A família de Otelo Saraiva de Carvalho doou o arquivo do estratego do 25 de Abril ao Arquivo/Biblioteca Ephemera, cuja sede está na Vila da Marmeleira, Rio Maior, o maior arquivo privado em Portugal o que ajudará a compreender “o ambiente de 1974/75”, disse o historiador Pacheco Pereira.

São “documentos fundamentais porque têm imensos manuscritos” do próprio e de outras pessoas, “notas de reuniões, correspondência”, são “milhares de cartas enviadas a Otelo”, afirmou José Pacheco Pereira, fundador do Ephemera, maior arquivo privado em Portugal.

O espólio de Otelo “é enorme”, abrange o período inicial de 1974 em que está no Conselho da Revolução, o tempo do COPCON, e, até agora, foram recebidas no Ephemera duas estantes e muitos dossiês.

O historiador e ex-deputado do PSD afirmou que as duas estantes são “uma pequena parte” da documentação e descreve o que viu até agora: “São cartas muito diferentes, vão desde cartas de saudações, de parabéns, cunhas, a ameaças, insultos, informações e denúncias.”

Este arquivo, segundo o autor da biografia de Álvaro Cunhal, “é de uma importância enorme”, dado que o militar de Abril “tem um papel central na vida política desde 74 até ao final do século XX”.

Otelo Saraiva de Carvalho, acrescentou, “é uma personalidade marcante, primeiro porque é o autor do plano operacional do 25 de Abril, que todos os militares consideram um documento de grande qualidade do ponto de vista estratégico e militar”.

“Depois, por todas aquelas vicissitudes do PREC, depois do 25 de Novembro, dos Grupos Dinamizadores de Unidade Popular (GDUP’s – partido criado em 1976 e extinto no ano seguinte), da candidatura presidencial de 1976 e 1980”, acrescentou.

Segundo informação do Arquivo Ephemera, trata-se de “um conjunto vasto e rico de documentação, manuscritos, fotografias, panfletos e brochuras, livros políticos, documentos oficiais de natureza militar e política (muitos deles secretos à altura), ofertas e objectos pessoais”.

E “cobrem toda a carreira política e militar de Otelo, desde a sua ação como oficial nos teatros da guerra colonial, a revolução de 25 de Abril e o “ano de brasa” de 1975, o COPCON, as candidaturas presidenciais, os GDUPs, a FUP, a OUT, suas prisões e processos”. Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho nasceu em 31 de Agosto de 1936 em Lourenço Marques, Moçambique, e teve uma carreira militar desde os anos 1960, fez uma comissão durante a guerra colonial na Guiné-Bissau.

No Movimento das Forças das Forças Armadas (MFA), que derrubou a ditadura de Salazar e Caetano, foi ele o encarregado de elaborar o plano de operações militares e, daí, ser conhecido como estratego do 25 de Abril. Foi ele, também, um dos militares que esteve no posto de comando de operações no Regimento de Engenharia n.º 1, na Pontinha, nos arredores de Lisboa.

Conotado com a esquerda radical, foi um dos membros do Diretório da revolução, com Costa Gomes, presidente, e Vasco Gonçalves, primeiro-ministro, a partir de Maio de 1975.

É preso na sequência dos acontecimentos do 25 de Novembro, confronto entre a esquerda militar e os chamados “moderados”, que ditou a normalização do país, e foi libertado depois. Concorre às presidenciais de 1976, conseguindo 16,4% dos votos.

Preso em 1985, em resultado do processo FP-25, organização que reclamou a autoria de vários atentados que fizeram 13 mortos ao longo de sete anos, foi condenado e libertado cinco anos depois, em 1989. Em 1996, o parlamento aprovou uma amnistia para os presos das FP-25. Otelo Saraiva de Carvalho morreu em 21 de Julho de 2021.

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