Cinco anos depois de a pandemia ter impedido as comemorações do 150.º aniversário, os Bombeiros Voluntários de Santarém iniciaram as celebrações dos 155 anos com uma cerimónia marcada pela homenagem a antigos dirigentes, pela evocação da memória colectiva da corporação e pela apresentação de um livro que revisita mais de século e meio de história da instituição e da própria cidade. Entre discursos, distinções e recordações, o quartel-sede da associação transformou-se, durante uma tarde, num espaço de reflexão sobre voluntariado, serviço público e identidade escalabitana.
Cinco anos depois de a pandemia de covid-19 ter impedido a celebração plena do 150.º aniversário, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém abriu, no sábado, 30 de Maio, o programa comemorativo dos seus 155 anos com uma cerimónia em que a memória, a gratidão e a continuidade institucional assumiram o centro da sessão.
O encontro decorreu no quartel-sede da corporação, juntando bombeiros, antigos operacionais, dirigentes, autarcas, representantes de entidades da protecção civil e familiares de antigos associados, num ambiente marcado pela solenidade própria das grandes datas associativas, mas também por uma clara intenção de reparar o que ficara suspenso em 2021. O livro agora apresentado, inicialmente pensado para assinalar os 150 anos da associação, acabou por ganhar, precisamente por esse adiamento, uma dimensão mais madura e mais simbólica.
A ideia foi assumida logo no início da cerimónia: concretizar, com cinco anos de atraso, um projecto que a pandemia interrompera. A direcção quis separar este momento das comemorações formais do aniversário, que terão o seu ponto alto a 29 de Outubro, data da fundação da associação, para sublinhar o significado próprio da obra agora apresentada e das homenagens prestadas.
Por isso, mais do que uma sessão protocolar, a tarde foi construída como um acto de reconhecimento às gerações de mulheres e homens que serviram a corporação ao longo de mais de século e meio. A expressão “dar a vida pela vida dos outros” atravessou o sentido da cerimónia e ajudou a fixar o tom de uma evocação em que o passado não surgiu como mera recordação, mas como património vivo da cidade.
Ao mesmo tempo, a associação procurou mostrar que a memória não se opõe ao futuro. A apresentação de uma nova ambulância e a referência às obras de manutenção em curso no quartel deram à cerimónia uma leitura de continuidade: recordar os que construíram a instituição, mas também reforçar os meios de quem hoje continua a responder às emergências da comunidade.
Essa ligação entre passado, presente e futuro foi uma das linhas dominantes da sessão. A associação apresentou-se como uma casa que não quer perder a consciência da sua história, mas que continua obrigada a responder a exigências operacionais cada vez mais complexas, num território onde os bombeiros permanecem como uma das presenças mais reconhecidas nos momentos de risco, acidente, doença ou catástrofe, como transmitiu Ludgero Mendes, secretário da direcção da associação.
Já o presidente da direcção, Diamantino Duarte, resumiu essa preocupação ao defender que uma instituição sem memória dificilmente pode projectar o futuro. A frase ajudou a explicar a importância atribuída ao livro comemorativo, entendido não como uma obra meramente celebrativa, mas como um documento destinado a perdurar.
A sessão de 30 de Maio abriu assim as comemorações dos 155 anos com uma ideia central: a história dos Bombeiros Voluntários de Santarém não pertence apenas à associação. Faz parte da memória colectiva da cidade, da sua organização cívica e da relação de confiança construída entre a corporação e a população ao longo de várias gerações.
A homenagem aos homens da casa
A cerimónia incluiu as homenagens prestadas a José Júlio Eloy e a Hermínio Martinho, duas figuras ligadas, em momentos e funções distintas, à vida da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém.
José Júlio Eloy foi homenageado a título póstumo, com o descerramento da sua fotografia no salão nobre da associação, na presença da família. Antigo dirigente e associado benemérito, foi recordado como uma personalidade marcante da vida económica, social e associativa de Santarém, ligada a várias instituições da cidade e da região. No caso dos Bombeiros Voluntários de Santarém, exerceu funções dirigentes e manteve, ao longo dos anos, uma relação próxima com a associação.
A homenagem foi apresentada como um acto de justiça e gratidão. Na intervenção que antecedeu o descerramento da fotografia, foi sublinhado que há contributos que não se esgotam no tempo em que são prestados, porque continuam inscritos na memória das instituições. José Júlio Eloy foi evocado precisamente nesse registo: como alguém que serviu, apoiou e ajudou a consolidar uma casa que depende, desde a sua origem, da generosidade cívica de muitos.
Em nome da família, Gonçalo Eloy agradeceu a homenagem, destacando o profundo respeito que o pai tinha pelos Bombeiros Voluntários de Santarém e pelos valores que a instituição representa. Recordou-o como alguém ligado ao serviço, à responsabilidade e ao compromisso com a comunidade, associando essa memória à história da Agro-Ribatejo, empresa à qual José Júlio Eloy dedicou grande parte da sua vida.
Num gesto simbólico, Gonçalo Eloy entregou à associação a medalha comemorativa número 100 dos 60 anos da Agro-Ribatejo, cunhada em 2014. A peça, guardada pela família, foi entregue aos Bombeiros Voluntários de Santarém como expressão de gratidão pela homenagem prestada e como sinal dos laços de amizade e reconhecimento que unem a família à corporação.
Também Hermínio Martinho foi distinguido durante a sessão, pelo seu longo percurso ao serviço da associação. Antigo vice-presidente da direcção e presidente da Mesa da Assembleia Geral desde 1992, foi apresentado como uma figura de referência para a instituição, pela disponibilidade, pelo aconselhamento e pelo apoio prestado em momentos de dificuldade.
Na sua intervenção, Hermínio Martinho assumiu a surpresa pela homenagem e recordou a sua chegada a Santarém nos anos 60, a passagem pela Escola Prática de Cavalaria, a ligação à cidade e o envolvimento em várias instituições locais. Falou da Feira Nacional da Agricultura, da Santa Casa da Misericórdia, do Politécnico de Santarém e dos Bombeiros Voluntários, sempre a partir de uma ideia central: o serviço cívico como dever exercido com sentido de responsabilidade.
“Se todas as pessoas no nosso país que têm funções de responsabilidade e de trabalho e dedicação aos outros o fizessem como vocês fazem, o país estaria seguramente muito diferente”, afirmou, dirigindo-se aos bombeiros presentes na sala.
Um livro que revisita a história da cidade através dos bombeiros
O momento central da cerimónia foi a apresentação pública da obra “História dos Bombeiros Voluntários de Santarém — Metamorfoses, Percepções e Realidades”, um livro que ultrapassa claramente a dimensão de simples publicação comemorativa para se assumir como um trabalho de investigação histórica sobre a própria evolução de Santarém ao longo de mais de século e meio.
Da autoria do professor e investigador Luís Tavares Dias, a obra resulta de um longo processo de pesquisa documental e cruza a história da corporação com a transformação urbana, social e institucional da cidade. Ao longo da apresentação, o autor explicou que o trabalho foi estruturado em torno de três pilares fundamentais — território, pessoas e tempo — procurando demonstrar de que forma os bombeiros acompanharam a evolução de Santarém desde o século XIX até à actualidade.
O desafio surgiu no final de 2024, através da editora Caleidoscópio. A proposta inicial causou hesitação ao investigador, habituado sobretudo ao estudo da arqueologia, da paisagem cultural e da construção histórica do território. “Conheço mal Santarém e não percebo nada de bombeiros”, recordou ter respondido num primeiro momento. A resistência inicial acabaria, porém, por transformar-se num trabalho de investigação de grande dimensão.
A viragem aconteceu após os primeiros contactos com a direcção da associação e o acesso a documentação dispersa, arquivos antigos, actas, jornais locais e espólio histórico da corporação. Um dos episódios mais marcantes relatados pelo autor aconteceu quando começaram a surgir antigos sacos com documentação guardada desde a mudança do quartel anterior, materiais que descreveu como “peças arqueológicas”, sublinhando o valor histórico de documentos aparentemente esquecidos pelo tempo.
A investigação apoiou-se igualmente na colaboração da Biblioteca Municipal de Santarém, no trabalho de recolha e tratamento fotográfico desenvolvido por Carlos Lopes e na consulta aprofundada da imprensa regional, com especial destaque para títulos históricos da cidade, entre os quais o Correio do Ribatejo.
Ao longo da intervenção, Luís Tavares Dias procurou demonstrar que a história dos bombeiros não pode ser dissociada da própria evolução urbana de Santarém. O livro percorre a transformação da cidade desde a segunda metade do século XIX, abordando temas como a extinção das ordens religiosas, a reorganização urbana, a chegada do caminho-de-ferro, o crescimento das comunicações e a expansão da malha urbana para além do núcleo intramuros.
Nesse contexto, os bombeiros aparecem como testemunhas permanentes das mudanças da cidade. A obra revisita os diferentes quartéis utilizados ao longo do tempo, a modernização dos meios de socorro, a evolução das ambulâncias, o aparecimento dos primeiros veículos motorizados, a criação do quadro feminino e a expansão da actividade da corporação para zonas do concelho como Pernes e Alcanede.
Mas o livro vai além da dimensão operacional. Luís Tavares Dias procurou também recuperar aquilo a que chamou “o espírito de bombeiro”, cruzando relatos, documentos e testemunhos de antigos elementos da corporação. A obra aborda igualmente a banda dos bombeiros, as festas e iniciativas organizadas para angariação de fundos, a ligação da corporação à vida cultural da cidade e o papel desempenhado pela associação em momentos marcantes da história contemporânea.
Um dos aspectos mais sublinhados durante a apresentação foi precisamente o carácter transversal da investigação. O autor insistiu várias vezes que o livro não deve ser lido apenas como história institucional dos bombeiros, mas como uma obra sobre Santarém e sobre a relação entre uma comunidade e uma das suas instituições mais identitárias.
A dimensão material da publicação reforça essa ambição. Com cerca de 400 páginas e aproximadamente 250 imagens, entre fotografias, cartografia histórica e reprodução documental, a obra assume-se também como um importante instrumento de preservação patrimonial e de fixação de memória colectiva.
Durante a sessão, vários intervenientes destacaram precisamente esse valor documental. A direcção da associação considerou que o livro permitirá perpetuar a memória das gerações que passaram pela corporação, enquanto o presidente da Câmara de Santarém sublinhou a importância de deixar às gerações futuras um registo estruturado da história da instituição.
“Os bombeiros fazem parte da identidade profunda de Santarém”
A encerrar a cerimónia, o presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, colocou os Bombeiros Voluntários de Santarém no centro da identidade colectiva do concelho, sublinhando o papel desempenhado pela corporação ao longo de mais de século e meio de serviço público, proximidade humana e resposta às emergências.
Numa intervenção marcada pelo tom institucional, mas também pela valorização simbólica da corporação, o autarca considerou que os bombeiros representam uma das expressões mais visíveis da capacidade de uma comunidade se organizar em torno da solidariedade e da ajuda ao próximo.
“Mais de século e meio de história não representa apenas um número, mas gerações inteiras de homens e mulheres que ao longo do tempo escolheram servir”, afirmou, referindo-se aos bombeiros como exemplo de coragem, disciplina, entrega e espírito de missão.
João Teixeira Leite sublinhou que a história da associação acompanha a própria evolução de Santarém, atravessando diferentes épocas políticas, sociais e económicas sem perder aquilo que definiu como “a identidade de serviço público e proximidade humana” da corporação.
Ao longo da intervenção, o presidente da Câmara procurou igualmente recentrar a atenção sobre os desafios contemporâneos enfrentados pelos bombeiros. As alterações climáticas, os fenómenos meteorológicos extremos, a pressão crescente sobre os serviços de emergência e a exigência operacional permanente foram apontados como factores que obrigam as corporações a um esforço contínuo de adaptação e modernização.
Nesse contexto, defendeu que o reconhecimento pelos bombeiros não pode limitar-se ao plano simbólico ou às homenagens ocasionais. “Valorizar os bombeiros não pode ser apenas um exercício de gratidão simbólica”, afirmou, defendendo a necessidade de garantir investimento, meios e condições adequadas para o exercício da missão.
O autarca garantiu que o município continuará a manter uma relação de proximidade e cooperação com a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Santarém, reforçando o apoio institucional à corporação.
A intervenção procurou também valorizar a dimensão humana da instituição, dirigindo uma palavra particular aos bombeiros mais jovens, apresentados como garantia de continuidade de uma tradição de serviço comunitário que atravessa gerações.
“Num tempo em que tantas vocações parecem enfraquecer, é motivo de esperança ver jovens disponíveis para servir a comunidade”, afirmou.
Ao mesmo tempo, João Teixeira Leite recordou os antigos comandantes, dirigentes, operacionais e respectivas famílias, reconhecendo o papel silencioso de quem, muitas vezes longe da visibilidade pública, sustentou a actividade da corporação ao longo das décadas.
“Há instituições que fazem parte da identidade profunda de uma cidade. Os Bombeiros Voluntários de Santarém são uma dessas instituições”, afirmou o presidente da Câmara.
