Num tempo em que o digital molda a forma como se lê, se escreve e até como se pensa, nasce em Tomar a editora acorda, um projecto assumidamente contra a corrente. Criada pelo poeta Nuno Garcia Lopes, a nova chancela aposta no livro em papel, na poesia e em formatos editoriais alternativos como forma de defender a bibliodiversidade, a liberdade de leitura e o pensamento crítico. O volume inaugural, A poesia, que reúne três décadas de escrita do autor, funciona como gesto fundador e cartão de visita de uma editora que se propõe recuperar leitores, desafiar consensos e devolver centralidade ao objecto-livro como espaço de liberdade cultural.

A editora acorda nasce num tempo claramente dominado pelo digital. O que esteve na origem deste projecto e que necessidade sentiu de criar uma editora com uma linha assumidamente contra a corrente, centrada na defesa do papel e da poesia? 

Precisamente a consciência de que o digital, a dita “inteligência” artificial e os algoritmos estavam a condicionar cada vez mais a nossa capacidade de pensarmos. A poesia é hoje um dos espaços onde a verdadeira liberdade pode de facto ser vivida, porque um bom poema nunca está fechado, o leitor tem a capacidade de fazer o caminho que quiser com a sua leitura. E o papel é a minha matéria, nasci numa aldeia em que a maior parte dos habitantes trabalhavam no seu fabrico e hoje continuo apaixonado por ele.

 

A aposta no livro em papel, nas plaquetes, nos folhetos e até na carta como objecto editorial é uma marca distintiva da acorda. Que relação estabelece entre estes formatos e a forma como hoje se lê — ou deixou de se ler — poesia? 

Para mim, o poema tem algo de sagrado: a página em que se insere deve ser como a parede branca e ampla que acolhe um quadro, sem deixar que a leitura seja perturbada por outros ornamentos; e com um respeito absoluto pela forma fixada pelo autor. E existem formatos que claramente têm um nicho de público à espera de que sejam recuperados: quantos de nós não gostaríamos de voltar a receber cartas que não apenas as comerciais? Por outro lado, a publicação de poesia esteve sempre ligada a formatos alternativos, e é indissociável da própria leitura em voz alta. Não creio que se leia hoje menos poesia – mas temos que lutar para lhe garantir os leitores das novas gerações.

 

O nome “acorda”, o lema “livros com fibra” e a referência a Fernando Lopes-Graça e à canção “Acordai” constroem um campo simbólico muito forte. Que significado cultural e político quis inscrever, desde o início, na identidade da editora? 

Desde logo uma abrangência vocabular, na polissemia que vai da firmeza de a corda ao despertar do acorda. Há uma coerência com o próprio manifesto que acabo de fazer de defesa da bibliodiversidade contra a tirania do algoritmo. As redes sociais, aparentando dar-nos o conforto de vermos muita gente parecida connosco, estão a privar-nos do acesso fundamental ao pluralismo de ideias. Os livros, pelo contrário, são um espaço de liberdade, bem informada e bem escrita. Em nenhum lugar, hoje em dia, a liberdade de expressão é tão respeitada como numa biblioteca.

 

O primeiro livro da acorda, A poesia, reúne 30 anos da sua obra poética num volume de grande fôlego, com um cuidado gráfico evidente. Porque fez sentido que o gesto inaugural da editora passasse por esta edição e por este balanço de percurso? 

Acabou por ser uma confluência entre um projecto editorial que vinha a ser germinado há algum tempo e a necessidade de reunir muito material poético que estava a ficar demasiado disperso e inacessível. Ter uma obra inaugural focada na qualidade gráfica é também um bom cartão de visita para a editora. Para isso, convoquei os melhores, neste caso a designer Madalena Garcia Chaveiro e a artista Catarina Garcia Marques. Connosco, as autorias serão sempre muito mais do que apenas o nome dos escritores.

 

Com um calendário editorial já delineado para 2026 e a anunciada publicação de novos autores, como imagina o futuro da acorda: como um projecto de nicho e resistência, como espaço de descoberta ou como ponte para reaproximar novos leitores do livro material?

O objectivo é atingir os três desideratos. Dando guarida a autores de qualidade, ainda que desconhecidos, e a obras que marquem a diferença; publicando o óbvio e o inesperado e tentando chegar directamente aos leitores não apenas pelas vias tradicionais, mas também através de outros encontros que os conquistem. Com uma preocupação de sustentabilidade e de qualidade em que a opção será sempre que necessário demorar mais para fazer melhor. Mas fiquem já com água na boca: o próximo volume vai ser com cartoons de SAL (Gonçalo Figueiredo).

 

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