A arte não é apenas a criação de objectos estéticos destinados à contemplação passiva; é, na sua essência mais profunda e transformadora, uma forma de pensar o mundo, de interrogar a história e de dialogar incessantemente com a memória dos lugares e das pessoas que os habitam. José Quaresma, artista visual de excepção, ensaísta e professor universitário de referência, tem dedicado a sua vida a esta intersecção complexa entre a prática artística e a reflexão filosófica. Nascido no coração de Santarém, a sua obra plástica e o seu percurso académico projectaram-se de forma notável a nível nacional e internacional, mas a sua ligação à cidade berço manteve-se sempre inquebrável, como um fio condutor invisível, uma âncora identitária que o traz repetidamente de volta “a casa”.
Nascido a 12 de Março de 1965, no centro histórico de Santarém, José Quaresma cresceu a respirar a atmosfera singular de uma cidade rica em património, tradições e história. A sua aproximação ao universo das artes visuais deu-se de forma quase casual, mas rapidamente se transformou numa vocação inabalável e num destino traçado. “Comecei a desenhar e entrei como aprendiz do pintor Américo Marinho, com quem trabalhei intensivamente durante seis a sete anos”, recorda com a gratidão de quem reconhece a importância dos primeiros mestres. Foi também durante esta juventude formativa que começou a frequentar assiduamente a Casa-Museu Anselmo Braamcamp Freire, um espaço cultural de excelência que o marcaria profundamente e ao qual regressaria décadas mais tarde, já como artista consagrado, para expor a sua própria obra em diálogo com o acervo da instituição.
Aos 18 anos, impulsionado pela necessidade de alargar horizontes, como o próprio resume com clareza, “rumei a Lisboa em busca de outros voos”. Contudo, faz questão de sublinhar, com o orgulho de quem conhece a sua génese, que “as asas nasceram em Santarém”. Após uma temporada enriquecedora na Dinamarca e o cumprimento do serviço militar obrigatório na sua cidade natal, ingressou na então Escola de Belas-Artes (hoje Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa), onde concluiu a licenciatura em Pintura em 1996. A sua sede insaciável de conhecimento e a necessidade de fundamentar teoricamente a sua prática artística levaram-no a prosseguir os estudos na Faculdade de Letras da mesma universidade, onde concluiu com distinção o Mestrado (2001) e o Doutoramento (2008) em Estética e Filosofia da Arte.
A Dupla Vocação: Criador Plástico e Pensador da Arte
O percurso ímpar de José Quaresma distingue-se, no panorama cultural português, pela forma harmoniosa, rigorosa e indissociável como articula a criação plástica com a investigação teórica de ponta e a docência universitária. Actualmente Professor Associado com Agregação na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e, desde 2024, director do prestigiado Departamento de Pintura, assume-se perante os seus pares e alunos como “tão intensamente professor como artista plástico”, recusando dicotomias artificiais entre o fazer e o pensar.
A sua vasta obra visual – que cruza com mestria a pintura, o desenho, a gravura e a instalação artística – caracteriza-se por um diálogo constante, erudito e muitas vezes provocatório com a história da arte, a arqueologia e a memória colectiva. Tem exposto regularmente desde 1982, somando inúmeras mostras individuais e colectivas em museus e espaços culturais de referência, estando dignamente representado em diversas colecções públicas e particulares de relevo. Em paralelo, a sua produção teórica é de uma vastidão e profundidade assinaláveis. É autor de cinco livros fundamentais sobre pintura, inseridos em projectos de investigação de longo fôlego (como “A Pintura Contemporânea e o Barco de Teseu” e “A Pintura Contemporânea e o rio do esquecimento”), e coordenou dezenas de publicações e catálogos essenciais para a compreensão da arte contemporânea. Em Janeiro de 2026, editou pela prestigiada Imprensa Nacional-Casa da Moeda a obra “A Pintura e a Negação do Sublime”, consolidando definitivamente o seu papel como um dos mais importantes e originais pensadores da estética em Portugal.
O Encontro Transformador com o Capitão Salgueiro Maia
Um dos aspectos mais marcantes e definidores da trajectória cívica e pessoal de José Quaresma é a sua relação de profunda amizade e admiração com o Capitão de Abril, Salgueiro Maia. “Tive a imensa sorte, por volta dos 15 anos, de ter conhecido a Natércia Maia e, através dela, o próprio Salgueiro Maia”, partilha, com uma emoção indisfarçável. “Ele ajudou-me imensamente em todos os campos que se possam conceber. Ensinou-me muita coisa, inclusive a crescer como pessoa, a ter valores e princípios inabaláveis.”
Este encontro providencial de juventude deixou marcas indeléveis no seu carácter. Mais tarde, os seus caminhos voltaram a cruzar-se de forma significativa quando Quaresma cumpriu o serviço militar na mítica Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, sob o comando de Maia. “Ele continuou a ser muito meu amigo e espero, sinceramente, que também me tenha reconhecido como um verdadeiro amigo dele”, confidencia com humildade.
Esta profunda admiração e lealdade traduziu-se, décadas depois, num vasto e ambicioso projecto artístico e de investigação académica. Em 2024, no âmbito das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril, José Quaresma coordenou o projecto “Chiado, Carmo, Paris. Os caminhos de Salgueiro Maia”, que envolveu exposições de grande impacto em vários países e a publicação de livros de referência. “Andava há 15 anos a trabalhar sobre o Chiado e o Carmo. Quando se aproximaram as celebrações, pensei: porque não juntar aquilo que é tão natural e historicamente imperativo juntar? Salgueiro Maia, o Carmo e o Chiado”, explica, recordando o percurso heróico da coluna militar na manhã fundadora da Revolução. Este trabalho de homenagem contínua e rigorosa prosseguiu em 2025 com a publicação “Salgueiro Maia e o Comboio sem Reservas” e terá novos e entusiasmantes desenvolvimentos editoriais e expositivos ao longo de 2026.
O Regresso Constante e Fiel a Santarém
Apesar da sua inegável projecção nacional e internacional – bem patente na coordenação do ambicioso projecto europeu “O Tempo como virtualidade incarnada” em 2026, que envolve academias de vários países –, José Quaresma nunca cortou os laços afectivos e culturais com Santarém. Regressa regularmente à sua cidade para apresentar o seu trabalho mais recente, dialogando de forma inovadora com o património e as figuras tutelares da região. A aclamada exposição “Meditando ao luar com Braamcamp Freire”, realizada na Casa-Museu que tanto o inspirou na juventude, é um exemplo perfeito e poético deste “regresso a casa” de um filho pródigo.
A distinção que agora recebe, com inteira justiça, do Correio do Ribatejo junta-se ao reconhecimento prévio do município, que o condecorou como personalidade escalabitana de referência. É o tributo merecido a um homem singular que, através da excelência da sua arte e do rigor do seu pensamento, tem sabido honrar as suas raízes, projectando o nome de Santarém nos mais altos patamares da cultura e da academia contemporâneas. José Quaresma ensina-nos, com a sua vida e obra, que a verdadeira universalidade nasce sempre de um profundo enraizamento local, e que a arte, quando aliada à memória, ao rigor e ao afecto genuíno, tem o poder extraordinário de transcender o tempo e de nos ligar àquilo que de mais essencial e perene existe na condição humana.
