A Professora Maria Regina Gonçalves Jorge Pinto da Rocha faleceu ontem, em Santarém, aos 85 anos de idade.
Licenciada em História e Professora no Liceu de Santarém durante mais de quatro décadas, Regina Pinto da Rocha foi, durante largos anos, colaboradora deste Jornal, cujas páginas enriquecia com os seus ‘Retalhos de Memória’.
A Professora e o seu marido, também Professor, Víctor Pinto da Rocha, já falecido, mantiveram um percurso de vida ligado ao ensino e à cultura, e também ao Vale de Santarém que tanto amavam, tendo ambos acolhido a ideia da criação, naquela vila, da Associação Cultural Vale de Santarém-Identidade e Memória, nela colaborando desde o início, com os seus saberes, disponibilidades e entusiasmo, assumindo-se também como membros dos Corpos Sociais.
As exéquias fúnebres de Regina Pinto da Rocha terão lugar amanhã, quinta-feira, encontrando-se em câmara ardente a partir das 9 horas da manhã, na Casa Mortuária do Vale de Santarém. O funeral realiza-se no mesmo dia, pelas 15.30 horas, na Igreja Paroquial do Vale de Santarém. Logo após a celebração das cerimónias religiosas, o cortejo fúnebre sai para o cemitério do Vale de Santarém, onde será sepultada.
Á família enlutada e amigos, o Correio do Ribatejo endereça as mais sentidas condolências.
Em sua Memória, nesta hora de profundo pesar para todos nós, reproduzimos um texto de sua autoria, que escreveu a propósito do 130.º Aniversário do Correio do Ribatejo, Jornal onde escrevia com muito gosto e dedicação. Até Sempre, Maria Regina Pinto da Rocha.
Retalhos de Memória
Caro Amigo Correio do Ribatejo
Cento e trinta anos são muitos! Tantos! Já viu e já passou por tantas coisas boas e más.
Hoje meu caro amigo vou fazer-lhe uma confidência. Entre as minhas lágrimas, o meu desgosto, o meu luto venho falar-lhe de uma obra tão especial para mim! “A ceia dos cardeais” de Júlio Dantas. Estive a reler uma edição de luxo que tem história na minha vida porque…foi uma prenda de um namoro a começar em 1963, como já lhe contei há pouco tempo; o menino nasceu em 1891 que ano tão conturbado; Então tinha apenas onze anos quando esta obra magistral do teatro português subiu ao palco pela 1ª vez em 28 de março de 1902 no antigo Teatro Dona Amélia de Lisboa depois seguiram-se as traduções, representações e até quadros de pintores ilustres e podemos apontar a Alemanha, Áustria, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Brasil.
O Dr. Júlio Dantas inspirou pintores ilustres como Acácio Lino, Leitão de Barros e a artista brasileira Guiomar Fagundes, que fez uma grande tela inspirada nesta peça que foi exposta no Salon de Paris, 1929 e mais tarde foi oferecida pelo Governo Brasileiro ao Dr. Júlio Dantas, quando pela primeira vez, foi como embaixador ao Rio de Janeiro.
Júlio Dantas académico de mérito da Academia das Ciências de Lisboa, da Academia Brasileira de Letras e da Real Academia Espanhola recria uma ceia em que três cardeais, um espanhol, um francês e um português fazem as suas confidências uns aos outros sobre os seus amores frustrados, abandonados, esquecidos; o espanhol e o italiano vaidosos de si mesmos, mas queixando-se do seu envelhecimento, um tem sessenta anos, outro setenta e tal, o cardeal Gonzaga, o português, esse tem oitenta e um anos.
Não posso deixar de relembrar aquela frase “sobre um beijo outro beijo e sobre um ano outro ano…. Como envelhece a gente o Velho Vaticano”!
Enquanto os outros falavam gabando-se de si mesmos, o cardeal português chorava, chorava, os outros dois tentam consola-lo.
Rufo o cardeal italiano acerca-se de Gonzaga e pergunta “em que pensa cardeal?” “Em como é diferente o amor em Portugal! Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento… É o amor coração, é o amor sentimento…. Tecer de sol um beijo, e desde tenra idade, ir nesse beijo unindo o Amor e a Amizade, numa ternura casta e numa estima sã, sem saber distinguir entre a noiva e a irmã…”
“Também Vossa Eminência amou?” cardeal Gonzaga “também, também! Pode-se lá viver sem ter amado alguém?” Toda a gente dizia em pleno povoado: “não há noiva melhor para o senhor morgado. Nem em capela antiga há santa mais santinha…” E eu rezava baixinho: É minha! É minha! É minha! Quanta vez cansados de brincar, ficávamos a olhar um para o outro, a olhar todos cheios de sol, ofegantes ainda…
Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda… E uma noite, a minha alma, a minha luz, morreu! Deus, se ma quis tirar, p’ra que foi que ma deu? Para quê? Para quê? “tentam ampará-lo” Então ? “Oh Eminência, então. “Ai pois não via Deus, que eu tinha coração?!
“Eminência” Gonzaga caindo sobre a cadeira a soluçar “Não via! Ah! Não via! Não via! Julgou que de um amor outro amor refloria. E matou-me ….E matou-me”
Eminência….
“Afinal, foi esse anjo ao morrer, que me fez cardeal! E eu hoje sirvo a Deus, a Deus que m’a levou…”
Rufo a de Montmorancy
“Foi ele de nós três o único que amou”
Nesta fase da minha vida esta peça de teatro toca-me ainda mais, toca-me tanto, tanto….
Falemos de si: constato uma coisa fantástica; ao celebrar os seus cento e trinta anos não acusa o envelhecimento de que se queixam os cardeais Rufo, Montmorancy e Gonzaga!
Como foi possível chegar até agora com essa vitalidade? Já mudou de casa, já mudou de nome mas verdade seja dita não o acho envelhecido não; realmente ao longo desta jornada tem tido médicos e enfermeiros fantásticos, desde os que o lançaram, os que de si cuidaram, até aos que hoje tratam de si, todos, todos, com um esforço e uma dinâmica que me espanta, conseguem mantê-lo sempre em cima do acontecimento, consegue dar cobertura a todos os assuntos da região e para além dela.
Parabéns meu caro amigo, cento e trinta são cento e trinta!…
Parabéns a todos os que o mantêm assim de pé como as árvores, como diria a magistral Palmira Bastos.
Mesmo com o meu enorme desgosto, agora não posso fazer diálogo com o meu querido marido para conversarmos consigo, mesmo assim, não posso deixar de lhe enviar os parabéns por mais este ano e tal como na ceia dos cardeais “atrás de um ano outro ano” para si e para todos os que o mantêm de pé; assim, forte, sadio, perseverante, elegante, conseguindo ligar o passado e o presente numa sintonia perfeita.
Parabéns a toda a excelente equipa que tão bem de si cuida.
Obrigada, por si e por nós
Obrigada.
Bem hajam.
Maria Regina Pinto da Rocha
