Os anos da guerra continuavam a assolar a Europa com graves repercussões para o mundo que vivia a década de 40 do século XX. Os primeiros meses de 1941 foram avassaladores para Portugal, especialmente na região do Ribatejo. Aos vestígios de uma cheia que provocou o agigantamento do caudal do Tejo seguiu-se, a 15 de Fevereiro, um ciclone que deixou o país devastado em pleno período carnavalesco, ao causar “mortes e incalculáveis prejuízos na nossa província, onde há dezenas de casa destruídas e avariadas e se contam por muitas centenas de milhar as oliveiras, eucaliptos, pinheiros e outras árvores arrancadas pelo furação” (CE, 22/2/1941, p. 1).

Santarém foi uma “cidade vergastada pelo ciclone, o redemoinhar da ventania brava (…) soprava por essas ruas, empurrado na sua frente os transeuntes, estilhaçando vidros, arrancando telhas, levando pelos ares chapas de zinco, fazendo desabar com medonho fragor empenas e chaminés. Vimos arrancar árvores dos jardins, estoirar os globos da iluminação pública, oscilar os postes telefónicos por essas ruas (…) rebolaram quiosques, caíram rebocos, as estradas e a linha férrea ficaram cortadas por gigantescos eucaliptos, cuja queda sepultou consigo vidas humanas” (Idem). As árvores derrubadas eram visíveis por toda a cidade e arrabaldes: calçada do Monte, Escola Agrícola, na quinta dos Anjos, nas passagens de nível do Vale de Santarém, junto à quinta da Comenda e em Vale de Lobos.

As poluções ficaram isoladas “sem comunicações de espécie alguma, atravancadas as estradas, paralisados os comboios, cortados os fios telegráficos e telefónicos, quebrados os cabos condutores de energia que assim nos fez calar a voz da rádio” (Idem). A escuridão manteve-se até 27 de Fevereiro, deixando a cidade “nas trevas, com o Petromax a flamejar às esquinas, a ouvir deliciosas ilusões, através do receptor de pilhas que o nosso bom amigo Joaquim Matta em boa hora montou no [café] Central” (Idem).

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Os estragos na cidade de Santarém e nos arrabaldes foram avultados como se pode verificar pelo seguinte quadro:

Muitas das famílias de Santarém atingidas pela destruição das suas moradias abrigaram-se no salão dos Bombeiros Voluntários.

Os danos causados pelo ciclone afectaram bastantes localidades ribatejanas com destaque para Alpiarça onde se registaram estragos no arvoredo, casas e instalações industriais. O muro da quinta dos Patudos desabou sobre a estrada enquanto os edifícios da Câmara, do Club “Os Águias”, das escolas e a igreja sofreram danos.

O ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco visitou a região, a 18 de Fevereiro de 1941 e incumbiu o Comissariado do Desemprego de fazer um minucioso relatório sobre os prejuízos causados pelo ciclone. Esse relatório foi elaborado pelo juiz Carlos Fagulha de acordo com as informações recolhidas pelas brigadas de Fiscalização do Trabalho que percorreram o distrito de Santarém. Também o governador civil, Eugénio de Lemos visitou grande parte do distrito, para “se inteirar dos prejuízos sofridos e ordenar as providências necessárias e possíveis em cada caso” (Idem).

No início de Março, “os estragos do ciclone continuam a ser uma quadro de desolação para a vida regional que não se pode resignar com as enormes perdas que sofreu” (CE, 1/3/1941, p. 6). Entretanto, lamentava-se “que muitos senhorios, que se não importavam com a situação dos seus inquilinos senão para lhes cobrar as rendas, não tenham ainda mandado proceder às necessárias reparações (…) [porque] há nesta cidade famílias inteiras dormindo à chuva, pois os seus telhados continuam descobertos, apesar de já terem decorrido tantos dias após o ciclone” (Idem).

O comando da Polícia de Segurança Pública de Santarém publicou na imprensa uma nota oficiosa, de acordo com o Decreto-Lei n.º 29 904, informando os interessados que os materiais de construção não podiam ser vendidos por preços superiores aos exercidos no dia do ciclone. Segundo o “Correio da Extremadura”, “os telhados desfeitos pelo ciclone lutam com a falta de telha para as necessárias reparações. Sempre julgamos que a “telha” não escasseasse, cá pelo burgo…” (CE, 8/3/1941, p. 6).

Por determinação da Comissão Nacional de Socorros às vítimas do ciclone, a Comissão Distrital reuniu pela primeira vez a 10 de Março, sendo constituída pelos governador civil, Eugénio de Lemos, presidente da Câmara Municipal de Santarém, António de Bastos, comandante da polícia de Santarém, tenente Antunes Basílio e funcionário do Governo Civil, João Cabral. Todos os presidentes das Câmaras do distrito deviam constituir comissões concelhias que tinham de angariar donativos para ajudar os mais necessitados e desprotegidos, uma vez que os vinte mil escudos atribuídos pelo governo apenas acudiam às necessidades mais urgentes.

Teresa Lopes Moreira

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