Na passada terça-feira, 11 de fevereiro, passaram 36 anos sobre a libertação de Nelson Mandela da prisão de Robben Island, uma das mais duras ede todo o sistema prisional sul-africano durante o apartheid. Nesta prisão, passou Nelson Mandela 27 anos em cativeiro, sujeito à tortura, a trabalhos forçados, ao frio, à chuva e ao vento, às sevícias e taras dos guardas, todos brancos. Ele, um advogado de direitos humanos da província do Cabo, formado em Joanesburgo onde iniciou a sua carreira, fundador a presidente do Congresso Nacional Africano (ANC), com passagem por diversas prisões sul-africanas sempre por delito político, 27 anos ali penou pelo crime de defender o que pensava, a igualdade entre os Homens, independentemente da sua raça, religião ou opinião.

O apartheid foi um dos regimes segragacionistas mais hediondos da História da Humanidade. Palavra retidada do dialeto africander, “apartheid” significa separação. Nenhuma palavra poderia descrever melhor a segregação humana, a privação de direitos, a ausência de liberdade, a devassa da vida privada, a eliminação dos opositores (como Peter Gabriel tão bem descreve na canção “Biko”). A discriminação continua, no mundo de hoje, a ser uma das mais vis armas utilizadas por políticos autocratas. Vejam-se, por exemplo, a perseguição do povo Rohingya em Myanmar, ou dos russófonos nos países bálticos e na Ucrânia ou, mais recentemente, as investidas do ICE contra os imigrantes em Minneapolis.

A libertação de Nelson Mandela foi o tiro de partida para uma profunda transformação na sociedade sul-africana. Três anos após a sua libertação, Mandela é eleito como o primeiro presidente negro da África do Sul. Inicia então um movimento praticamente sem precedentes na história da política mundial. Num país enorme, superpovoado e com uma larga maioria de pobres, habituados a serem discriminados e perseguidos, Mandela aposta claramente no perdão e na reconciliação nacional.

Curiosamente, esta aposta usa o rugby e a equipa nacional, os Springboks, uma equipa odiada por ser integralmente branca, como forma de atrair os negros para esta nova caminhada. O campeonato mundial de 1995 foi na África do Sul e, na final, os Springboks venceram os neozelandeses All Blacks. Foi o delírio e ficou para a história uma foto do Presidente, um negro, ao lado do capitão da seleção nacional, François Peneaar, um afrikaner. Foi o mote para a aceitação deste processo de reconciliação nacional.

Foi tudo rosas neste processo? Claro que não. A esposa de Mandela, Winnie, tomou caminhos diferentes do líder e acabaram divorciados. Mais tarde Nelson conheceu Graça, viúva do presidente moçambicano Samora Machel, com quem viveu até à sua morte, em dezembro de 2013. No entanto, o seu sonho de uma nação reconciliada consigo mesma, uma “Rainbow Nation” como lhe chamava, logrou vencer. Hoje, a África do Sul é a maior economia do continente africano, é membro dos BRICS (o “S” é de South Africa) e uma voz de peso no xadrez político e económico mundial.

A admiração do povo sul-africano por Nelson Mandela é inquestionável. Chamam-lhe “Madiba”, que na sua língua natal (xhosa) significa “Pai”. Para além dos diversos ficos do processo de reconciliação nacional, Mandela pugnou sempre por melhorar as condições de vida dos maios desfavorecidos, maioritariamente os negros dos subúrbios da grandes cidades. A dignificação da condição humana foi sempre um dos seus pilares na ação concretas, algo em que só os homens bons e de bons costumes sabem preseverar.

O tema da reconciliação em política está ao alcance de poucos iluminados. Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Jacinda Ardern, Franklin D. Roosevelt, Charles de Gaulle e poucos mais. Em Portugal, convictamente arriscaria Mário Soares e Francisco Sá Carneiro, embora seja tão-só a minha opinião pessoal e não valha nada mais que isso mesmo. Unificar é, sobretudo, dar força aos que nos une e desvalorizar o que nos separa, exatamente o contrário do que fazemos hoje em comunicação, em sociedade e em política.

Somos hoje, a nível global, comandados por um algoritmo que premeia os “hates” e desvaloriza os “likes”. Este algoritmo condiciona os destaques nas redes sociais, dando mais visibilidade aos posts que potenciam mais “hates”. Com mais visualizações, estes posts tornam-se frequentemente virais, chamando a atenção de empresas, comunicação sociais e políticos.

Com base neste racional, os briefings da comunicação seguem direta ou indiretamente a linha do algoritmo e valorizam os conteúdos potenciadores de “hates”. Ora como sabemos, os conteúdos da comunicação fazem mais vezes a agenda dos políticos que o inverso, até em termos de timing (telejornal das oito, etc). Resumindo, temos hoje uma estratégia política que conduz as nossas vidas e se baseia na valorização do ódio dada por um qualquer algoritmo subjacente a uma qualquer rede social, ou seja, somos indiretamente comandados por “devices” que desconhecemos, assim como desconhecemos quem os produz ou quem os comanda. A isto chamamos democracia, por oposição a ditadura?

Os centros de decisão estão cada vez mais longe das pessoas porque a sua preocupação não são as pessoas, mas sim a gestão da sua imagem e posição. Se assim não fosse, porque não foram adiadas uma eleições em que à partida todos sabíamos quem iria ganhar, num momento em que os portugueses sofriam horrivelmente os efeitos de uma das piores séries de intempéries de sempre. Qual era o problema? The show must go on? Para mim tudo isto representou uma grande falta de respeito pelos portugueses que sofriam, uma insensibilidade completa pelo seu sofrimento. O nível de abstenção assim o demonstrou e o futuro não se afigura risonho. É preciso governar para as pessoas, não apesar das pessoas.

Depois temos a palhaçada dos ministros. Ai a Ministra da Administração Interna não sabe falar em público? Fora com ela! Quem já chefiou equipas sabe bem que o sucesso vem da delegação de competências, que esta só funciona com autonomia e confiança. Mas como ter confiança numa entidade que deveria proteger os portugueses nestas situações, mas cuja organização é mais intrincada que o emaranhado de linhas do metro de Londres? Alguém espera que aquilo alguma vez funcione? É que está assim há décadas. Benditas Forças Armadas, que se marimbaram nos protocolos e avançaram no terreno.

E que dizer da Ministra da Saúde? Uma vergonha! Um enfermeiro a gerir energias renováveis e uma farmacêutica a gerir médicos? Como pode ser? Tudo estava tão bem até determinado ano/mês/dia/hora e, de repente, vindo do nada, tudo ficou um caos, uma vergonha. Estas afirmações, ditas com a maior seriedade do mundo e com um inabalável compromisso com a verdade, têm subjacentes algumas questões pertinentes e importantes: O que é um administrador hospitalar? Qual é a sua função numa unidade desta natureza e dimensão? Quais os efeitos da sua ação nos níveis de prontidão destas unidades? E na qualidade do serviço prestado?

A questão dos gestores públicos de carreira, nas quais se incuem quer a Proteção Civil quer os administradores hospitalares, é um dos maiores constrangimentos à melhoria das performances nestas áreas, com maior valor para os seus “clientes”. Sai um ministro, vem outro, volta a sair, volta a vir outro, nada muda. Onde está o problema? Quando há problemas com algum comandante ou administrador hospitalar, transfere-se o efetivo para outro local e tudo fica bem (até ver …). O mal está feito e é só varrer para debaixo do tapete para que todos esqueçam. Morreram pessoas? O Estado perdeu dinheiro? Isso não interessa nada, há muito para gastar. Ninguém me vai chatear a cabeça. Sou ou não sou intocável?

Todas estas ações, esta impunidade, são reforçadas pela estratégia política baseada na valorização do ódio e do antagonismo de que acima falei. Vivemos este antagonismo de forma intensa, sem entendermos que ele é apenas uma ferramenta numa estratégia de comunicação mais hardcore.

Regressemos então a Nelson Mandela e à sua libertação de Robben Island para, pelas suas próprias palavras, lermos quais era os seus pensamentos naquele momento: “Quando eu saía em direção ao portão que me levaria à liberdade, eu sabia que, se não deixasse a minha amargura e o meu ódio para trás, eu iria ficar na prisão”.

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