A diplomacia é, por excelência, a arte do encontro, do diálogo e da representação. Exige tacto, rigor, uma profunda compreensão do mundo e, acima de tudo, um sentido de missão inabalável. Jorge Manuel da Silva Lopes, Embaixador de Portugal, personifica estas qualidades de forma exemplar. Com uma carreira de quase quatro décadas ao serviço do Estado português, o seu percurso é um testemunho de dedicação à causa pública, marcado por momentos históricos cruciais e por uma ligação afectiva e constante à sua terra natal, Santarém.
Nascido a 14 de Março de 1962, no antigo Hospital de Jesus Cristo, em Santarém, Jorge Silva Lopes cresceu a respirar a história e a cultura da cidade. “Vivi sempre nessa cidade até à ida, aos 18 anos, para Lisboa, para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa”, recorda. O seu percurso escolar inicial fez-se na Escola Primária de São Bento e no Liceu Sá da Bandeira, onde teve o privilégio de ser aluno de figuras marcantes da cidade, como Celeste Parente, Maria Inês Schaller Dias, Joaquim Cordeiro Jacob, Madalena Núncio e Regina Pinto da Rocha. Foi também aluno frequente de Natércia Maia, que recentemente reencontrou em Santarém, quando acompanhou o Presidente da República numa deslocação à agora designada Escola Secundária Sá da Bandeira.
A riqueza patrimonial de Santarém despertou nele uma paixão precoce pela história, pelas artes e pela arquitectura. No entanto, os conselhos sábios dos seus mestres, incluindo o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, encaminharam-no para o Direito. “A decisão de eleger, nos últimos anos do curso, a vertente Jurídico-política tinha já subjacente a possibilidade de vir a concorrer para a Carreira Diplomática”, explica. Uma escolha que se revelaria acertada e que moldaria o resto da sua vida. Na dúvida de conseguir esse objectivo depois de concluir o curso, ainda fez o estágio de advocacia com um antigo professor da Faculdade.
Os Primeiros Passos e a Escola do Protocolo
A entrada no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) deu-se em 1989, no Protocolo do Estado. Foi uma passagem curta, mas intensa, que funcionou como uma verdadeira escola. “Trata-se de um tipo de trabalho que não permite falhas, exige respostas imediatas, muita criatividade e capacidade de acção”, sublinha Jorge Silva Lopes. Esta experiência inicial preparou-o para os desafios que se seguiriam, ensinando-lhe a lidar com a imensa diversidade que caracteriza o serviço diplomático. “Creio que é uma boa forma de começar para qualquer diplomata, pois que nos desenvolve muito e nos faz conviver com muita gente, de todos os níveis e dos mais diversos tipos de actividade”, acrescenta.
Entre 1990 e 1995, integrou o Gabinete do Primeiro-Ministro, assumindo a responsabilidade pela organização logística e protocolar das visitas ao estrangeiro. “Foi uma experiência muito enriquecedora para um jovem em início de carreira, num trabalho muito intenso e de muita responsabilidade”, afirma, recordando a organização de mais de cem visitas bilaterais e multilaterais. Foi também durante este período que nasceram os seus dois primeiros filhos, João e Afonso.
O Mundo como Palco: De Paris a Viena
A primeira colocação no estrangeiro levou-o a Paris, entre 1995 e 2000. Foi uma época de grande efervescência política internacional, marcada pela desintegração da Jugoslávia e pelo início do processo de independência de Timor-Leste. Para Jorge Silva Lopes, francófono de formação, foi também uma oportunidade para aprofundar a sua paixão pela cultura francesa. O termo deste mandato coincidiu com o nascimento da sua filha Beatriz, a sua “petite parisienne”.
Seguiu-se Copenhaga, onde assumiu de imediato as funções de Encarregado de Negócios interino, num momento politicamente sensível: o dia seguinte ao referendo em que os dinamarqueses rejeitaram a adopção do Euro. A sua actuação estendeu-se também à Lituânia, exigindo uma adaptação rápida a metodologias de trabalho distintas. “Uma mentalidade e uma forma de agir muito distintos do que estava habituado, exigindo uma adaptação nem sempre fácil para muitos, mas a que me adaptei com gosto e prazer”, recorda.
O regresso a Portugal trouxe novos e exigentes desafios. Como Director da PESC (Política Externa e de Segurança Comum) e, posteriormente, com a sua vasta experiência protocolar, foi chamado a organizar eventos de dimensão colossal. “Sem dúvida este foi o maior trabalho da minha vida”, confessa, referindo-se à Cimeira UE-África de 2007, em Lisboa. Os números são impressionantes: 87 Chefes de Estado e de Governo, 11.800 participantes e 3.000 jornalistas. A este desafio somaram-se a Cimeira UE-Rússia, em Mafra, e a primeira Cimeira UE-Brasil.
A sua carreira internacional prosseguiu na Haia, um posto simultaneamente bilateral e multilateral, marcado pela instalação do Tribunal Penal Internacional. Em 2016, assumiu o seu primeiro posto como Chefe de Missão (Embaixador) na Croácia, promovendo um intenso intercâmbio cultural e político entre os dois países. “Surpreendeu-me o interesse pela Cultura portuguesa, o que permitiu um trabalho muito significativo nessa área, reconhecido com a atribuição de um Prémio pela APOM (Associação Portuguesa de Museologia)”, destaca.
O Regresso a Casa e os Grandes Eventos Nacionais
O percurso de Jorge Silva Lopes é também marcado por momentos de profunda exigência emocional e profissional em território nacional. Foi chamado a coordenar as exéquias fúnebres do Presidente Mário Soares, o primeiro Funeral de Estado do período democrático. Mais tarde, após a dolorosa perda do seu filho Afonso, regressou a Portugal, assumindo a direcção do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa.
A sua capacidade de organização e liderança voltou a ser posta à prova quando foi designado Representante Especial do MNE para a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023. Trabalhando em estreita articulação com a Igreja e a Santa Sé, contribuiu para o sucesso de um evento que reuniu um milhão e meio de jovens. “Uma curiosa coincidência o facto de os dois maiores trabalhos da minha vida – UE-África e JMJ/Lisboa2023 – terem decorrido na parte oriental de Lisboa”, nota com humor.
Como Chefe do Protocolo do Estado, entre 2022 e 2025, assumiu a responsabilidade por todo o Cerimonial de Estado, incluindo as celebrações do 10 de Junho e as visitas oficiais de altas entidades estrangeiras. A sua “contabilidade” impressiona: trabalhou com quatro Presidentes da República, oito Primeiros-Ministros e catorze Ministros dos Negócios Estrangeiros portugueses, tendo estado envolvido na organização de quase trezentas visitas oficiais e de Estado.
Actualmente, assume as funções de Embaixador de Portugal na Áustria e Representante Permanente junto das Organizações das Nações Unidas em Viena, naquele que deverá ser o seu último posto no estrangeiro.
Santarém: O Porto de Abrigo
Apesar de uma vida passada a cruzar fronteiras e a representar Portugal nos mais diversos palcos internacionais, a ligação de Jorge Silva Lopes a Santarém manteve-se inquebrável. “A nossa casa em Santarém é ‘a CASA’, é a nossa base, facto tanto mais compreensível quanto todos regularmente temos mudado de países e cidades”, confidencia.
É em Santarém que encontra a calma e a tranquilidade necessárias para preparar os grandes desafios profissionais. É lá que guarda a sua vasta biblioteca, o seu arquivo e as suas colecções. É o seu porto de abrigo, o lugar onde as raízes se mantêm firmes, independentemente das distâncias percorridas. “É em Santarém que está a larga maioria dos meus livros e arquivo, bem como muito das minhas colecções (sou um coleccionador compulsivo), para além das ‘minhas’ árvores, algumas das quais há pouco caídas”, partilha.
Jorge Silva Lopes é um exemplo de como a diplomacia, na sua essência, é também uma forma superior de cidadania e de dedicação ao bem comum. O seu legado é um motivo de orgulho para Santarém e para o país, demonstrando que é possível alcançar os mais altos patamares da representação internacional sem nunca esquecer as raízes que nos formaram.
