Conotaria janeiro e os outros meses com o mar e as ondas.

Em cada janeiro há um recomeço como em cada set marítimo. Cientificamente, as ondas chegam em conjuntos, sets, de sete. A sétima dá lugar à primeira de um novo conjunto. É um eterno recomeço, tal como na vida em que sempre se recomeça…mesmo que tudo continue igual, frustrando os foguetes, os brindes e os banhos de esperança e de sorte. Vamos ser todos felizes! Não vamos nada. Mas todos pensamos que sim. É uma ambição legítima.

Um recomeço é um recomeço, um renascimento, especialmente da esperança, em que todos dizemos querer que seja para Todos, Todos, Todos. Esta verdade do papa mais humano que conheci não é aplicada por muitos, muitos, muitos, que só querem saber de si e só esperam que o novo ano lhes seja muito, muito, muito favorável. Por isso e para isso fazem qualquer coisa para que a sorte lhes assista em muitas horas dos trezentos e sessenta e cinco dias que o ano tem.

E vão até à praia no 1º de janeiro – data rica em acontecimentos – enfrentando uma mais que certa constipação, mergulhando nas águas frias. Arrepiam-se-lhes, decerto, todos os pelinhos, mas isso é o que menos importa. O desconforto térmico é, cirurgicamente, atacado por uma cervejola ou por uma garrafinha que ficou na areia à sua espera. 

Importa é o simbolismo da coisa: purificação, renovação, coragem, celebração.

Desde logo, é um ritual de renovação e purificação. Mergulhar no mar significa, para além do grito energético, lavar a roupa suja do ano anterior. Embora alguns lavem mal, fica a intenção de começar, um novo ano, limpo, sem nódoas, nem manchas que manchem mais o caráter do que as camisolas. Purificam-se os audazes que se desnudam, mas nunca poem a nu as suas fraquezas e as suas vergonhas. Alguns, apenas corajosos por um dia, quando se lhes pedia coragem o ano todo para tomar medidas bem mais difíceis do que tomar um banho gelado.

Paralelamente, a ida à praia, ainda que chova, significa celebração e convívio.

As personagens que hoje vos apresento, mais ou menos amigos, ou apenas conhecidos, têm o mesmo objetivo: o sedutor poder. Juntam-se e jogam. E lá se vai a pureza ambicionada, dado que utilizam logo ali, no primeiro dia do ano, algumas jogadas menos limpas, que o árbitro deixa passar em claro. Muito está em jogo, porque se joga o futuro do país. E havendo jogo, lá estão, também, representantes dos grandes clubes. Observam, no grande jogo da vida, que táticas lhes podem interessar. 

E tudo se compra e vende, desde bolas de Berlim a bolinhas do Rui, a companhias aéreas a bom preço, gelados e ilusões. Há sempre música, que alguns ensaiam na praia, no primeiro dia do ano, para nos darem autênticos recitais o ano todo; há fatos de banho divertidos que mascaram alguns daquilo que não são; e jipes de socorro que pifam – verbo ministerial – impedindo que se socorram os náufragos deste país à beira mar plantado, onde a saúde está pela hora da morte, salvando-se apenas a ministra que se vai salvando porque, no 1º de janeiro, ganhou uma boia salva-vidas, leia-se, salva-cargos. Há um sentimento de pertença e de partilha para os corajosos iniciáticos. De pertença porque se sentem os donos disto tudo e de partilha porque, de facto, vão partilhando, meramente, aquilo que é de todos. Para isso, jogam, neste 1º dia, o jogo da corda humana e puxam, puxam, puxam um personagem com cara de desgraçado, aparentemente, a quem chamam de Primeiro, ambicionando que ele penda para o seu lado.

Significa, ainda, um desafio pessoal e uma forma de superação. Desafiam-se a levar o país a bom porto, independentemente das vagas bastante alterosas que se esperam neste ano civil de 2026. Assim, para que o país se mantenha à tona, não deixaram de aparecer na praia, logo no dealbar do ano, os candidatos a chefe de estado de uma nação valente que chegou a este estado. Pretendem, os principais candidatos, superar-se e dobrar o cabo das tormentas, no próximo dia 18 de janeiro, rumo a uma segunda volta considerada o cabo da boa esperança. Pequeninos ou grandes, constroem-se e tentam afirmar-se, imunes às armadilhas e às pedras que lhes são arremessadas para os impedir de chegar aos seus objetivos.

Esta tradição marinheira de um país marítimo, rodeado de mar por todos os lados menos por um, traz benefícios físicos e mentais aos praticantes. O choque térmico aumenta a adrenalina, por isso, todos se movimentam energicamente; uns exercitam o físico enquanto outros a mente. E é vê-los a correr ou a discorrer, ansiosos e nervosos, de como chegar ao poder. E quase todos sorriem porque têm quase a certeza de que a vida não lhes vai correr mal, mesmo que barcos com migrantes se continuem a afundar num mar de incertezas e desgraças.

Os que aproveitaram bem o boost de energia e que tiveram clareza mental, em janeiros passados, estão hoje por cima da areia seca, no estrelato, observando de longe o teatro de onde saíram de cena; já não se deixam queimar por nenhum escaldão. Outros levaram pranchas para surfar e sentem-se livres, livres, livres, na crista da onda.

Há, ainda, os que foram para a ilha porque os outros meninos não querem brincar com eles; ninguém os entende ou não se fazem entender.

E há os instalados no poder para quem o jogo já devia ter terminado, mas não terminou.

Os semblantes, risonhos, das personagens deste cartoon parecem refletir bem o que lhes vai na alma: a confiança de que servirão bem o povo porque, afinal de contas, essa é a sua missão. Mas nem tudo o que parece é. Afinal, entre servir e servir-se a diferença é apenas o se. 

Bom ano, meus amigos. E não se abstenham. Joguem, participem no jogo, porque está em jogo o futuro do país!

 

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