Entrevista: “O desafio de recriar o mundo à escala 1:12 é o que mais me motiva”

 

O Museu Rural e do Vinho, n Cartaxo, está de parabéns e preparou uma exposição única para convidar o público a fazer a festa. O espaço museológico que é a porta de entrada para quem quer conhecer a tradição vitivinícola do concelho e a vivência rural do território, assinala hoje, sexta-feira, dia 23, 33 anos e convidou Ana Coimbra a mostrar as suas miniaturas – são pequenas peças que obrigam o visitante a, literalmente, aproximar o olhar da vida vivida dentro de casa. A recompensa para esta aproximação, é descobrir um mundo de pequeninos objectos e peças de mobiliário que adivinham gente, risos e tragédias, refeições partilhadas, intimidade ou tradições sociais e culturais.

Ana Coimbra, natural de Loures e residente há cerca de 20 anos no Cartaxo, começou a construir casinhas de bonecas para brincar com a filha, a brincadeira apanhou-a e nunca mais a deixou parar. A artista reproduz espaços que têm tanto de pequeno na dimensão, quanto de imenso nas possibilidades que abrem à imaginação de quem os observa.

O rigor que Ana Coimbra coloca nos objectos e nas peças de mobiliário, a par do pormenor na disposição de pratos em armários, dos jornais abandonados sobre mesas antigas, do fumo que já enegreceu as paredes da lareira, são testemunhos do tempo que passa, das vidas vividas por pessoas que quase se podem ouvir falar, ou rir, ao fundo das divisões. A exposição inaugura esta sexta-feira, pelas 18:00 e está patente ao público até 15 de Janeiro de 2019

Quando é que a criação de miniaturas entrou na sua vida?

A minha paixão por casinhas de bonecas remonta aos tempos de criança, em que me recordo carinhosamente de brincar com as mobílias e roupinhas da Nancy. Mas foi há aproximadamente 22, 23 anos, quando ajudei a minha filha a construir a sua primeira casinha de bonecas, que o bichinho das miniaturas se pegou a mim.

O que a fascina neste tipo de trabalho?

Para mim, o gozo do miniaturismo está em conseguir simular perfeitamente a realidade, a ponto de não ser possível distinguir uma foto da peça, do objecto à escala verdadeira. O desafio de recriar o mundo à escala 1:12 é o que mais me motiva, e acho sempre divertido quando um dos meus trabalhos é capaz de iludir assim quem os vê.

Como é o processo de criação das suas peças e colecções?

Todas as peças têm o seu início num estudo prévio, uma pesquisa da época, das vidas e do contexto social e económico de quem vivia e trabalhava nos espaços que retrato. Quando chega o momento de pôr as mãos à obra, faço-me valer dos mais diversos materiais, desde os vulgares, como a madeira e o papel, até aos mais inesperados, como as caixas de ovo que uso para simular pedra.

Um ambiente só está acabado quando corresponde à imagem mental que eu tenho dele. A peça tem de obedecer ao rigor histórico do espaço, bem como ao cunho pessoal da minha imaginação.

Tem alguma fonte de inspiração e preparação ou elas surgem com uma naturalidade?

Geralmente, as ideias para um novo trabalho surgem espontaneamente. Mesmo quando me lançam o desafio de abordar um certo tema, ou quando estou a trabalhar para uma encomenda, a visão do que quero fazer surge com alguma naturalidade.

Qual foi a peça que levou mais tempo a concretizar?

O salão do castelo, inspirado em parte no castelo de Leiria, que me demorou aproximadamente um ano a completar. É uma peça com meio metro de lado, revestida de ambos os lados, com uma varanda e lareira com um alto-relevo do escudo de Portugal e cuja iluminação foi feita de raiz para criar a ilusão de fogo.

Tem alguma que a tenha marcado de forma especial ou que não venda por preço nenhum?

A cozinha saloia. É uma peça que me traz memórias da infância, e da qual não desejo separar-me.

Viagem?

Ver as gravuras de Foz Côa

Música imprescindível?

“Dante’s Prayer” de Loreena McKennit

Quais os seus hobbies preferidos?

Jardinagem e equitação, para além do miniaturismo, claro!

Se pudesse alterar um facto da história qual escolheria?

 

Não alterava nada. Acho que as consequências seriam demasiado imprevisíveis para valer a pena

Se um dia tivesse de entrar num filme que género preferiria?

Comédia

O que mais aprecia nas pessoas?

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