Cumpriu-se no domingo, dia 9 de Janeiro, cento e oito anos sobre a data de nascimento de Celestino Graça – um Homem de excelsas qualidades que, como, em luminosa síntese, sublinhou o saudoso Amigo António Cacho, “Disse Não à mediocridade e superou os seus próprios defeitos”.

Na oportunidade da evocação a tão proeminente figura, cuja memória não nos cansamos de lembrar pelo inestimável merecimento da sua obra, não poderemos deixar de referir a sua intervenção na fundação da Associação Académica de Santarém (1931) e a sua representação na Associação de Futebol de Santarém; na criação da Feira do Ribatejo, em 1954, certame regional de que Celestino Graça foi o principal obreiro e dinamizador e que dez anos volvidos sobre a edição inicial haveria de ver a sua importância reconhecida oficialmente com a elevação ao estatuto de Feira Nacional de Agricultura; na edificação da Praça de Toiros de Santarém, inaugurada a 7 de Junho de 1964, e na sua exploração a favor da Santa Casa de Misericórdia local, nas temporadas de 1970 a 1975; na criação do Festival Internacional de Folclore de Santarém, no âmbito da Feira do Ribatejo, e na fundação do CIOFF – Conseil International des Organizateurs de Festivals de Folklore, em 1970, de que foi delegado nacional até à data da sua morte; e o seu valioso estímulo na constituição de diversos ranchos folclóricos no Ribatejo, para além dos que ele próprio fundou – o Rancho Folclórico dos Pescadores do Tejo, nas aldeias avieiras de Faias e Cucos (Benfica do Ribatejo), Rancho Folclórico do Bairro de Santarém (Graínho e Fontaínhas), Grupo Infantil de Dança Regional e Grupo Académico de Danças Ribatejanas, de Santarém.

Regente Agrícola de formação, Celestino Graça foi um dos mais conceituados técnicos da sua geração, tendo prestado serviço na X Brigada Técnica Agrícola onde, entre outras coisas, foi responsável pela introdução da cultura do cânhamo em Portugal, sendo autor do livro “A Cultura do Cânhamo”, publicado em 1945, pela Livraria Sá da Costa.

O seu denodo em promover a região do Ribatejo levou-o a intervir activamente na imprensa e na rádio, no que sempre evidenciou uma enorme capacidade de comunicação, destacando-se a sua colaboração na antiga Rádio Ribatejo, onde realizou um programa sobre agricultura, e no Jornal “Correio do Ribatejo”, onde versava os assuntos mais diversos, relacionados com a cultura ribatejana e os interesses de Santarém e da nossa província.

Celestino Graça, pelo empenho posto em tudo o que se propunha realizar e pelo exemplo que constituía a sua abnegada intervenção, exerceu grande influência a nível regional, despertando Santarém para um período de expressivo progresso, colocando-a a par das cidades mais desenvolvidas do nosso país.

Numa afirmação de inegável competência e determinação, Celestino Graça foi capaz de congregar em seu torno vontades e pessoas para desenvolver a nossa terra. Foi um Homem vanguardista no seu tempo, que, no entanto, continua a ser ignorado por muitos que o consideram retrógrado, apenas pelo facto de defender as nossas tradições culturais e de haver feito obra durante o regime deposto pelo 25 de Abril, acusando-o, injustamente, de conivência com o Estado Novo com o qual, bem ao invés, não se identificava e nunca serviu.

Na área do folclore, Celestino Graça pugnou sempre por uma fiel representação dos usos e costumes dos nossos antepassados, não consentindo o seu abastardamento, pois, o respeito que nutria por esta gente simples – com quem convivia diariamente na sua actividade profissional ou como empresário agrícola – não lhe permitia outra atitude que não fosse a de um profundo respeito.

Quando apresentava os seus Grupos Folclóricos, Celestino Graça preocupava-se em contextualizar a realidade social do nosso Povo, exaltando-o pelas suas virtudes e pela capacidade de que sempre deu provas, e nestas oportunidades, todos podiam ficar a conhecer melhor como era a vida pobre e difícil dos camponeses ribatejanos.

Nunca se eximiu a desconfortos, mesmo de cariz político, de que é um eloquente exemplo a apresentação em público do “Fadinho do Pobre”, música escrita pelo categorizado músico Bertino Coelho Martins e que era cantada por Ivone Faria da Silva, com quadras recolhidas no “Cancioneiro do Ribatejo”, compilado por Alves Redol. As quadras escolhidas para esta cantiga revestiam-se de uma certa crítica social, como estas, por exemplo:

“Quem é pobre sempre é pobre,
Quem é pobre nada tem;
Quem é rico sempre é nobre,
E às vezes não é ninguém.”

“O rico joga o bilhar,
Gasta o dinheiro que quer;
O pobre não tem trabalho,
Não pode ouvir a mulher.”

A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) advertiu Celestino Graça de que não poderia apresentar esta cantiga em público, e quando os Grupos Infantil e Académico actuavam em Santarém era normal aparecer algum agente que pedia a lista do reportório a exibir. Celestino Graça nunca incluía esta cantiga no programa, porém acabava por a apresentar quase sempre, tanto mais que era uma música muito apreciada pelo público.

Também ao nível da organização do Festival Internacional de Folclore de Santarém, Celestino Graça conseguiu integrar no elenco dos países estrangeiros alguns grupos do leste europeu, com os quais Portugal não mantinha relações diplomáticas. Esta situação exigia uma grande responsabilidade de Celestino Graça, que tinha que empenhar a sua honra e a sua palavra perante as entidades oficiais, e foi assim que Grupos da Checoslováquia, da Arménia, da Hungria e da Jugoslávia puderam actuar em Santarém ainda antes do 25 de Abril de 1974.

Construir o futuro, com o respeito pelo passado, é a melhor homenagem que se pode prestar a um Homem como foi, é e será Celestino Graça, que continua presente no nosso coração e na nossa grata memória.

No passado domingo, pelas 15 horas, teve lugar uma Romagem de Saudade à campa rasa de Celestino Graça, no Cemitério dos Capuchos, em Santarém, promovida pelos Grupos Infantil e Académico de Santarém.

Etnografia & Folclore – Ludgero Mendes

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