A designação atravessou séculos e alimentou uma convicção enraizada na memória colectiva, mas a investigação conduzida por António Monteiro aponta noutro sentido: a Quinta da Gafaria, em Almeirim, nunca foi um espaço de acolhimento de leprosos. No seu terceiro livro, o autor revisita fontes documentais que remontam à Idade Média para desmontar um equívoco histórico e explicar a verdadeira origem de um topónimo ligado ao Hospital de S. Lázaro de Santarém, numa obra que cruza investigação arquivística, história local e identidade regional.

 

Este é o seu terceiro livro. O que o levou a centrar-se na Quinta da Gafaria e neste topónimo em particular?

Em Outubro de 2019, fui contactado como responsável pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Santarém pela Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva porque tinham na sua posse para restauro, três pinturas de grandes dimensões que tinham sido descobertas na Quinta da Gafaria, aquando das obras de requalificação de uma das dependências do edificado, obras de arte que haviam estado emparedadas durante séculos.

O contacto questionava o seguinte: dado que a Gafaria localizada no Cerco de S. Lázaro até meados do século XIX havia sido administrada pela Misericórdia de Santarém e tendo a Santa Casa um Arquivo Histórico com bastante documentação sobre esse hospital, poderia existir ali referências à encomenda ou compra das ditas telas?

Como na altura não tinha qualquer indicação de que isso pudesse ter acontecido, rápido iniciei pessoalmente a investigação. Tempos mais tarde iria perceber que a Misericórdia nunca tinha encomendado as pinturas nem nunca tinha estado relacionado com elas.

Também mais tarde percebi que a única coisa que liga a Quinta da Gafaria à Misericórdia, é o facto de a Santa Casa ter sido administradora, não só do Hospital de S. Lázaro (ou Gafaria), como de todos os seus bens de raiz, desde 1611.

Durante muito tempo, a designação “Gafaria” esteve associada à ideia de um espaço de acolhimento de leprosos. Em que medida a sua investigação contraria essa narrativa?

Tanto quanto consegui apurar, fruto de longa investigação, hoje em dia pode-se dizer taxativamente que a dita “Quinta da Gafaria”, nunca em tempo algum, foi uma Gafaria ou Hospital para leprosos. O topónimo “Quinta da Gafaria” foi sendo designado durante séculos porque as casas e terras, pertenciam desde tempos imemoriais à dita “Gafaria”, localizada no Cerco de S. Lázaro, em Santarém. A investigação prova isso mesmo.

Que fontes documentais sustentam a conclusão de que a origem do topónimo está ligada ao Hospital de S. Lázaro de Santarém?

As fontes documentais que designamos como fontes primárias, e que compõem a bibliografia, é extensíssima. Contudo, pode-se dizer, “grosso modo”, que as mais importantes se resumem a uma dezena de códices. Neles se incluem alguns livros do Tombo do Hospital de S. Lázaro (com datas de 1496 e 1500), livros de Notas de Tabeliães (séculos XVII e XVIII), de alguns livros de Foros da Santa Casa (século XIX), e ainda o livro mais antigo deste fundo arquivístico designado como “Treslado de Documentos Eclesiásticos concedendo privilégios aos Leprosos (1231-1501)”

A Quinta da Gafaria surge também ligada a figuras relevantes, como o Intendente Pina Manique. Que papel desempenharam estas personalidades na história da propriedade?

Da relação dos proprietários “úteis” da Quinta da Gafaria (foreiros) que consegui compulsar no extracto temporal entre 1500 a 2026, na sua maioria, eram personalidades ligadas à vida política e à magistratura; muito pouco ou nada ligados à agricultura. Normalmente deixavam a quinta ao encargo de Administradores ou Procuradores da sua confiança, os quais viviam na quinta e tratavam de todos os negócios necessários ao regular funcionamento da unidade agrícola. No entanto, sabemos hoje, que nela residiram alguns proprietários. Assim, podemos resumir que o papel dessas personalidades, era apenas de posse de um bem que se pretendia bastante lucrativo, por forma a manterem o seu bom e elevado estatuto social em Lisboa ou noutra qualquer cidade do continente, ou ainda eventualmente, quando deslocados para fora do país em negócios, ou representação do estado ou do rei. 

Para além da dimensão histórica, que leitura faz da relação entre este espaço e as comunidades agrícolas que ali viveram e trabalharam ao longo dos séculos?

A relação existente entre a Quinta da Gafaria e as outras quintas ou casais que ali existiram, pode-se dizer que sempre funcionaram como explorações de produção agrícola que se interligavam perfeitamente com o meio ambiente rural e a comunidade local, cultivando e comercializando os produtos típicos da região. Portanto, não se manifestavam diferenças substanciais, quer quanto ao espaço, quer quanto aos trabalhadores residentes.

Na actualidade, muitas destas unidades agrícolas potenciam também o agro-turismo. Tal é o caso da Quinta da Gafaria.

Um título para o livro da sua vida?

– “O homem e os códices”

Uma viagem?

– Gostava de visitar a China

Uma música?

– Agnus Dei (Samuel Barber)

Quais os seus hobbies preferidos?

– Ler “velhos documentos”, ouvir música, ver um bom filme, e o convívio.

Se pudesse alterar um facto da história, qual escolheria?

– As Invasões Francesas (pois fomos espoliados de muitos bens artísticos e religiosos)

Se entrasse num filme, que género escolheria?

– Épico (só podia ser)

O que mais aprecia nas pessoas?

– A honestidade

O que mais detesta nelas?

– A hipocrisia.

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