Memorável: Maria Helena Vieira da Silva

Vieira da Silva, Maria Helena, um das mais afamadas pintoras contemporâneas a nível mundial, senhora de um olhar expressivo mas com uma timidez e ressalva, que constituíram a sua forte personalidade e que utilizou como uma “capa” protectora contra a intromissão. A infância solitária entre adultos, marcada por viagens ao estrangeiro e dias passados na biblioteca do avô, despertou desde cedo em Vieira da Silva a imaginação artística e o gosto de estar consigo própria.

Nasceu em Lisboa no dia 13 de Junho de 1908. A morte prematura do pai em 1911, marcou profundamente a artista que lhe resgata um gosto pela arte que estende a toda a família. Passou a viver com a mãe num palacete do avô na rua Latino Coelho em São Sebastião da Pedreira. O avô José Joaquim da Silva Graça foi director e jornalista do famoso jornal “O Século”, e um republicano convicto. Através dele Vieira sabe do mundo que a rodeia embora, a sua educação tenha sido feita em casa. A ausência do meio social escolar reflectiu-se no seu isolamento e no convívio com amigos.

Numa viagem a Inglaterra decidiu-se tornar-se pintora, iniciou a aprendizagem acompanhada de estudos de música, desenho e também modelagem. O interesse de Maria Helena pela modelagem e pintura leva-a a frequentar o curso de anatomia na Escola de Belas Artes de Lisboa. Num período politicamente instável e culturalmente empobrecido em Portugal, Maria Helena sem mais demoras decidiu partir para a cidade luz, Paris, em Janeiro de 1928.

Vieira da Silva viveu com entusiasmo a cidade: a par dos seus estudos frequentou cafés, concertos, teatros, museus e galerias. A pintura tornou-se o centro da sua preocupação e atenção, todos os ensinamentos foram recebidos com avidez para mais e melhor dominar a técnica. É nesta fase que conheceu o pintor húngaro Arpad Szenes. Um ano depois voltam reencontrar-se e deste (re) encontro nasceu uma união para a vida. Decidiram casar e ir viver na Villa des Camélias que funcionou como casa e atelier de trabalho.

Em 1932 pela mão da galerista Jeanne Bucher Vieira da Silva expõe pela primeira vez. Em 1935 foi vez de Portugal, Maria Helena expõe na Galeria UP de António Pedro. No regresso a Paris com a proliferação do Fascismo na Europa os intelectuais organizaram-se para discutir formas de resistência. Uma delas foi o grupo Amis du Monde, grupo que Vieira e Arpad passaram a frequentar de forma empenhada e activa. Contudo, o início da Segunda Guerra Mundial fez temer pela vida de Arpad cuja origem era judia e regressaram a Lisboa. Na capital o casal requereu nacionalidade portuguesa, esperaram um ano mas a resposta foi negativa. Temendo o pior, partiram para o Brasil em 1940. Instalaram-se no Rio de Janeiro, do seu círculo de amizades fazerem parte grandes nomes da Arte e Cultura brasileira como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Maria Saudade Cortesão entre outros. O exílio no Brasil foi particularmente doloroso para Vieira da Silva e a sua obra reflectiu as suas inquietações: a tristeza, dor, saudade, desenraizamento o absurdo do ser na sua condição humana. A artista viu-se despojada de tudo e isso revelou-se na sua pintura abandonando as inquirições abstractas e pintando somente paisagens, representações intimistas e naturezas mortas resultado do drama da guerra.

O términus da Segunda Guerra ditou o fim do exilio; Maria Helena regressou a Paris em Março de 1947 e Arrpad, por precaução dois meses depois. Após o caos do conflito interno e externo Vieira da Silva vive um momento fértil em criatividade e a sua obra teve uma amistosa recepção. A partir de 1947 as exposições de Vieira da Silva sucedem-se de forma pertinente não só em França como no estrangeiro. No ano de 1954 venceu o concurso para uma tapeçaria para a Universidade da Basileia na Suíça. Em 1956 o Estado Francês atribuiu ao casal a cidadania francesa. Iniciou-se um período de maior estabilidade na vida da pintora e isso reflectiu-se na intensa produção artística: partindo da premissa que era uma mulher da cidade, Vieira da Silva confirma-o na sua pintura, expôs em Bruxelas, Hannover, Londres, Genebra, Basileia e Nova Iorque. Durante a década de 60 a enérgica produção artística marcou definitivamente o seu nome na História da Pintura Contemporânea Mundial; os prémios e retrospectivas sucederam-se, consolidando uma notoriedade que a sua pintura rigorosa e exigente impunha.

Artista gostava pouco de falar sobre a sua obra, afirmava que para falar dela teria que falar da sua vida toda. Os seus quadros são de vagarosa e cuidadosa execução, pela pincelada e tempo de secagem existiam regressos constantes da artista à obra numa transfiguração incessante da realidade. Em 1975 Vieira da Silva realizou cartazes comemorativos do 25 de Abril a pedido de Sophia de Mello Breyner. No ano seguinte Arpad e Maria Helena deixaram de viajar, Arpad ficou doente, e o casal recolheu-se no incomensurável bem-estar do seu lar que tanto os acalentava. Na década de 80 Maria Helena Vieira da Silva recebeu dois convites de relevância do Ministério da Cultura e do Ministério dos Negócios Estrangeiros Franceses para fazer dois trabalhos para a capela da embaixada de França em Lisboa. Em 1983 recebeu o convite do Metropolitano de Lisboa para conceber a decoração em cerâmica da Estação da Cidade Universitária.

O seu marido, Arpad, morre em Janeiro de 1985, o seu desaparecimento deixou um vácuo e um silêncio assaz difícil para Maria Helena. Volta a Portugal no ano seguinte para a exposição no Centro de Arte Moderna na Fundação Calouste Gulbenkian, por ocasião do seu octogésimo aniversário. Neste regresso o governo português agraciou Vieira da Silva. Nesta época a artista foi reconhecida internacionalmente com prémios, homenagens e condecorações, todavia, debilitada pela frágil saúde e pelo desaparecimento de Arpad, Vieira da Silva pouco pinta passando maior parte do seu tempo em casa. Depois de uma melindrosa cirurgia, Maria Helena não recuperou e morreu em Paris a 6 de Março de 1992. Já não assistiu à inauguração do museu dedicado à sua obra e do seu marido, criado pela Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, que perpetua em Portugal, a sua MEMORÁVEL obra!

Susana Coimbra

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