Agora que se vai completar um século sobre a criação e instalação do Museu Arqueológico em S. João de Alporão, o monumento de maior valor do património arqueológico de Santarém, esse que se diz ter sido basílica romana, antes de ser igreja cristã, para dele se fazer teatro e depois museu, parece-nos acertado dizer alguma coisa em abono dessa tão desabonada joia romano-gótica.
Que foi mesquita dos arábigos é tradição a que está ligado o seu nome, considerando o designativo Alporão como corruptela do vocábulo Al-Koran ou Alcorão, reminiscência do livro religioso dos maometanos.
Dos romanos nada se ve. O único testemunho válido seria a torre-varanda, galeria ou coisa semelhante, demolida por ocasião da visita da Rainha D. Maria I, em 1785, para que pudesse passar o coche real…
É que, segundo a tradição, – da qual Herculano se mostrou cético, – teria sido nela lido ao povo o édito de Augusto que anunciava o nascimento de Cristo, – ut adscriberetur universos orbis.
Como história pregressa do centenário Museu digamos alguma coisa de como veio a ser teatro e do que, – antes dele, – teria sido o Teatro em Santarém.
Até que recuados tempos ascenderia o Teatro em Santarém?
Não falamos, como é obvio, das representações medievais que tinham lugar nos paços reais, nas naves das igrejas ou na praça publica, daqueles autos medievais provenientes ou variações das formas do drama litúrgico, dos “mistérios”, dos “milagres”.
De assunto hierático ou não, ou misto, de sacro e profano, logo remontamos aos momos e arremedilhos, às farsas, às pantominas dos trejeitadores, às buforenias dos chocarreiros que faziam as delícias dos príncipes e senhores, como os ditérios e alusões da traça vicentina.
Dramas teológicos, aristocráticos ou populares, tinham eles por cenário os transeptos das igrejas, os pátios dos palácios e os barracões e carripanas nos largos das nossas vilas, com os espectadores de pé a participar emocionalmente no espectáculo, juntando muita vez a sua voz à dos actores.
Quantos “mistérios” se não teriam representado nas naves de Marvila ou da Graça, ou nos adros da Trindade e de S. Francisco!
Quantos autos de Mestre Gil não teriam divertido a Corte nos paços reais, onde mais tarde se levantou o Colégio da Companhia! Quantas momices se não teriam desenrolado na Praça Velha, onde também se correram “canas”!
Para tudo isso recorra à sua imaginação o leitor, alimentada ela com leituras de Herculano ou de Garrett, para não citar o próprio Gil Vicente, na sua famosa carta a D. João III, em que descreve o sermão que pregou “aos frades cá da terra”, no claustro de S. Francisco, tida por Carolina Michaelis como o mais saboroso de todos os autos vicentinos…
Não. As nossas pretensões não vão tão longe. Limitando-se a uma digressão pelos meados do século passado, para localizar os teatros santarenos.
O mais antigo de que temos notícia teria tido assento no convento da Graça, depois da lei do Mata-frades como é obvio. Depois que Joaquim António Aguiar acabou com as congregações masculinas, neste caso, a dos regrantes de S. Agostinho. V.A. (In: Correio do Ribatejo de 27 de Março de 1976)
