Foto: ATEF SAFADI

Hoje, dia 8 de Outubro de 2025, o presidente americano anunciou na rede social, Truth Social “Tenho muito orgulho em anunciar que Israel e o Hamas assinaram a primeira fase do nosso Plano de Paz” e acrescentou que “todas as partes serão tratadas de forma justa”, saudando como “um grande dia para o Mundo Árabe e Muçulmano, Israel, todas as nações vizinhas e os Estados Unidos da América”.

Como afirma o Coronel Carlos Mendes Dias (SIC Notícias): “O cessar-fogo, entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza, não é um acordo de paz”. É importante compreender um conjunto de características do conflito para interiorizar toda a situação. Conhecer a história dos diferentes intervenientes no conflito é fundamental para perceber que o futuro da Faixa de Gaza não é tão simples como querem “pintar”, ou como o suposto Plano de Trump de 21 pontos apresentou. Muitos interesses estão em campo… O que pretende Israel? E os Estados Unidos? Os Países Árabes – Arábia Saudita e Qatar? O Egipto e a Turquia? Reparem que não enunciámos os países europeus…

Na verdade, não queremos recuar até ao ano 1000 a.C. (ou deveria ser 2000 a.C.?!) nem ao século XIX, nem tão pouco a 1947/48… A história da Faixa de Gaza mistura-se com a história da Palestina, de Israel, do Egipto (antigo e moderno) do Império Otomano ou até do Mandato Britânico para a Palestina. Centremo-nos, por agora, em Gaza e no grupo do HAMAS. Quem são? Como surgiram? Quais os seus objectivos? Ou ainda, podem desaparecer? No entanto, não confundir a paz na faixa de Gaza com a criação de dois Estados. Essa é outra conversa…

A cidade de Gaza que deu nome à região é um dos lugares mais antigos do território. A Faixa de Gaza é muito pequena, mas é uma região estrategicamente importante e por isso muito cobiçada. É um território de encruzilhada e economicamente apetecível. A existência de reservas de gás natural e até de projectos para a construção de um canal (Canal Ben Gurion) torna a área muito interessante.

Como tem sido largamente noticiado, em outubro de 2023, o Hamas atacou, barbaramente, o sul de Israel, matando quase 1.200 pessoas e fazendo mais de 200 reféns. Afinal, quem são estes atacantes?

Para entendermos o Hamas de 2025 é necessário recuar, sem dúvida, até aos anos sessenta. No Egipto tinha sido criado umas décadas antes uma organização islâmica com o objectivo de apoiar a população pobre, sem condições básicas de vida e em dificuldades, resultante, segundo os seus argumentos, do colonialismo britânico. Essa organização era a Irmandade Muçulmana. Nos dias de hoje continua a sua intervenção social, política e religiosa mais fundamentalista. Até 1967, o Egipto ocupou o Sinai e a Faixa de Gaza. Esta ocupação facilitou a expansão da Irmandade Muçulmana para Gaza e consequentemente as ideias sunitas mais fundamentalistas, mas também de caridade que correspondem à resposta intrínseca a um dos pilares principais do Islão. Essa expansão levou Ahmed Yassin (nascido em 1937 a norte da cidade de Gaza e educado no Cairo) a criar, em 1973, um ramo da Irmandade Muçulmana designada por Mujama al-Islamiya. Este movimento criado durante a ocupação israelita após a guerra dos seis dias (1967) foi desenvolvendo a construção de mesquitas, escolas, hospitais, bibliotecas, tudo com o apoio do governo e Congresso de Israel. A própria construção da Universidade de Gaza foi apoiada pelo governo israelita. Israel apoiava várias organizações deste tipo em Gaza tendo a convicção e a esperança de criar melhores condições de vida à população, mas também contrariar o domínio da Organização de Libertação da Palestina.

A Organização de Libertação da Palestina tinha surgido durante um encontro de 422 figuras nacionais palestinianas de vários partidos e movimentos em Jerusalém, em 1964. O seu objectivo era a libertação da Palestina através da luta armada. Um dos movimentos participantes era o Movimento de Libertação Nacional da Palestina (Harakat al-Tahrīr al-Watani al-Filastīni) Fatah, um acrónimo reverso, uma organização política e militar, fundada em 1959, no Egipto, pelo engenheiro Yasser Arafat. O movimento era essencialmente nacionalista e laico.

Em 1987, após várias provocações e atentados entre os palestinianos e Israel o ambiente degradou-se. Um movimento popular palestiniano, a primeira intifada, provocou várias alterações políticas. A OLP aumentou as suas acções de resistência agressiva e militar. Yassin já tinha sido preso várias vezes. A “pacífica” Mujama modificou-se… Em 1988 é criado em Gaza o movimento Hamas por Ahmed Yassin

O Hamas, acrónimo de Harakat al-Muqawama al-Islamiya (Movimento de Resistência Islâmica), passa a ser um movimento militante islâmico que controla a Faixa de Gaza. Uma primeira ideia é que este movimento rejeita a existência do Estado de Israel e não aceita a ocupação da Palestina. O Hamas é composto por dois sectores: um que continua a realizar serviços de caridade chamada de Dawah e que é muito importante para a prestação de serviços básicos na faixa de Gaza. No entanto, continua a desenvolver acções com o objectivo de transmitir à população os valores tradicionais do islamismo; o segundo sector é militar constituído pelas Brigadas Izz ad-Din al-Qassam. Quando em 1988, publicaram o estatuto do movimento afirmaram que “não aceitam o Estado de Israel e que a solução do problema da Palestina é a Jihad, a Guerra Santa” (adaptado).

Em 1991, Yasser Arafat e Yitzhak Rabin assinam os Acordos de Oslo. Foi acordado criar gradualmente um Estado democrático para os palestinianos incluindo a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Criaram, para o governo da Palestina, a Autoridade Nacional da Palestina e o Conselho Legislativo passando a eleger o Presidente e um Parlamento que elege o primeiro-ministro.

O Hamas não concorda com os Acordos e passa a ser dominante na luta armada contra Israel alegando que os palestinianos estão a perder direitos. Os ataques suicidas passam a suceder-se. A OLP está, cada vez mais, enfraquecida perante os palestinianos.

Em 1995, Yitzhak Rabin é assassinado por extremistas judeus. Os Estados Unidos declaram que o Hamas é considerado uma organização terrorista em 1997.

A popularidade do Hamas sobe no seio da população palestiniana quer em Gaza, quer na Cisjordânia, com o apoio crescente do Irão e do Líbano, onde passam a ter escritórios, bases militares e especialmente financiamento. A Organização para a Libertação para a Palestina passa por momentos difíceis, surgem notícias de supostos casos de corrupção com a apropriação dos financiamentos incluindo o próprio Yasser Arafat.

A segunda intifada ocorre em 2000 e aumenta o apoio ao Hamas.

Em 2004, ocorrem dois momentos perturbadores na política palestiniana: é morto Ahmed Yassin (dirigente do Hamas) e em novembro morre Arafat (dirigente da Autoridade Palestiniana, OLP e Fatah).

Em 2006, realizaram-se eleições para o Parlamento palestiniano. Ao contrário das expectativas, o Hamas venceu e o seu representante tornou-se primeiro-ministro. A Faixa de Gaza apoiava mais o Hamas, a Cisjordânia apoiava mais a Fatah. Criou-se uma situação, politicamente, incomportável e difícil de gerir. O Presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, com base nos Acordos de Oslo, reconhecia o Estado de Israel e apoiava a criação de dois Estados; o primeiro-ministro era contra a existência de Israel e, portanto, não apoiava os dois Estados. O Primeiro-ministro foi demitido… O Hamas, obviamente, não concordou. Israel e o Egipto impuseram um bloqueio à Faixa de Gaza, por terra, mar e ar. Em 2007, ocorreu uma guerra civil em Gaza entre o Hamas e a Fatah. O Hamas saiu vitorioso e dominante. Em 2008 realizou-se a eleição para Presidente da Autoridade Palestiniana (Mahmoud Abbas também é Presidente do Estado da Palestina que não carece de eleição), mas até 2025 não se realizaram eleições no território palestiniano para o Parlamento.

A afirmação de poder passa por situações de conflito ou de guerra que diminuem as possibilidades de estabilidade na Faixa de Gaza. É uma região inviável!

Portanto, não confundir povo palestiniano com …

P.S. – Donald Trump não foi anunciado como vencedor do Prémio Nobel da Paz como era esperado.

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