A Biblioteca Braamcamp Freire, referência maior da vida cultural e intelectual de Santarém assinalou, na passada segunda-feira, 100 anos de existência ao serviço do conhecimento, da leitura, da investigação e da preservação da memória coletiva do concelho.

Inaugurada há exactamente cem anos, a Biblioteca Braamcamp Freire tem desempenhado um papel determinante na democratização do acesso à cultura, constituindo-se como um espaço central de aprendizagem, encontro intergeracional e valorização do património bibliográfico e documental de Santarém.

Em nota enviada à comunicação social, o Município de Santarém anunciou nesse mesmo dia que se encontra “em fase de tramitação” um processo de requalificação da biblioteca, estruturado em duas fases complementares, com o objetivo de “responder aos desafios actuais e de preparar este equipamento cultural para o futuro”.

A primeira fase, “de carácter imediato”, assenta na requalificação estrutural do edifício, através de uma candidatura ao Fundo de Salvaguarda do Património Cultural, encontrando-se este processo “já em desenvolvimento”. 

Segundo a autarquia, esta intervenção “visa garantir melhores condições de segurança, conservação e funcionamento do edifício, salvaguardando o seu valor histórico e patrimonial”, pode ler-se na mesma nota.

Paralelamente, o Município “está já a trabalhar na segunda fase de intervenção”, focada na “modernização e digitalização da biblioteca, envolvendo equipas técnicas multidisciplinares”. 

Esta fase terá como objectivo “reforçar a resposta às novas formas de acesso ao conhecimento, modernizar serviços, valorizar os fundos documentais e aproximar a biblioteca das comunidades, em especial dos públicos mais jovens”.

Para o vice-presidente da Câmara Municipal de Santarém e vereador com o pelouro da Cultura, Emanuel Campos, “celebrar os 100 anos da Biblioteca Braamcamp Freire é reconhecer o seu papel absolutamente central na história cultural e educativa de Santarém, mas é também assumir a responsabilidade de cuidar do seu presente e projectar o seu futuro”.

Para o autarca, este centenário coincide com um momento decisivo: “estamos a avançar com uma intervenção estruturante, numa primeira fase ao nível da requalificação física do edifício e, numa segunda fase, na modernização e digitalização dos serviços, garantindo que a Biblioteca Braamcamp Freire continue a ser, nos próximos cem anos, um espaço vivo, acessível e ao serviço de todos”, advoga.

Correio da Extremadura esteve na inauguração

O Jornal ‘Correio da Extremadura’ marcou presença, a 20 de Abril de 1926, na inauguração da Biblioteca. Nesta edição, na rúbrica ‘Correio Centenário’ (Página 25), recordamos a notícia com um século da inauguração daquela biblioteca pública “Anselmo Braamcamp Freire”, referenciada por António Arroio, como a “quinta biblioteca do país”.

Segundo o fundador do Correio da Extremadura, João Arruda, “foi um momento solene, de alta beleza espiritual, a festa inaugurativa da Biblioteca Braamcamp Freire que, na última terça-feira, – por entre os acordes da portuguesa e ao ressoar festivo do Cabaceiro – se celebrou no palacete dos antigos barões d’Almeirim, à rua da Amargura, generosamente doado, bem como o recheio bibliográfico e artístico, por esse formoso espírito e grande historiador que em vida se chamou Anselmo Braamcamp Freire”. 

A inauguração foi precedida, segundo os relatos da época, do descerramento da lápide que à Rua da Amargura deu o nome de Braamcamp Freire.

Conforme João Arruda revela no ‘Correio’ de 24 de Abril de 1926, “o Bibliotecário sr. Laurentino Veríssimo, exteriorizando o seu entusiasmo pela obra do grande doador, leu uma interessante memória sobre a fundação das bibliotecas em Portugal, trabalho revelador de paciente concatenação, que foi ouvido com agrado”. 

Coube depois ao “ilustre critico” António Arroio, “um dos mais devotados propugnadores do ensino artístico em Portugal, de tracejar o panegírico de Braamcamp Freire, como amigo da intimidade que foi do extinto, e a sua erudita e pitoresca exposição produziu o encantamento de todos os ouvintes”, incumbido que foi pela viúva de Braamcamp, de dispor nas salas do aristocrático palacete, os quadros de Anunciação, de Lupi, de Josefa d’Óbidos e de Bordalo, o mobiliário holandês e italiano, os bronzes e mármores de Teixeira Lopes, os potes e jarras indianas… Importa referir que à Biblioteca Braamcamp se veio juntar a Biblioteca Camões, existente em Santarém desde 10 de junho de 1880. Recorde-se o “Bibliófilo” de Bordalo Pinheiro, quadro furtado no ano 1978 dos Paços do Concelho – onde estava armazenado enquanto a biblioteca era restaurada – que voltou a casa no ano passado. 

No texto de João Arruda está bem claro que Anselmo Braamcamp Freire teve sempre a preocupação de dar a Santarém – terra para ele de grata recordação, onde nasceram e jazem seu pai e seu filho e onde por muitos anos viveu – esse riquíssimo património artístico e literário, “para que a cidade fosse de futuro um lugar de romagem, como o são tantas cidades de Itália, para os bibliófilos e para os artistas aqui virem de futuro estudar em obras raras, principalmente algumas manchas picturais, com o “signé” de grandes mestres, que não tem similar”. 

No acto inaugural coube a António Arroio o papel de “cicerone” que levou os visitantes da Biblioteca a todos os recantos do palacete, “saciando-os na sua natural curiosidade de conhecer a característica de todos esses mimos d’Arte, ali tão interessantemente, tão amoravelmente distribuídos”, hoje em dia, cem anos passados, a precisarem ainda de maiores mimos e cuidados.

João Paulo Narciso

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