluiu o curso de direito com distinção, em 1927, foi advogado, professor do Liceu e jornalista, ocupando alguns cargos da administração pública e que, em 1936 abriu as páginas do Jornal para defender a criação formal da Província do Ribatejo, o que viria a ocorrer na reforma administrativa desse ano, após os concelhos da região haverem organizado a Exposição-Feira Distrital de Santarém na qual evidenciaram grande potencialidade para se emancipar da antiga Província da Estremadura.
Num período autocrático, pautado pela censura e pela falta de liberdade democrática, o Jornal mudou a sua designação inicial para Correio do Ribatejo (1945), assumindo-se como o “Jornal de Todos e para Todos os Ribatejanos”, o que, efectivamente viria a acontecer através da abertura à colaboração de pessoas de todos os matizes políticos e das mais diversas condições sociais e económicas.
O Dr. Virgílio Arruda, historiador e escritor de reconhecido mérito, foi membro da Academia Portuguesa de História e viria a assegurar a transição do Jornal no período da instauração da democracia e da liberdade, em 1974, dirigindo-o até à sua morte, ocorrida em 1989. O Jornal nunca deixou de pautar a sua acção na defesa dos interesses regionais, assumindo o seu desígnio de valorizar a nossa região e as suas populações.
Em tempos de consolidação da democracia seria mais um ribeirense a tomar conta dos destinos do Jornal, José Bernardo de Figueiredo Duarte, homem muito experimentado na actividade jornalística, dispersa em inúmeros títulos regionais, e correspondente de alguns títulos de expansão nacional, entre os quais a Lusa e a Rádio Renascença, o que fez com elevada competência e muita dedicação, entre os anos de 1989 e de 2001, ano em que viria a falecer vítima de doença súbita.
Coube-lhe assinalar o centenário da publicação, tempo e espaço para a reafirmação dos propósitos matriciais deste jornal que, não obstante a sua adesão aos tempos modernos, nunca deixou de ser fiel aos desígnios do fundador, em defesa e em prol da valorização da região ribatejana.
Nos últimos anos da direcção de Bernardo de Figueiredo já João Paulo Narciso, então ainda um jovem jornalista, iniciado na redacção da saudosa Rádio Pernes, prestava a sua colaboração na redacção do Correio do Ribatejo, pelo que, sem surpresas, viria a assumir a direcção do Jornal nesse ano de 2001.
Os tempos fluíam agora mais freneticamente do que nunca, e por isso não poderia ser mais acertada a escolha de um jovem jornalista para liderar um projecto tricentenário, mas que na linha dos seus antecessores não rejeitava a modernidade, assumindo os riscos inerentes a esta evolução tecnológica. O segredo passava por manter a imagem séria que o Jornal detinha, ainda que se tentasse modernizar a sua apresentação gráfica. Não foi fácil, mas conseguiu-se.
Eis-nos agora em tempo de celebração de mais um aniversário, confrontados com as vicissitudes que a conjuntura internacional nos proporciona, pois nos últimos anos parece que não há nada que não nos inquiete, dificultando substancialmente a nossa existência. Num país onde o apoio à imprensa regional teima em não passar de discursos de circunstância, em oposição às medidas políticas que apenas têm servido para ajudar os mais fortes, ignorando-se, ou não se valorizando na devida medida, a acção determinante da comunicação social que vai resistindo quase milagrosamente num país que só pensa nas grandes urbes e nos maiores centros económicos.
Apesar de sermos uma pequena empresa, com um reduzido volume de negócios, o impacto dos impostos e das prestações sociais é avassalador, asfixiando uma tesouraria magra e com dificuldade em facturar montantes que lhe permitam olhar o futuro com algum optimismo.
Apesar de tudo, orgulhamo-nos por manter em dia todas as nossas obrigações legais, quer com o Estado, quer com os nossos Fornecedores, quer com os nossos Colaboradores. Não sabemos bem até quando, mas não nos eximimos a esforços para manter vivo este projecto e de oferecer à nossa região um órgão de comunicação social que respeitará a memória dos que nos precederam e prestará permanente homenagem aos que nos acompanham e continuam a acreditar no nosso projecto.
Obviamente, não seria possível pagar atempadamente as nossas contas se não fosse a confiança dos nossos Anunciantes, que acreditam no nosso projecto e apostam na nossa sobrevivência. Por isso lhes estamos reconhecidos, bem assim como aos nossos Leitores, sem cuja contribuição não seria também possível manter a nau a navegar em águas calmas.
Como escreveu há uns anos o nosso Director, num artigo de fundo publicado também em tempo de aniversário, “desistir não faz parte do nosso ADN e tudo faremos para prosseguir, com máximo empenho, a obra que nos coube continuar. Nunca antes o papel dos jornais foi tão importante na coesão social, na defesa do sistema democrático, no estímulo à solidariedade e consciencialização dos cidadãos. Esperamos poder continuar, por muitos e bons anos, a construir esse contributo.”
Estes continuam a ser os nossos votos, se pudermos continuar a contar com Todos vós! Obrigado pela confiança!
Ludgero Mendes
Ana Castelo
João Paulo Narciso
Verdade das Palavras, Comunicação Social Lda.
