Vasco Peixinho, com a sua personagem Campino (Prémio do Público) e Guilherme Ferreira, pela interpretação de Carpinteiro (Prémio do Júri) foram os vencedores da sétima edição do Festival de Estátuas Vivas de Santarém que regressou às ruas do Centro Histórico de Santarém entre os dias 7 a 9 de agosto.

Durante os três dias de festival, milhares de visitantes, tiveram a oportunidade de admirar e eleger a sua estátua favorita entre as 21 presentes, reconhecendo a qualidade artística, criatividade, expressividade e rigor de cada uma das performances.

“Uma vez mais, Santarém transformou-se num grande palco a céu aberto e afirmou-se como referência nacional na arte da estátua viva”, afirmou a autarquia em comunicado.

Com o tema Profissões Antigas, 21 artistas juntaram-se e personalizaram diferentes ofícios, desde uma mulher de enchidos até um alfaiate. 

O Correio do Ribatejo teve a oportunidade de conhecer os bastidores do festival e presenciar parte da preparação que levou ao sucesso desta sétima edição.

Observar as 21 estátuas vivas, espalhadas pelas ruas de Santarém, não era a única atividade disponível aos visitantes. Durante todos os dias do festival estavam disponíveis dois pedestais para qualquer membro do público poder experienciar o que é ser uma estátua viva. Adicionalmente, nos dias 8 e 9, o evento foi animado pelo Living Statues DJ e a Orquestra Improvável, respetivamente.

O Festival levou os milhares de visitantes a percorrer diversas ruas do centro histórico escalabitano, a Rua Serpa Pintos, a Rua Capelo e Ivens e a Rua Guilherme de Azevedo. Outro fator contribuinte para o sucesso do festival foi a colaboração de vários estabelecimentos de comércio local que se mantiveram abertos para além dos seus horários habituais, levando a uma ainda maior concentração de visitantes. 

Bastidores e preparação

Nos bastidores do evento, durante a tarde de dia 7 de agosto, era percetível um ambiente energético e de camaradagem com membros da organização e artistas sempre em movimento, a ajudarem-se uns aos outros na composição das suas personagens e a aproveitarem o ambiente mais relaxado antes de irem para as ruas.

Um dos membros da organização, António Gomes dos Santos, disse ao Correio do Ribatejo que para além de ajudar a coordenar este festival é também a estátua viva mais antiga de sempre. O artista que ao longo da sua carreira já criou mais de 700 personagens, é o autor de 14 das estátuas vivas presentes nestes três dias do Festival.

Em todos os cantos do interior do Teatro Sá da Bandeira, onde estavam localizados os bastidores do festival, era possível ver diferentes figurinos, adereços, produtos de maquilhagem e mesas num estado de confusão organizada enquanto os diversos artistas e membros da organização se dividiam entre jantar, preparar a sua maquilhagem e figurinos ou organizar todas as colunas e luzes que foram colocadas pelas ruas junto das diferentes estátuas.

A primeira Estátua Viva

António Gomes dos Santos, natural de Pisões, Pataias, concelho de Alcobaça, ficou conhecido mundialmente por ser a primeira estátua viva da história. A ideia de estátuas vivas apareceu-lhe quando, aos 21 anos, desenvolveu alopecia nervosa, uma doença que causa perda de cabelo devido a altos níveis de stresse e ansiedade, e lhe foi dito que não havia cura, mas que já tinham existido casos de pessoas que alcançaram uma cura através da meditação.

“Fui por aí, eu tinha uma paixão já muito grande pela meditação, mais do que por outras partes do yoga, e assim fiz, fui para a França, através de uma amiga que conhecia na altura, para uma escola de meditação sentada que se chama Zazen, cujo principal foco é que consigamos manter o corpo imóvel.”, conta António.

“E o facto é que seis meses depois eu já tinha um pelinho a nascer numa sobrancelha, um pelinho a nascer na cabeça e tal. Demorou uns anos, não foi assim de repente, mas eu dei a volta, uma neurodermia, uma doença que não tem cura”, continua.  

Ao regressar a Portugal, na travessia para a França, o artista viu várias pessoas pelas ruas a fazer de robô e breakdance, algo que era muito comum lá, mas quase não existia em Portugal, e foi daí que lhe veio a ideia. “Com o treino que tinha de estar parado, eu fazia dois ou três gestos de robô e a bateria parava e eu ficava assim parado, ainda sem parecer uma estátua, só uma pessoa, um robô que parou.” E foi a partir dessa ideia que começou a vida de estátua viva, a fazer vários espetáculos por diferentes países e a apresentar esta arte a novos públicos.

Das 21 estátuas presentes em Santarém nestes dias, António conta que 14 eram suas, mas que há uma que lhe é especialmente querida, o Resineiro. O artista explica que o Resineiro “é um personagem que representa uma coisa que eu já fui, porque eu sou origem de famílias bastante pobres, do campo, e o meu pai foi resineiro muitos anos, eu próprio fui resineiro quando andei a estudar no liceu.”

António descreve também o seu processo criativo para criar uma personagem. Explica que cria uma personagem nova simplesmente quando se farta das que já tem e qua a sua inspiração vem tanto de personagens históricas, como é o caso das expostas em Santarém nestes três dias, como de personagens de ficção, como literatura e bandas desenhadas.

Ao ser questionado sobre que conselho daria a alguém que esteja agora a começar a vida de estátua viva, António explica que fazer um bom workshop é importante, mas que, o mais crucial para ser uma boa estátua viva é ter um grande amor ou “quando se vê uma estátua viva sentir um tremelique”.

Diferentes profissões retratadas

Esta sétima edição contou com 21 diferentes estátuas vivas, três delas compostas por duas pessoas, todas baseadas no tema ‘Profissões Antigas’: Cauteleiro, de João Filipe, cujo trabalho era vender bilhetes de lotaria; Jornaleiro, de Juan Garcia, que era um trabalhador pago ao dia; Lavadeiras, de Susana Lopes e Laura Kennard; Semeador, de Pedro Pratas; Mulher dos Enchidos, de Inês Carvalho; Sapateiro, de Filipe Cristovão; Merceeiro, de Miguel Raposo; Engraxador, de Luis Palhais; Cesteiro, de Zairo Torres; Alfaiate, de Marco Pereira; Resineiro, de Rodrigo Ferreira; Ferrador, de Ciro Santos; Aferidor, de Fernando Queiroz, cujo o trabalho era verificar pesos e medidas; Ceifeira, de Marta Faria; Barbeiro e Cliente, de José Alves e Tiago Batista; Aguadeiros, de Peter Sinclair e Lumar Sinclair; Campino, de Vasco Peixinho; e Carpinteiro, de Guilherme Ferreira.

Todos os artistas reuniram bastante atenção do público, tendo sempre várias pessoas à sua volta, mas eram as crianças que ficavam mais fascinadas com as estátuas, especialmente quando deixavam uma moeda e recebiam um agradecimento especial de cada estátua baseado na profissão que representavam.

Inês Vidal Chora
(texto e fotos)

 

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