Diz-se de um vinho de colheita tardia, como sendo um vinho em que as uvas são vindimadas mais tarde, depois do tempo tradicionalmente rotulado como “normal“ nos outros vinhos.

O objetivo desta vindima tardia é dar tempo às uvas para que possam ser afetadas pela ação de um fungo, originando assim aromas únicos e muito característicos.

O Festival Nacional da Gastronomia de Santarém, que este ano celebrou o seu 40º aniversário, pode ser rotulado como de colheita tardia.

Apareceu fora do tempo em que normalmente se realizava, outubro e já depois da Feira da Golegã.

O facto de ter aparecido fora de tempo, já com temperaturas baixas à noite, depois da Feira da Golegã e com os casos Covid a subirem um pouco por todo o mundo, todos estes fatores podem ter contribuído de forma decisiva para a pouca presença de visitantes neste Festival, um dos eventos de índole nacional organizados em Santarém e o segundo grande evento de atratividade e promoção de Santarém logo a seguir à Feira Nacional de Agricultura/Feira do Ribatejo.

O Festival está moderno, com preocupação em atrair públicos jovens e diferentes, nomeadamente com a realização de diversos espetáculos musicais noturnos.
Os eventos com reputados Chefs, para promoção de uma cozinha diferente e moderna, trazem um perfume e mistura de odores virada para o futuro da gastronomia, mas não de massas, apenas para um segmento de visitantes.

O Festival está em processo de inovação e modernização, mas não pode esquecer as raízes.

A transformação do país nestes 40 anos, a que as alterações ao mapa das regiões de turismo têm tanto comprimindo e vindo a reduzir, torna-se num adversário para um evento gastronómico de dimensão nacional.

Adversário este que importa ser ultrapassado com estratégias de vitalização do Festival.
De acordo com a conversa com alguns responsáveis de restaurantes presentes no Festival, não se assiste ao necessário rejuvenescimento e renovação dos visitantes.
E este é um dos grandes adversários do futuro do Festival.

O Festival Nacional de Gastronomia não tem sustentabilidade com o publico dos concertos e o consumo que efetuam.

É com os almoços, os petiscos, os lanches e os jantares.

Só assim se consegue garantir a presença da restauração. De bons embaixadores dos paladares e aromas das suas regiões.

Esse é o desafio central deste Festival – a garantia do seu futuro.

O Festival não pode, em nome dos seus fundadores, antigos organizadores e todos aqueles que ao longo de 4 décadas foram contribuindo para a afirmação de uma cidade como capital nacional da Gastronomia, olhar o futuro sem preocupação.

Ver os restaurantes quase vazios no último sábado do festival, único dia em que ali fui, tem de ser motivo para preocupação.

Um vinho de colheita tardia é um vinho doce. Não são vinhos maus ou de menor qualidade. São diferentes.

E o Festival Nacional e Gastronomia, a sua organização e o seu futuro, tem obrigatoriamente de ter em conta o destino que lhe querem dar. Numa lógica positiva e de sustentabilidade.

Caso o futuro mantenha o rumo de uma colheita tardia, será provavelmente mais difícil mantê-lo como uma afirmação da cidade. Festivais de Gastronomia existem um pouco por todo o país.

E se queremos que este se mantenha nacional, e não apenas local ou regional, há que fazer trabalho nesse sentido e garantir essa dimensão.

Inato ou Adquirido – Ricardo Segurado

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