Margarida Lencastre e António Matias

O Coro do Círculo Cultural Scalabitano (CCS), actualmente composto por 36 elementos, está de Parabéns: não só pelo seu cinquentenário, que se assinala este ano, mas, sobretudo, por aquilo que tem trazido à cidade em termos de dinâmica cultural, formação de públicos, criatividade e ensino da música. Nesta entrevista, a directora do Coro, Margarida Lencastre Fróis e o Maestro António Matias, dão viva voz a este projecto cujo sucesso assenta na “diversidade humana, social e multicultural”. “Juntos, somos mais que Música” é o lema do coro do CCS, que, afirmam, possui “objectivos musicais e humanos cada vez mais exigentes”.

O Coro do CCS está a assinalar os seus 50 anos. Que projecto cultural é este?

Tal como na sua génese, em 1972, trata-se de um grupo de pessoas, de diferentes estratos etários e socioeconómicos, que se junta para fazer uma coisa que lhes dá imenso prazer: Música. O verdadeiro segredo para o actual sucesso deste grupo é a sua diversidade humana, social e multicultural. Neste momento, temos nas nossas fileiras elementos femininos da Alemanha e do Irão. Actualmente, o Coro do CCS possui objectivos musicais e humanos cada vez mais exigentes, procurando cuidar da formação de novos públicos, fazendo-se acompanhar de uma dinâmica social de grupo saudável e terapêutica. Como refere o nosso lema: “Juntos, somos mais que Música”.

Como se poderão captar mais jovens para o Coro do CCS?

Em primeiro lugar, se auspiciamos que os nossos jovens cantem num coro, é necessário que todos nós tentemos promover o canto em todas as ocasiões possíveis: escola, igreja, recitais, encontros familiares e/ou de amigos. Pois entre as várias razões para os jovens cantarem num coro estão claramente as suas próprias experiências musicais positivas durante a frequência escolar. Daí continuam a querer aumentar os seus conhecimentos musicais e o prazer de interpretar obras corais.

Desta forma, conseguem encontrar na música coral uma motivação pessoal para satisfazer as suas diferentes necessidades pessoais. Ao fim de pouco tempo, percebem que o canto em grupo tem efeitos bastante positivos na sua própria saúde, que resultam do seu envolvimento físico, emocional, social e mental. No nosso caso em particular, a nossa aposta nas classes etárias mais novas, passou pela criação de um Coro Infantil e, alguns anos mais tarde, pelo Coro Juvenil.

Cada um destes coros tinha programas de trabalho distintos e adequados às suas necessidade e gostos musicais. Todavia, vicissitudes várias levaram-nos a interromper a sua continuidade. No entanto, se surgirem as condições adequadas, tornaremos a esses projectos. No presente, a aposta para captar um público mais jovem é precisamente num reportório motivador. É precisamente neste ponto que esta formação coral faz a diferença, uma vez que o seu reportório é bastante ecléctico. Os nossos concertos são considerados particularmente para os diferentes tipos de espaço e público que estará a assistir, apresentando música sacra antiga e contemporânea, mas também temas de musicais, de música pop, gospel, rock, jazz, hip hop, etc.

Como é dirigir este grupo com backgrounds tão distintos e conhecimentos musicais diversos?

É um desafio constante à nossa capacidade de organização e liderança, cujo fim último será sempre o desenvolvimento de um ambiente propício à prática artística.

Como referiu, o Coro do CCS tem uma composição diversa do ponto de vista etário, socioeconómico e, sobretudo, musical. No entanto, tal como acontece na diversidade biológica da espécie humana, a heterogeneidade das características dos seus membros não é impeditiva para atingir um elevado nível de qualidade artística. Antes pelo contrário.

Por exemplo, vejamos a capacidade de ler e cantar melodias a partir da sua forma escrita, que é tão importante para a prática coral. 90 por cento dos coralistas que ingressam nas fileiras do Coro CCS têm uma formação musical baixa ou muito baixa, ficando de início bastante atemorizados com a necessidade de descodificação da notação musical para poderem

cantar o que lhes é exigido. Ao fim de pouco tempo, com práticas pedagógicas personalizadas e direccionadas, cada coralista consegue aumentar os seus níveis de instrução musical, melhorando a sua literacia musical, assim como os níveis de percepção e de controlo sonoro, de modalidades de escuta e entoação interna.

Por outro lado, além do sólido conhecimento técnico/musical, o maestro deverá desenvolver uma série de competências na área da psicologia social, uma vez que cada coralista tem uma personalidade distinta e a sua compreensão individual irá ajudar na forma como se poderão direccionar as dinâmicas do trabalho do grupo.

Qual é a vossa rotina de ensaios? Como é feita a escolha do repertório?

A programação do nosso trabalho depende sempre do tipo de projecto que estamos a preparar. Habitualmente temos dois ensaios regulares durante a semana com “Tutti” e, por vezes, acrescentamos mais dois de trabalho específico com os diferentes naipes isolados. No que toca à escolha do programa, como já referi, cada concerto ou apresentação tem um programa distinto, personalizado. O Coro do CCS é uma formação coral que apresenta um reportório ecléctico e bastante abrangente: desde a música sacra antiga à contemporânea, dos grandes clássicos até aos autores contemporâneos (nacionais e internacionais) em estilos tão distintos como a música clássica, gospel, jazz, pop, rock, tradicional. Como poderão perceber, esta amplitude de programas implica um árduo, contínuo e intenso trabalho por parte de cada coralista.

De que forma é que o grupo atravessou os tempos de pandemia e continuou a sua actividade?

O caso do Coro do CCS foi provavelmente um dos poucos casos que, no panorama nacional, quase não parou a sua actividade, exceptuando os períodos de confinamento obrigatório. E mesmo nesses períodos, os coralistas tinham sempre “trabalho de casa” para realizar. Foram os próprios coralistas que procuraram essa continuidade. Para mim, esta exigência está relacionada com os benefícios para a saúde e bem-estar dos próprios coralistas que sentiram estarem afectados.

Os coros têm um tremendo papel social, aliás, recordo o lema do Coro CCS: “Juntos, somos mais que Música”. Este período pandémico mostrou que os coralistas conseguiram desenvolver um sentimento de felicidade e diminuição de tristeza e depressão, diminuição dos níveis de ansiedade (através dos constantes exercícios respiratórios controlados), manutenção dos cérebros activos através de uma aprendizagem contínua, afastamento do sedentarismo promovido pelo isolamento em casa e, sobretudo, a diminuição dos sentimentos existentes de abandono e solidão, uma vez que o acto de cantar em coro inclui sempre uma interacção social.

Assim, fui obrigado a criar estratégias de trabalho que implicaram sempre objectivos concretos, apostando nos ensaios presenciais com separação dos diferentes naipes e respeitando todas as regras de higienização, distanciamento e uso de máscara. Aliás, neste período de pandemia, enquanto outros coros lutavam pela sobrevivência, o Coro do CCS, em parceria com o Coro de Câmara do Choral Phydellius (Torres) e com uma orquestra de câmara, conseguiu estrear no dia 12 de Dezembro de 2020 a obra “Requiem a Bernardo Santareno”, da minha autoria.

Foi desta forma unida, bastante activa e quase ininterrupta que conseguimos superar o período pandémico.

O maestro assumiu a direcção do Coro do Círculo Cultural Scalabitano em 15 de Setembro de 2008. Que realidade encontrou e que projecto tentou desenvolver?

Tal como acontece hoje, em 2008 o Coro do CCS era um coro amador, composto por gentes de diferentes formações, mas que estava ainda muito ligado a um passado distante e não acompanhava as exigências sociais e musicais da altura.

A estrutura directiva que estava criada não deixava muita margem de manobra para a criatividade da direcção artística. Assim, de início houve necessidade de quebrar alguns vínculos com o passado, mas, por outro lado, cimentar outros valores identitários basilares para o grupo.

Para dar uma nova dinâmica ao Coro, criámos o Coro Infantil e mais tarde o Coro Juvenil, projectos que, entretanto, estão suspensos e que cuja revitalização poderá ser imediata. O projecto que tentei implementar no Coro CCS, passou pela sólida formação musical de cada coralista, de modo a permitir a criação de programas mais arrojados e cada vez mais diversificados e, por outro lado, amplificar o seu cariz social, de apoio a todos aqueles que procuram neste grupo um espaço terapêutico para o seu ‘EU’.

Como começou a sua ligação à música?

Começou nos inícios da década de 1980 com o meu avô, Saúl Alves da Cunha, um músico autodidacta que me incutiu a verdadeira essência do amor à Música. Daí ingressei na banda filarmónica de Santana (Figueira da Foz) como trompetista e fiz depois um percurso musical mais técnico ligado aos conservatórios de música, tendo sido, em determinado período, bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Depois de uma carreira como instrumentista ligado ao universo de banda filarmónicas, orquestras, grupos de câmara, entre outras formações, permiti-me a veleidade de dar voz à minha paixão pela direcção de orquestra e coro, trabalhando com diferentes maestros nacionais e internacionais.

A sua paixão pela música exprime-se, de igual modo, através da composição de arranjos e trabalhos originais para orquestra de Jazz, Coros e Banda Sinfónica. Esta sua faceta dá-lhe prazer?

Muito… Esta é mais uma forma de expressão da minha criatividade artística. Primeiro funcionou por necessidade, pois na década de 1990 os circuitos comerciais ligados à edição musical não eram tão agilizados como nos nossos dias, pelo que sempre que havia necessidade de um arranjo musical de uma obra para um grupo, era mais prático sermos nós próprios a realizá-lo. Foi assim que se deu início à minha paixão pela composição. Ao longo de todos estes anos fomos recebendo novas aprendizagens e influências que alimentaram a nossa essência musical e que nos permitiram direccionar a linguagem musical que hoje veiculamos.

Qual o original que escreveu que lhe deu mais gozo?

Sem dúvida a obra “REQUIEM A BERNARDO SANTARENO”. Trata-se de uma obra com oito andamentos para Coro Misto, Orquestra de Cordas, Piano e Percussão, que foi estreada a 12 de Dezembro de 2020, e foi um projecto para as comemorações do centenário do nascimento de Bernardo Santareno. Esta obra centrou-se na criação literária de Bernardo Santareno, assim como na travessia existencial das suas próprias vivências. Junta revolta, ironia, ditadura, amor, drama, medo, doçura e nostalgia, numa atmosfera sonora de cor outonal, de luz serena e sombras subtilmente matizadas ou, em contraposição, ventos tempestuosos e culpados de um Inverno castigador. Com este trabalho tive oportunidade de conhecer uma personalidade controversa e, sobretudo, de dar “voz” a todos os seus dilemas e paradigmas que ainda hoje assombram a nossa sociedade, como a doença mental ou a homossexualidade.

Como olha para o panorama cultural da cidade?

Tal como acontece no plano nacional, claramente a necessitar de mais investimento. Não só nos bons valores humanos e artísticos existentes, mas também e, sobretudo, nas infra-estruturas para público e artistas.

Faz falta a Santarém, na sua opinião, uma sala de espectáculos com outra capacidade?

Claramente. Uma capital de distrito não se coaduna com uma única sala de espectáculos cuja lotação não ascende aos 190 lugares. Na região temos outros exemplos de espaços culturais maiores e que originam uma maior e mais diversificada oferta cultural. O Teatro Sá da Bandeira não comporta uma ópera, um ballet ou uma formação orquestral de média/grande dimensão.

E isto tem muita influência na criação e formação de novos públicos. Desta forma, “empurramos” o público para os grandes centros urbanos, nomeadamente, Lisboa. Santarém necessita, do meu ponto de vista, de três investimentos estratégicos fulcrais e que deverão ser vistos do ponto de vista do investimento geracional: uma Sala de Espectáculos de média grande/dimensão (com todas as infra-estruturas inerentes ao seu funcionamento), uma Biblioteca Municipal e um Museu Municipal.

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