Foto: Município da Chamusca

O presidente da Associação de Agricultores do Ribatejo, Luís Seabra, alertou hoje para a “grave vulnerabilidade” das infraestruturas no distrito de Santarém, principalmente pontes e acessos rodoviários, que considera estarem “sem manutenção adequada”, sobretudo após as recentes cheias.

Em declarações à Lusa, o dirigente afirmou que as recentes tempestades vieram “mostrar pontes degradadas, caminhos agrícolas abandonados, e um território marcado por abandono estrutural”.

Luís Seabra destacou vários casos que considera preocupantes como a ponte da Chamusca, onde continuam a circular veículos pesados “por falta de alternativas” e a ponte da vala da Azambuja, que divide os concelhos de Santarém e Cartaxo, onde circulam camiões com peso “muito acima do limite permitido”.

“Passam lá colheitas com 20 ou 30 toneladas numa ponte que tem um limite de dez. Isto é absolutamente incompreensível e perigoso”, alertou.

Outra estrutura citada foi a ponte de Santana do Cartaxo, destruída há vários anos e ainda sem reparação.

 “O trânsito é desviado para outras pontes que, elas próprias, estão fragilizadas. Empurra-se o problema de um lado para o outro”, criticou.

Com o aumento dos caudais do Tejo, que chegaram aos oito a nove mil metros cúbicos por segundo, o dirigente afirma que todas estas infraestruturas ficaram sob enorme pressão, considerando urgente que a “realização de inspeções rigorosas”.

O presidente da associação sublinhou que a questão não se resume a incidentes pontuais, mas a um problema profundo de ordenamento do território, que atribui a décadas de desinvestimento.

“As valas estão entupidas, as portas de água estragadas, os caminhos completamente degradados. Quando chegam fenómenos extremos, tudo isto agrava os danos”, afirmou.

O responsável referiu também que, num levantamento realizado pela associação em 2023, foram identificados cerca de 240 quilómetros de caminhos situados no Vale do Tejo sem entidade responsável.

“Ninguém sabe se são das juntas, das câmaras, da APA ou das Estradas de Portugal. Este vazio deixa o território entregue a si próprio”, disse.

No balanço das cheias, Luís Seabra explicou que os prejuízos são especialmente pesados nas culturas de outono e inverno, abrangendo produções como ervilha, fava, brócolos e vários cereais, e que há casos de explorações onde a perda foi total.

Segundo o dirigente, muitas estufas, onde se concentram investimentos elevados, ficaram destruídas e extensas áreas de sementeiras foram “completamente arrasadas”.

Luís Seabra diz conhecer exemplos semelhantes noutras zonas, embora os prejuízos ainda não tenham sido totalmente quantificados, dado que a água recuou recentemente e o levantamento está em curso.

Apesar das críticas, reconheceu que o Governo acompanhou o processo das cheias “dentro do que foi possível”, mas insistiu que o essencial permanece por fazer.

“Se não invertermos este ciclo de degradação, continuaremos sempre à mercê do próximo fenómeno extremo”, argumentou.

O presidente da associação diz que é importante a criação de uma entidade gestora do território no Ribatejo, à semelhança do que já existe noutras zonas do país, considerando indispensável o envolvimento do Estado.

“São temas nacionais: a segurança das pontes, a ferrovia, a gestão do Tejo, as acessibilidades e a proteção das populações. As autarquias não têm meios para isto tudo”, frisou.

Defendendo que o ordenamento do território “não pode continuar a ser tratado como um problema da agricultura”, Luís Seabra lembrou o trabalho que entregou ao Ministério do Ambiente, em 2023, sobre a gestão de recursos hídricos no Vale do Tejo.

O documento identifica cerca de 10 mil hectares entre Santarém e Azambuja, com solos agrícolas “dos melhores do país”, mas ameaçados por falta de manutenção e ausência de entidades responsáveis pelos 240 quilómetros de caminhos agrícolas.

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