“Há muitos receios e a gestão do medo e da insegurança é complexa”

Ana Cláudia Cohen – Directora do Agrupamento de Escolas de Alcanena

Como é que a Escola preparou este regresso às aulas presenciais?
Dia 18 assinalou o regresso dos nossos alunos à escola. No nosso caso, quase 200 alunos do 11º e 12º anos voltaram às aulas presenciais. O Agrupamento de Escolas de Alcanena preparou o seu regresso, envolvendo professores, assistentes técnicos e assistentes operacionais na tomada de decisão. Temos uma equipa fantástica e, por isso, consideramos importante ouvir todas as partes interessadas, no sentido de, em conjunto e com tranquilidade, encontrarmos as melhores soluções, na operacionalização das orientações do Ministério de Educação, da Direcção Geral de Saúde e das Forças Armadas, que dinamizou uma formação para os nossos assistentes operacionais.

Quais os procedimentos adoptados?
Desfasámos horários, por exemplo, o 12º ano tem aulas à segunda e quarta feira e o 11º ano à terça, quinta e sexta feira. Desfasámos os percursos e circuitos dentro da escola: abrimos um segundo portão; os alunos entram por um ou por outro portão consoante o pavilhão onde vão ter aulas, assegurando que cada turma tem o seu percurso específico e que não há concentração de alunos. Da mesma forma, criámos um circuito específico para professores e funcionários. Para tal, houve necessidade de delimitar os percursos com fitas e afixação de sinalética; procedemos à divisão das turmas, criando turnos, por vezes, em simultâneo com dois professores, ou, em momentos diferentes com o mesmo professor. Reorganizámos os horários de modo a que a mancha horária dos alunos esteja preenchida na totalidade, sem momentos mortos, garantido que os alunos estão na escola apenas num turno, de manhã ou à tarde. Tentámos que cada grupo de alunos fosse alocado a uma sala específica. Esta reorganização foi complexa, na medida em que implicou não apenas alterar os horários existentes, conciliando-se aulas presenciais e aulas a distância, bem como, em alguns casos, a redistribuição de serviço. No nosso caso, este processo assumiu, ainda, outros contornos limitantes, na medida em que alguns dos docentes estão envolvidos no projecto #EstudoEmCasa, facto que tivemos em consideração aquando da reformulação dos horários, no sentido de permitir as gravações semanais. Alterámos a disposição das salas, assegurando a maximização do espaço entre alunos e alunos/docentes, no respeito pelo distanciamento físico de 1,5-2 metros. Assim, as nossas salas de aula, neste momento, têm apenas o número de lugares permitido face às regras de distanciamento entre alunos/alunos e alunos/professores. Também tivemos necessidade de transformar a Biblioteca Escolar numa sala de aula. Paralelamente, reforçámos a formação do pessoal não docente, relativamente às regras de higienização, desenhámos os mapas de higienização para cada pavilhão e afixámos cartazes com regras de higiene e etiqueta individuais. Reforçámos as regras de entrada na escola: máscara colocada e desinfecção das mãos à entrada e saída, entre outras medidas.

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De que forma se vão processar as aulas, em termos de horários, desdobramento de turmas, entre outros aspectos?
Como referi anteriormente, os alunos do 12º ano têm aulas à segunda e quarta feira de manhã e o terceiro ano dos Cursos Profissionais à terça e quinta feira à tarde. Os alunos do 11º ano, dependendo da turma, têm aulas à segunda à tarde e nas manhãs de terça, quinta e sexta feira. Houve, de facto, necessidade de desdobrar todas as turmas, uma vez que estas, em regra, têm mais do que 25 alunos e temos uma turma do 12º ano com 32 alunos. Assim sendo, temos duas situações distintas, sempre que possível, dois professores leccionam ao mesmo tempo as duas metades da turma. Quando tal não é possível, o próprio docente lecciona os dois turnos, em dias distintos. Os alunos, neste caso, têm ainda horas para trabalho autónomo e, na, primeira situação horas (1 a 2 consoante o número de horas da disciplina) para trabalho de projecto que pode ser online ou presencial, consoante a indicação do docente, dando assim, continuidade às actividades que estavam a decorrer e que se prendiam com o desenvolvimento da literacia da informação, com o desenvolvimento da autonomia; espírito crítico, auto-regulação e colaboração.

Em relação às aulas, os alunos poderão optar por continuar em regime de ensino à distância, ou terão a obrigatoriedade de se deslocarem à Escola?
Não, os alunos não podem optar. Para os alunos, que por decisão dos encarregados de educação, manifestem a opção de não frequentar as actividades lectivas presenciais, a escola não é obrigada a oferecer as mesmas a distância. Para além disso, de acordo com as orientações da tutela, é vedada aos alunos a possibilidade de apenas participarem presencialmente a algumas das disciplinas. Obviamente que, em caso de doença atestada, continuam a accionar-se todos os mecanismos a que o aluno tem direito, como sempre se fez.

O refeitório e o bar estarão em funcionamento?
O refeitório, sim, mas também com regras próprias para esta fase de contingência. Os alunos entram por um percurso pré-definido. É-lhes dado o tabuleiro já completo, evitando-se, desta forma, que os alunos toquem no pão, sacos de talheres, copos e fruta. Os alunos sentam-se na mesa de acordo com as indicações da assistente operacional. No final da refeição, ao contrário do que acontecia, os alunos não transportam os tabuleiros, deixando-os ficar em cima da mesa e saem pela porta que se encontra mais perto do local em que estiveram sentados. Para esse efeito, temos duas saídas do refeitório, desfasadas do percurso de entrada. O bufete está encerrado.

E a biblioteca?
A Biblioteca foi reconfigurada em sala de aula, mas os alunos podem aceder aos seus recursos. Bastará que manifestem essa intenção para, em conjunto com a professora bibliotecária e funcionários, se encontrar a melhor solução, recorrendo-se, de preferência, ao empréstimo domiciliário de livros e de equipamentos.

Considera que a comunidade educativa sente segurança neste regresso?
Este regresso a uma normalidade que, de normal, ainda tem pouco, está longe de ser pacífico, uma vez que há muitos receios e a gestão do medo e da insegurança é complexa. Do lado dos encarregados de educação, assistimos a uma dualidade: por um lado, o receio que as aprendizagens a distância não sejam tão eficazes e por outro, o receio de os seus educados virem a ser contaminados. Do lado dos alunos, o desejo de estar com os colegas e de rever os professores; ainda que possam ter algum receio da pandemia, este é menor do que o dos seus pais. Do lado dos professores, apesar do receio normal que se prende com a questão da saúde e de segurança, estes estão saudosos dos seus alunos e muito embebidos de espírito de missão. É, desta forma, que os docentes do Agrupamento de Escolas de Alcanena estão encarar o regresso às aulas presenciais, com o máximo profissionalismo e dedicação, dando o seu contributo para o retorno a uma situação de normalidade progressiva. Isso é tanto mais notório, quando temos docentes que terminaram tratamentos do foro oncológico há pouco mais de um ano; docentes hipertensos e docentes no limiar dos 65 anos; docentes com alergias e problemas respiratórios e todos, sem excepção, disseram presente. Por um lado, estão ávidos do contacto com os seus alunos e de continuar a orientá-los no seu percurso de aprendizagem, que durante dois meses se efectivou através de um monitor; por outro, consideram ser importante que os alunos se apropriem destas novas regras de convivência social e que este regresso pode ser visto como um acto de cidadania. Os funcionários, por seu turno, estão expectantes. Para a maioria, a escola só faz sentido com alunos, ainda que sintam o peso da responsabilidade, uma vez que parte importante da vigilância do cumprimento das regras de distanciamento e da adequada higienização dos espaços é da sua responsabilidade.
Contudo, apesar do receio natural dos pais face à pandemia, gostaria de deixar uma palavra de confiança, na medida em que todas as escolas actualizaram os seus planos de contingência e de higienização e criaram espaços de trabalho (salas de aula) preservados, assegurando que a disposição das mesas respeita as distâncias recomendadas pela Direcção Geral de Saúde. Em todas as escolas, professores, funcionários e alunos têm de desinfectar as mãos à entrada e à saída. Aliás, só se pode entrar de máscara colocada, obrigatoriedade que se mantém em sala de aula, e em todas as escolas, na circulação interna, alunos, funcionários e professores mantêm uma distância mínima de dois metros.
Ou seja, as escolas, com serenidade e responsabilidade, cumpriram todas as orientações, no sentido de permitir o regresso dos nossos queridos alunos com a máxima segurança. Apelo, pois, à tranquilidade e confiança por parte das famílias. Da minha parte, estive, ao portão da escola, para receber professores e alunos numa escola que não é a mesma do mês de Março, mas que continua a ser um espaço de aprendizagem e cidadania, com o mesmo sentir de pertença. Em conjunto, somos ímpares e vamos continuar a fazer a diferença.

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