Memórias da Cidade: Quando a Terra tremeu em 1909 e 1969

Às 17 horas, de 23 de Abril de 1909, sentiu-se um violento tremor de terra de grau 6,7 na escala de Richter que durou cerca de 10 segundos, provocando muitos danos em várias localidades ribatejanas como Salvaterra de Magos e Samora Correia e a quase total destruição de Benavente. O sismo provocou 75 feridos e 46 mortos. Em Santarém, o “fenómeno produziu em todos os bairros da cidade um pânico medonho, saindo para as ruas toda a população, verdadeiramente aterrorizada” (CE, 24/4/1909, p. 4).

Foto: CM Benavente

Os efeitos do tremor de terra sentiram-se em edifícios públicos, casas particulares, “das muralhas das Portas do Sol desprenderam-se quatro blocos do alicerce, um dos quais foi cair ao Tejo, produzindo deslocamento nos carris da linha férrea. A igreja do Salvador tem as abóbodas fendidas e os cunhais da capela-mor e coro todos desligados” (Idem). Os danos da referida igreja impediram-na de continuar aberta ao culto que passou a realizar-se na capela da Piedade, onde também caiu parte do zimbório e surgiram fissuras nas paredes voltadas para o Passeio da Rainha (jardim da República). Nas igrejas do Sítio, do Monte, de Santa Cruz e do Milagre registaram-se prejuízos nos zimbórios. Nestas duas últimas, caiu uma parte do telhado e o estuque da abóboda respectivamente. O cruzeiro da igreja da Misericórdia ruiu enquanto a abóboda, o coro e a sacristia sofreram fissuras. No edifício do Seminário, os danos foram acentuados, especialmente no corredor nobre onde caiu muito reboco. Na igreja, o tecto da capela-mor e o altar de S. Luís Gonzaga foram os que mais estragos sofreram. A igreja de Santa Iria registou danos no zimbório e numa casa anexa à sacristia, sendo os prejuízos no valor de 500$000 réis. S. João de Alporão sofreu uma fissura na abóboda e numa parede exterior. As igrejas profanadas de S. Francisco e da Santíssima Trindade sofreram vários estragos no claustro, no coro e na antiga sacristia do último templo. A igreja da Graça apenas registou pequenos estragos nos estuques.

No quartel de Caçadores 6 tombou uma parede numa caserna provocando ferimentos num sargento e nalguns soldados. No Presídio Militar caiu a maioria dos estuques e registaram fissuras significativas, especialmente na casa do general Silva. O hospital também sofreu danos como a queda de estuques em várias enfermarias.

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Foto: CM Benavente

Durante a noite, houve várias réplicas que causaram o pânico a “uma filha de Henrique Modesto da Ribeira, [que se] atirou de uma varanda abaixo, ficando com entorse num pé. Também se arremessou de uma janela uma filha do comerciante Gerardo Freire que ficou seriamente ferida” (Idem).

A 27 de Abril, o jornalista João Arruda visitou Salvaterra de Magos, Benavente e Samora Correia debaixo de um calor abrasador. Aí, confrontou-se com um cenário de grande destruição com derrocadas frequentes e o chorar das vidas perdidas. Da visita em que encontrou o jornalista de “A Lucta”, Brito Camacho, Arruda deixou o relato “O terramoto no Ribatejo. Visitando as terras devastadas”, publicado no “Correio da Extremadura”, de 1 de Maio.

A 28 de Abril, o governador civil, Joaquim Luís Martins nomeou comissões em todas as freguesias do distrito para o informarem do apoio que necessitavam para auxiliar as pessoas mais pobres e que tinham sido afectadas pelo sismo. A comissão da freguesia de Marvila era composta pelo padre Sousa Refoios, António Ginestal Machado, Sabino Sampaio Caldas, Manuel António das Neves, capitão Crespo Frazão e Joaquim da Cunha e Matta. O pároco António de Carvalho, José Cardoso da Silva, Albano Lemos, Manuel João Telhada, Álvaro Peixoto da Silva e Francisco Inácio da Silva integravam a comissão da freguesia de Salvador. A freguesia de S. Nicolau contou com o apoio do padre Miguel do Souto, Leonardo Ramos, António Mendes Cabral, João Francisco da Costa, Joaquim Manuel da Silva e João Pedro Monteiro. A comissão da freguesia de Santa Iria era composta pelo padre Sabino Pereira, pelo capitão Egídio de Sousa, Adelino Dias, José A. da Silva Cordeiro, Adrião da Costa Malfeito e João Arruda.

A 30 de Abril, o rei D. Manuel II visitou Santarém, acompanhado do ministro das Obras Públicas, Luís de Castro, onde visitou as igrejas do Salvador e do Milagre e percorreu a pé a rua Direita, o largo da Graça e a rua da Amargura. Na farmácia de António Joaquim Soares, actual farmácia Pereira, localizada na rua Direita, o monarca demorou-se algum tempo a escrever diversos telegramas. Antes de seguir viagem para Coruche, ainda percorreu a praça e a avenida Júlio Monteiro, na Ribeira de Santarém “informando-se dos estragos do tremor de terra e visitando, na barraca onde está instalada, uma das vítimas, Emília Rosa, filha de Henrique da Costa Rosa, que deslocou um pé ao precipitar-se de uma varanda” (CE, 1/5/1909, p. 3).

Enquanto chegavam donativos para as localidades mais atingidas, as obras inicaram-se especialmente no bairro da Ribeira de Santarém onde as habitações ficaram muito afectadas. O relatório do governador civil sobre a calamidade ficou concluído a 25 de Maio e foi publicado integralmente no “Correio da Extremadura”.

Na tarde do dia 2 de Agosto, registou-se um tremor de terra de curta duração que alarmou os escalabitanos apesar de não haver danos a registar.

O sismo de 1969

Às 3h41’, de 28 de Fevereiro de 1969, sentiu-se um violento e prolongado tremor de terra de grau 7,9 na escala de Richter, seguido de várias réplicas, sendo as casas da cidade e da região “fortemente sacudidas, saindo grande número de moradores que veio para a rua, onde não tardaram também a circular automóveis, com muitíssimas pessoas que se não conformavam em ficar em suas casas, tanto mais que faltou a luz e registaram-se avarias nos telefones (…) preferência para o Campo da Feira que não podia ser mais procurado de que foi nessa noite, a pé e de carro, muitos sendo os automóveis dos que, embrulhados em cobertores, ali passaram a noite, defendidos da repetição do flagelo” (CR, 1/3/1969, pp. 1, 2).

Foto: Arquivo DN

Os estragos fizeram-se sentir em muitas habitações com vidros partidos, brechas nas paredes e chaminés destruídas. As igrejas de Santa Iria e da Misericórdia sofreram danos, a primeira com grandes fissuras nas paredes e, a segunda, com a queda da cruz.

O epicentro do sismo localizou-se no oceano Atlântico, a cerca de 230 km a sudoeste de Lisboa e ao largo do cabo de S. Vicente. O Algarve foi a região mais fustigada, especialmente Sagres. No concelho de Vila do Bispo ficaram destruídas 400 habitações e a talha dourada da igreja Matriz, de Budens perdeu-se na totalidade. Na vila de Bensafrim, concelho de Lagos, mais de 20 casas desmoronaram-se, enquanto a maioria da população da aldeia de Fonte dos Louzeiros, no concelho de Silves, ficou desalojada pois apenas uma casa resistiu intacta ao sismo. Desta calamidade natural morreram 13 pessoas, duas das quais consideradas vítimas directas do abalo, e cerca de 70 pessoas ficaram feridas.

Foto: Arquivo RTP

O sismo foi sentido em Marrocos, onde provocou 8 mortos e 11 feridos e na Espanha, onde fez 5 vítimas mortais e 6 feridos. As ilhas Canárias e a cidade francesa de Bordéus também sentiram o tremor de terra.

O forte abalo sísmico deu azo a um pequeno tsunami e, entre 28 de Fevereiro e 24 de Março de 1969, registaram-se 47 réplicas. Nesse ano, a terra tremeu mais seis vezes, no cabo de S. Vicente e Vila do Bispo (Maio, Setembro e Dezembro), em Pombal e Santa Comba Dão (Setembro e Outubro) e em Montemor-o-Velho (Novembro).

Teresa Lopes Moreira

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