Maria Martins: “A minha família chegou a pagar para eu correr”

Maria Martins, natural da Moçarria, concelho de Santarém, tornou-se a primeira ciclista portuguesa a ser medalhada num europeu e num mundial de pista, em provas de scratch. Tata, alcunha pela qual é também conhecida, conquistou o bronze europeu em Apeldoorn, Holanda, em Outubro passado e voltou a fazer história, no passado dia 26 de Fevereiro, ao conquistar o bronze no Campeonato do Mundo de Pista, em Berlim, Alemanha. Desde de muito cedo que começou a praticar BTT nos passeios pelo campo com um tio e os trilhos em BTT que fazia com os amigos foram o início. Aos 15 anos integrou a equipa de BTT do Moçarria Aventura Clube, federou-se, começou a fazer provas. Hoje é uma das atletas a representar Portugal nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Como foi o seu começo no ciclismo?
Comecei com simples passeios com o meu tio pelo Parque de Monsanto, fazendo BTT e simplesmente desfrutando dos melhores trilhos.

Quando recebeu a primeira bicicleta? Lembra-se de como era?
Recebi a minha primeira bicicleta quando estava de férias no Algarve e os meus pais chegaram a casa com uma bicicleta para mim e para a minha irmã. Lembro-me perfeitamente como era! Compraram no supermercado que na altura era o “Feira Nova” e a marca era Team. Era preta e vermelha, sem rodinhas e posso-lhe dizer que na altura foi o presente que me deixou mais feliz! Era muito pequenina e nunca tinha andado numa bicicleta daí o entusiasmo!

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Sentiu desde aí que o seu futuro era o ciclismo ou foi percebendo aos poucos?
Nessa altura, estava longe de pensar que o meu futuro ia ser por ali, muito longe mesmo! Posso dizer que comecei a pensar em querer ciclista por volta dos 12/13 anos.

Quem via como ídolo nessa altura?
Nunca fui de ter um só ídolo, admiro os atletas em geral, tanto no ciclismo como em outros desportos, no entanto tenho como regra todos aqueles que seguem os caminhos certos, progressivos e bem sucedidos, aqueles que mantém-se de cabeça erguida apesar das dificuldades que enfrentam! Para mim, todos os atletas que tenham carácter e espírito de atleta são uma inspiração para mim e os que me transmitirem isso serão um ídolo para mim.

Como foi em termos de apoio? Sentiu-se sempre apoiada, sobretudo pela família, ou alguma vez pensou em dedicar-se a outra coisa?
Felizmente posso dizer que sempre tive a minha família e amigos do meu lado! E sinto-me grata por isso! Sem dúvida, que é o pilar mais importante e decisivo no crescimento de uma pessoa e principalmente de um atleta. Sinto-me muito muito sortuda nas pessoas que tenho ao meu redor e sem eles não estaria onde estou! O ciclismo é um desporto que exige grande capacidade financeira por parte das famílias e a minha família chegou a pagar para eu correr internacionalmente!

O que seria se não fosse ciclista?
Para além do sonho desportivo também tenho outro do outro lado! Tenho a paixão de ser piloto comercial de uma companhia aérea.

Além da bicicleta, que outro tipo de desporto pratica?
Neste momento, apenas pratico ciclismo mas sou uma grande fã do desporto em geral e é das coisas que mais gosto de fazer.

Como consegue conciliar a sua vida pessoal e de atleta?
Na altura em que estava a estudar era mais difícil mas considero que seja um dos desafios mais difíceis que os desportistas têm. Abdicamos de muitas coisas em prol dos treinos, do descanso e da recuperação para podermos estar na melhor forma. Ainda assim, não deixo de poder desfrutar das coisas que gosto de fazer. Somos pessoas e não máquinas.

Como está a correr a experiência na equipa inglesa Drops Cycling Team?
Ainda só estive no estágio uma semana com a equipa mas do pouco tempo que tive, gostei bastante do grupo e do espírito entre atletas e staff. Estou bastante motivada por começar a correr!

Já conquistou duas medalhas de bronze no Europeu e no Mundial de pista. O que sentiu no momento de subir ao pódio?
São, sem dúvida, dos melhores momentos que um atleta vive, é uma imensidão! São momentos de pura felicidade e emoção!

Por que fases passa um atleta de ciclismo até chegar às competições internacionais?
Os resultados são apenas o fruto de todo um longo e exigente processo que vem de trás. É um processo onde passamos por muitas fases, altos e baixos constantes, mas que independentemente disso não paramos porque temos os olhos postos num determinado objectivo.

Quais são foram maiores sacrifícios que passou como atleta de alta competição?
A partir do momento que nos tornamos atletas de alta competição, considero que estamos naquele degrau onde só cabe excelência, resiliência, dedicação e paixão. Considero que os maiores sacrifícios que tive foram o conciliar dos estudos com o desporto. Outros sacrifícios que passei e que actualmente ainda passo são o controlo do peso corporal, a gestão psicológica em certos momentos da época e alguns relacionados com a nossa vida social.

Tendo em conta os últimos anos, como é que acha que o ciclismo português é visto internacionalmente?
Apesar de Portugal não ser uma potência no que diz respeito ao ciclismo, considero que tem estado em crescente progressão e a prova disso são os resultados que nos últimos anos temos tido. Acredito que vamos chegar longe!

De todas as provas em que já participou, quais as que teria vontade de repetir?
É uma pergunta difícil! Felizmente tenho muitas provas onde as coisas me correram bastante bem e eu adoraria andar para trás no tempo e reviver esses momentos. Nesta época de 2019/2020 se andasse seis meses para trás, começando em Julho e terminando há cinco dias atrás, estaria a reviver os melhores momentos da minha vida!

Jennifer Valente, Kirsten Wild e Maria Martins no pódio em Berlim

Quais os objectivos e expectativas para os próximos Jogos Olímpicos?
Sinceramente, ainda não pensei muito sobre os objectivos para os Jogos Olímpicos, no entanto, gostaria de estar na melhor forma possível e representar da melhor forma a nossa bandeira. Prometo entrega e dedicação mais do que até hoje tenho tido e lutarei por um lugar honroso para o nosso país.

Quais são seus planos para o futuro?
Gosto de pensar no futuro, organizando a minha cabeça e programando-a para cada objectivo futuro, no entanto, o meu pai sempre me ensinou a viver o presente e encarar um dia de cada vez. Como tal, é isso que tenho feito, vivo o presente, desfruto dos momentos agora mas sempre com os meus olhos no futuro.

Quais são os seus hobbies favoritos?
Adoro ir ao cinema, fotografar, fazer programas com a família e amigos, viajar, passear, cozinhar, praticar desporto, etc.

Qual é para si uma viagem de sonho?
Tenho um fetiche pelos países asiáticos, Tokyo sempre foi a minha cidade de eleição, mas adorava de poder ter a oportunidade no futuro de descobrir um pouco todo o globo.

Se pudesse alterar um facto na história, qual seria?
Sinceramente, não alteraria nada! Não tenho nada do qual me tenha marcado e me arrependa de o ter feito. Todos cometemos erros, mas decisões mas considero que elas fizeram parte dos meus sucessos. Daí não alterar nada!

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