Quando nasceu em Novembro de 1638, em Vila Viçosa, Catarina Henriqueta de Bragança não era nem princesa, nem infanta. Filha de D. Luísa de Gusmão e D. João IV, que se tornou Rei de Portugal, após a Restauração da Independência em 1640, que libertou Portugal dos sessenta anos do domínio espanhol. A vida da pequena infanta, estava destinada a inquietações logo, desde jovem. Apesar da luta contínua contra a Espanha, Catarina desfrutou de uma infância feliz na sua benquerida Lisboa. Poucos dias antes de completar 18 anos, o pai faleceu e a mãe, tornou-se regente do reino, ficando a braços com um difícil conflito com Espanha, que declinava a legitimar a independência de Portugal. Foram precisos quase trinta anos, para que a paz fosse totalmente acreditada. D. Luísa de Gusmão, aquela que asseverou: “antes Rainha uma hora, do que Duquesa toda a vida”, cogitou que uma boa maneira de terminar a luta com os espanhóis, seria reforçar a nossa antiga aliança com Inglaterra, através do casamento da sua filha Catarina, com o rei britânico, Carlos II, que ainda estava solteiro.

O soberano inglês, deleitado com jovem infanta, que viu através de uma pintura, e bastante agradado com o dote de quinhentas mil libras, assim como a hipótese de passar a governar Tânger, no norte de África, Bombaim na Índia, e usufruir de benefícios, no comércio nos portos portugueses do Brasil até ao Sudeste Asiático. Todas estas mercês devido ao casamento Anglo-Português, possibilitou que a Inglaterra desses passos decisivos, para se tornar um Império Global.

A princesa Catarina de Bragança, chegou a Portsmouth no dia 13 de Maio de 1662. A narrativa de diplomacia e devoção pessoal, protagonizada pela princesa portuguesa, começara. Catarina e Carlos II casaram-se oito dias depois.  A futura Rainha de Inglaterra mostrou logo a força do seu carácter a partir do momento em que obrigou Carlos II a duas cerimónias de casamento: uma pela Igreja Católica, em segredo, e outra pela Igreja Anglicana, em público. Por ser católica, não pode ser coroada.  Inicialmente, a nova rainha, uma católica devota educada num convento, achou difícil se encaixar na corte inglesa, conhecida por sua efervescência e modos mais livres. A vida de casada com o monarca inglês não foi fácil, e apesar de alguns momentos de tensão com o marido, e do ódio que a elite social inglesa tinha por si, Catarina de Bragança provocou uma autêntica revolução na vida social, inserindo na Corte inglesa novos hábitos. Sentindo-se deslocada, e por vezes, só e desvalida, a Rainha Catarina diligenciou refúgio nos seus rituais familiares. Recolhia-se aos seus aposentos, para tomar chá. Mais do que consumir uma bebida, a monarca concebeu um templo: uma pausa sagrada de harmonia, paz e calma, no meio do alvoroço do palácio. Este gesto singelo e íntimo, reiterado diariamente, foi o primeiro, e mais poderoso catalisador, para a popularização do chá na Inglaterra.

O ritual de Catarina, bem como o seu apreço evidente pela bebida, tornou o chá uma verdadeira moda na Inglaterra. Primeiramente entre as damas da Corte e, progressivamente, permeando toda a nobreza, que se rendeu ao gracioso elixir. O próprio chá, assim como as delicadas peças de porcelana para o seu preparo, eram guardados com carinho nos armários dos aposentos.  Para além do “Chá das Cinco”, Catarina de Bragança, também divulgou o consumo de laranjas, o uso do garfo e das porcelanas para comer, e o hábito de vestir roupa masculina para montar a cavalo. Também foi pela sua mão, que se ouviu a primeira Ópera em Inglaterra, e se forjou a famosa marmelada inglesa, bem como a introdução das modas do tabaco e do leque.

Apesar de ter engravidado mais do que uma vez, Catarina de Bragança nunca conseguiu dar nenhum herdeiro ao reino inglês, contudo, ainda hoje, é muito reconhecida, admirada e homenageada, ao ponto de a sua popularidade ter-se estendido até aos Estados Unidos da América, onde um dos bairros de Nova Iorque foi batizado com o nome “Queens”, em sua honra e memória.  Em Fevereiro de 1685 morreu o rei Calos II, e a rainha consorte regressou a Portugal.  Auxiliou o seu irmão, como regente do Reino durante a ausência de D. Pedro II em 1701, e novamente em 1704 – 1705. Morreu na sua amada Lisboa, há 320 anos, no dia 31 de Dezembro de 1705. Catarina de Bragança, MEMORÁVEL Princesa de Portugal, Rainha de Inglaterra, instruiu que o ritual de tomar chá, é um convite, um instrumento para criar um espaço de aconchego e conexão, partilhando afetos e cultivando empatia. Mostrou um Portugal delicado e aprimorado na beleza desses momentos, pela filosofia de vida que Catarina de Bragança inspirou.

Leia também...

Almeno Gonçalves

Almeno,     Permite-me tratar-te assim, chegaste à minha/nossa companhia, nos anos 80, quando o teu trabalho em Televisão, possibilitou a tua entrada nas nossa vidas. …

Giuseppe Bastos

Giuseppe Nicolau de Bastos, reconhecido empresário Giuseppe de Bastos, foi um dos mais importantes preponderantes empresários e produtores teatrais portugueses do século XX. Nascido…

A Menina Izildinha (II)

   Maria Izilda de Castro Ribeiro, morreu com 13 anos, vítima de uma grave leucemia, no dia 24 de Maio de 1911, às 15 horas,…

Isabel de Aragão, rainha de Portugal, Rainha Santa Isabel

No reino de Aragão nasceu no século XIII uma princesa que viria a ficar na História de Portugal, Isabel, a “Rosa da Casa de…