A Gripe Pneumónica em 1918 “ Da fome, da guerra e da pestilência livrai-nos Senhor!” (Oração medieval)

As três ameaças medievais ressuscitaram em 1918, num período em que o aumento de preços e a carência de bens alimentares básicos como o pão e a batata procriaram a fome, consequências da I Guerra Mundial, associadas à epidemia de gripe pneumónica que provocou cerca de 20 milhões de mortos em todo o mundo.

Em Portugal, o flagelo surgiu em Dezembro de 1917, com picos a partir do final de Maio e até Agosto de 1918, reacesos entre Outubro e Novembro desse ano. A epidemia começou por grassar em Espanha, atingindo inicialmente as zonas da raia, daí que fosse popularmente conhecida como gripe espanhola.

Estes três momentos epidémicos causaram cerca de 60 474 mortos em Portugal acentuando a grave crise económica e social em que o país se encontrava mergulhado. A maior quebra demográfica portuguesa concentrou-se em Benavente onde sete em cada cem pessoas morreram de pneumónica. A doença convergiu para uma vasta zona localizada na bacia do rio Tejo, afectando nos distritos de Lisboa e Santarém, os concelhos de Vila Franca de Xira, Azambuja, Benavente e Salvaterra de Magos, com taxas de mortalidade de 3,2%, 4%, 7% e 2,9% respectivamente.

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Esta elevada taxa de mortalidade gripal foi influenciada pela enterite e pela tuberculose que grassavam de forma descontrolada em Portugal. O grupo etário mais atingido foram as crianças entre os recém-nascidos até aos 23 meses de idade e os adultos entre os 20 e 40 anos, com destaque para o sexo feminino com idade inferior a 30 anos. Entre Outubro e Novembro, a pneumónica matou 40% das mulheres grávidas portuguesas.

O medo do contágio levou a encerrarem-se fábricas, grandes estabelecimentos comerciais, escolas e outros serviços púbicos. As romarias e feiras foram suspensas ou adiadas temendo-se os ajuntamentos populares e a propagação da pandemia.

A feira da Piedade, em Santarém apenas se iniciou a 24 de Novembro e as touradas foram suspensas o que aumentou os problemas financeiros do Hospital da Misericórdia que viu as receitas diminuírem e as despesas aumentaram com o fluxo de doentes.

O poder político, nas mãos de Sidónio Pais, criou o Comissariado do Governo, presidido por Ricardo Jorge, a fim de reformular os serviços médicos e assegurar mais apoio à população ao nível hospitalar e medicamentoso.

O atraso da medicina em Portugal, sobretudo nos serviços medico-forenses levou à reforma dos Serviços de Saúde, em Dezembro de 1918.

A pneumónica em Santarém

Na década de 10, do século XX, as taxas de mortalidade na cidade de Santarém eram muito elevadas, especialmente devido aos surtos de tifo e tuberculose. A gripe pneumónica provocou maior número de óbitos em Santarém, entre Outubro e Novembro de 1918. Daí, que no início de Outubro se pudesse “considerar até agora satisfatório o estado sanitário de Santarém, tendo falecido apenas no hospital civil alguns trabalhadores das localidades do sul que ali entraram atacados desta doença. Nesta cidade, a epidemia tem um carácter benigno. Em harmonia com as determinações do governo, foram suspensos os exames da segunda época que deviam realizar-se no liceu Sá da Bandeira, transferindo-se para ocasião indeterminada a abertura não só deste estabelecimento como de todas as escolas e colégios. Por igual motivo não se realizam por enquanto as reinspecções militares, tendo-se afixado editais neste sentido. Por edital do Governo Civil foram proibidas as feiras, mercados, romarias e espectáculos públicos em todo o distrito, com excepção dos mercados de víveres que se destinam à alimentação das populações” (CE, 5/10/1918, p. 2).

Na semana seguinte, o Correio da Extremadura já noticiava a morte das primeiras vítimas do concelho, o jovem de 18 anos, Dionísio Nuno Pereira Coutinho, natural do Vale de Santarém e filho único de um importante proprietário com o mesmo nome; Felismina Lagarto Gomes, de 43 anos, casada com o sargento Francisco Gomes Malaca; Joaquim Ramos Saragoça, sargento em serviço no Presídio Militar; dois filhos do sargento de Infantaria 16, Manuel Casimiro Figueiredo; um filho do músico de 1.ª classe de Infantaria 16, António Carvalho; e Celeste Pires Estrela, de 21 anos, noiva de João Marques Silva Júnior.

Apesar das listas de necrologia aumentarem, passava-se uma imagem positiva à população, “a gripepneumónica está grassando com certa benignidade em todo o distrito. Em Santarém tem havido poucos casos fatais, registando-se maior número no hospital civil. O chefe do distrito tem providenciado para prover de médicos e enfermeiros as povoações epidemiadas, pensando em regulamentar a remuneração dos serviços clínicos e o preço dos medicamentos.

Visitou há dias o hospital deixando ali 200$00 para imediata aquisição de roupas. Os regimentos da guarnição também fornecem camas e roupas para as enfermarias suplementares do hospital” (CE,12/10/1918, p. 2). Em Muge, surgiram alguns casos epidémicos fatais, encontrando-se a farmácia fechada devido à morte do ajudante e doença dos dois farmacêuticos. Apesar do médico local ter sido inexcedível, as receitas só podiam ser aviadas na farmácia mais próxima, a de Valada.

Na Ribeira de Santarém “só houve, até à data, um caso fatal de epidemia, sendo poucos os atingidos por esta doença; para contribuir para o bom estado sanitário daquele bairro seria bom acabar com a colecção de pocilgas e estrumeiras ao norte do povoado” (Idem). De entre os reclusos do Presídio Militar só se tinha registado um óbito.

Perante a falta de recursos para socorrer os doentes, “lembram-nos que a igreja e o claustro do hospital se prestam à instalação de amplas enfermarias, na previsão de que a epidemia se desenvolva em Santarém, e que qualquer donativo especial para a compra de camas e roupas seria, na presente conjuntura, um valiosíssimo auxílio” (CE, 5/10/1918, p. 2). O proprietário Faustino de Paiva Sá Nogueira contribuiu com 500$00, destinados ao fim de equipar o hospital com roupas, enquanto um grupo de senhoras da cidade organizou uma Comissão de Assistência Distrital, apoiada pelo governador civil substituto, Santos Moita, a funcionar na sede da Associação dos Bombeiros Voluntários.

Esta Associação forneceu gratuitamente medicamentos e refeições aos mais carenciados, graças aos donativos. Também a Associação Comercial solicitou o apoio dos seus associados, obtendo 1 000$00 destinados a comprar géneros para distribuir pelos mais necessitados.

A referida colectividade ofereceu 100$00 ao hospital. A partir de 26 de Outubro, a Misericórdia ofereceu até 100 sopas diárias, na cantina masculina, situada na travessa do Requeixo. Em Novembro, um grupo de senhoras de Santarém liderado por Luísa do Vadre Santa Marta (Andaluz) organizou uma comissão para reunir dádividas a canalizar para crianças órfãs ou desamparadas em consequência da pandemia. A fim de auxiliar esta comissão, o Correio da Extremadura recebeu donativos em dinheiro, géneros alimentares e roupas.

Entretanto o número de mortos aumentava: Ana da Conceição Guedes Amil casada com Manuel Guedes Amil; Emília Piedade e Silva Garcez, de 46 anos, irmã de José Cotrim da Silva Garcez; o padre de Achete, Augusto da Conceição Paz, de 38 anos, natural da Ribeira de Santarém e filho do comerciante Manuel Augusto da Conceição; Júlia Alice de Carvalho Anachoreta Teles, de 35 anos, casada com o jurista Teles Feio e filha dos viscondes da Silva Anachoreta; Augusta da Assunção Vigário, de 28 anos, filha do proprietário de carroças, Hilário da Assunção, casada com o comerciante ribeirense, Florentino Dias Vigário e mãe de dois filhos menores, um deles com um mês de idade; Felismina da Silva Rodrigues, de 24 anos e casada com o tipógrafo Joaquim António Rodrigues; Nicolau Luís Farinha, de 28 anos, e empregado da casa Singer; Manuel Ribeiro Duarte, de 19 anos, caixeiro e filho do industrial Cristóvão Lázaro Duarte; Maria Gonçalves da Silva, de 29 anos e natural de Pernes; Arnaldo Garcia de Oliveira, de 29 anos, casado, fotógrafo e residente na Ribeira de Santarém; Manuel Abílio da Silva, de 25 anos e empregado no comércio; Zulmira Martinho, de 19 anos, filha de José Martinho; Laurinda Montez, de 18 anos; Manoel Colaço, de 47 anos e industrial de relojoaria; Jesuíno Lopes de Carvalho, de 32 anos; Casimira Augusta Cordeiro, de 22 anos; Maria José Lopes de 14 anos, filha de Joaquim Lopes e Deolinda Ilídia Soares Ferreira Lopes; João da Silva Eugénia Alves da Silva, de 33 anos e doméstica; Júlio Carvalho Malfeito, de 26 anos e Raimundo Vicente, de 32 anos, ambos da Ribeira de Santarém.

A 18 de Outubro de 1918, o músico de 2.ª classe de Infantaria 16, Pereira da Silva, suicidou-se à passagem de um comboio de mercadorias por lhe ter falecido a mulher na véspera, vitimada pela pneumónica.

No final de Outubro, registou-se um maior número de óbitos quer no hospital quer em residências.

O governador civil Santos Moita assegurou as consultas na Ribeira de Santarém, à falta de outro clínico e montou na sua propriedade um hospital com 54 camas. Os dois médicos de Alcanhões encontravam-se doentes. O regedor de Almoster, Augusto Serrão e uma comissão de habitantes da localidade vieram a Santarém, solicitar ao governador civil socorros médicos. Dos quatro clínicos de Almeirim, três encontravam-se doentes, tendo-se instalado um hospital no prédio de Carlos Amândio, para o qual contribuiu o presidente da Câmara, Luís Sobral. No Cartaxo, a maioria dos estabelecimentos encontrava-se encerrada e as ruas desertas. Nos Riachos, encontravam-se acamadas 300 pessoas tendo algumas sucumbido.

Tal como o editorial do Correio da Extremadura, de 26 de Outubro de 1918, declarava “a hora era sombria”, ao juntar os mortos da participação portuguesa na I Guerra Mundial o número elevado de passamentos devido à gripe pneumónica. A epidemia tinha aumentado nas povoações limítrofes de Santarém. Os médicos milicianos Francisco Barbosa Godinho e César Fontes “foram mobilizados para se encarregarem de duas zonas ao norte e a sul do Tejo” (CE, 26/10/1918, p. 1), enquanto o major médico, Pereira da Silva passou a prestar serviço na guarnição de Santarém. A Câmara pediu à secretaria da Guerra a desmobilização dos médicos municipais do concelho, Joaquim Mendes Pedroso da Costa, Alberto Filipe Sequeira e José Pompeu que se encontravam em França, África e Nelas respectivamente.

Perante a especulação de algumas agências funerárias, a Repartição de Saúde estabeleceu uma tabela de preços a fixar em local bem visível nos estabelecimentos: “caixões de chita preta lisa, 8$00; caixões de chita preta lavrada, 12$00; caixões para crianças, cada palmo, $80; urna de chita lavrada, 15$00” (CE,26/10/1918, p. 2). Ainda assim, a maioria dos corpos baixava à terra sem caixão. Em reunião de Câmara de 15 de Outubro foi decidido “ampliar o cemitério dos Capuchos, utilizando a parte da cerca anexa e oficiar o subdelegado de saúde para verificar se o terreno é apto para tal fim, devendo fazer-se com urgência o orçamento da obra a realizar” (CE, 19/10/1918, p. 1). O aumento da procura ao papel de luto para cartas levou que até a camisaria Alves passasse a comercializar o artigo.

Em Novembro, o número de vítimas aumentava: Maria Adelaide Nogueira Costa, de 16 anos e filha do escrivão de direito, Bernardo Cesário da Costa; Maria Pereira Antunes, de 19 anos e moradora em Vale de Figueira; Mariana da Conceição Ferreira, de 29 anos, casada com Gabriel Ferreira; e Hintze Ribeiro, notário público em Santarém e que se ia consorciar.

Em Novembro, Alpiarça era um dos concelhos do distrito mais atingidos pela pneumónica. Em Muge, “a epidemia deixou um rasto assustador, sendo grande a mortandade.

Nas povoações de Marinhais e de Glória do Ribatejo tem havido oito a dez óbitos por dia. Há casas onde faleceram famílias inteiras. Houve ali um velho que tinha quatro filhos casados que todos faleceram ficando-lhe vinte e seis netos! Pois não tem havido ali desinfecções!!

Em Muge tem sido mais benigna a epidemia graças às diligências do clínico local que é um modelo de actividade e zelo, apesar de haver ali grande falta de medicamentos.

A protecção à pobreza tem sido grande, fazendo-se distribuir mel, roupas, açúcar, carne e outros géneros” (CE, 2/11/1918, p. 2).

Entre 31 de Agosto e 31 de Outubro, o hospital de Santarém recebeu 238 doentes de ambos os sexos dos quais 100 vieram a falecer. Entretanto, dizia-se “que os enfermos da gripe em Vale Dourado, Jardim de Cima se curaram todos com chá de sargacinha, não carecendo de assistência médica!” (Idem).

A população refugiou-se no poder divino fazendo procissões de penitência, como sucedeu em Almeirim, a 17 de Outubro, com a saída à rua das imagens do Senhor da Serra e do Mártir S. Sebastião e no Vale de Santarém, onde no mesmo dia, se realizou um sermão e procissão, “com o fim de alcançar da misericórdia divina a cessação do terrível flagelo” (CE, 9/11/1918, p. 1). A procissão de penitência dedicada ao mesmo Santo repetiu-se a 15 de Dezembro, na Póvoa dos Galegos, actual Póvoa de Santarém.

A partir de Dezembro de 1918, a gripe pneumónica começou a apresentar tréguas, deixando em seu redor um rasto de miséria e morte.

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