A partir de 1934, Salazar, escudado pela “sua” constituição, iniciou um longo período de afirmação do Estado Novo. A década de 30, registou um número elevado de presos políticos enquanto as estruturas de apoio ao regime surgiram como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa ou se consolidavam como a PVDE, posteriormente PIDE. O Tarrafal passou a receber presos políticos em Outubro de 1936, no mesmo ano em que se iniciava a Guerra Civil de Espanha que tantas repercussões teve em Portugal, especialmente nas populações da raia. Ainda nesse ano, surgiu uma onda de descontentamento entre os elementos da corporação da Polícia de Segurança Pública de Coimbra.

A 4 de Julho de 1937, Salazar saiu ileso de um ataque à bomba. Em Janeiro de 1938, surgiram boatos sobre uma intentona, na sequência da lei da organização do exército (Lei n.º 1960/1937, 1 de Setembro), o que levou a Polícia de Segurança Pública e a Legião Portuguesa a serem colocadas em estado de alerta. Salazar pretendia subordinar as forças armadas ao poder político do Estado Novo. A contestação surgiu ao mais alto nível no seio das forças armadas, quando o governador militar de Lisboa, general Domingos Oliveira tentou convencer Salazar a demitir-se, chegando a envolver o presidente da República, Carmona. Apesar desta manifestação temporária de descontentamento, Salazar convenceu o general a aderir à reforma das forças militares.

A 25 de Janeiro de 1938, o guarda da Polícia de Segurança Pública de Lisboa, Abel Carlos Miguel foi preso para averiguações pela Directoria da PVDE, no âmbito do processo n.º 1563/37. Enquanto aguardou o julgamento, percorreu três prisões: Aljube, de onde saiu a 15 de Março; Caxias onde ficou até 13 de Agosto e Peniche, onde se manteve até 22 de Outubro, data em que foi julgado e absolvido. Abel Carlos Miguel nasceu na travessa da Roda, 7, freguesia de Marvila, Santarém, a 12 de Outubro de 1887, sendo filho do pintor Adão Carlos Miguel, natural de Alpiarça e da doméstica Francisca Baptista, natural da Várzea, que se consorciaram em Alpiarça. Os seus avós paternos eram Francisco Miguel e Antónia Maria enquanto os maternos eram Joaquim Baptista e Angélica da Conceição. Abel Carlos Miguel foi baptizado na igreja de Marvila, a 29 de Janeiro de 1888, sendo apadrinhado pelos tios paternos, o professor José Carlos Miguel e a doméstica Maria dos Anjos, ambos solteiros. A 28 de Setembro de 1913, casou com Amélia de Seixas, na 4.ª Conservatória de Lisboa, fixando residência na calçada do Lavra, Vila Ferreira, 4, 1.º Dto, Lisboa.

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A 27 de Outubro de 1938, foi libertado com a maioria dos guardas da Polícia de Segurança Pública a prestar serviço em Lisboa que tinham sido presos no âmbito do mesmo processo e que fizeram o mesmo périplo pelas prisões do regime até ao julgamento que os absolveu (ver quadro).

As excepções foram os guardas da Polícia de Segurança de Lisboa, Joaquim Zacarias e Manuel Francisco Candeias. Joaquim Zacarias nasceu a 3 de Novembro de 1904, em Alcácer do Sal, filho de António Pedro de Carvalho e Maria Adelaide Augusta Zacarias. Quando foi preso, a 4 de Novembro de 1937, pelo Comando da Polícia de Lisboa, era solteiro e residia na Rua do S. João da Praça, 77, 1.º Dto, Lisboa. A sua prisão para averiguações inseria-se no processo n.º 1570/37 equivalente ao processo de 1563/37.

Até ao julgamento se realizar a 22 de Outubro de 1938, passou pelas seguintes prisões: Aljube (28 de Janeiro a 15 de Março de 1938), Caxias (15 de Março a 13 de Agosto de 1938), Peniche (13 de Agosto a 22 de Outubro). No julgamento foi condenado a três anos de desterro e 3000$00 de multa e perda de direitos políticos por cinco anos. Joaquim Zacarias começou a cumprir a pena em Peniche onde se manteve até 31 de Março de 1939. Acabou por ser enviado para o Tarrafal “por mau comportamento e atitudes ameaçadoras e rebeldes no Depósito de Presos de Peniche”, a 1 de Abril de 1939 onde permaneceu até Julho de 1940, pois foi amnistiado a 16 desse mês.

Manuel Francisco Candeias nasceu a 28 de Abril de 1898, em Elvas, sendo filho de José Pereira Candeias e Francisca do Rosário Candeias. Quando foi preso pelo Comando da Polícia da Segurança Pública de Lisboa para averiguações, a 20 de Novembro de 1937, era casado e residia na travessa da Água da Flor, 29-3.º Dto, Lisboa. Até ser enviado para o Aljube, a 27 de Novembro, permaneceu incomunicável numa esquadra. Entre 15 de Junho e 13 de Agosto de 1938, esteve preso em Caxias, sendo enviado para Peniche até ao julgamento que decorreu em Lisboa, a 22 de Outubro de 1938. No âmbito do processo n.º 1563/37, Manuel Candeias foi condenado a seis anos de desterro, com dois anos de prisão no lugar do desterro ou em local à escolha do governo, 12000$00 de multa e perda de direitos políticos por dez anos. Este começou a cumprir a pena em Peniche, onde permaneceu até 31 de Março de 1939. Entretanto, a 4 de Março de 1939, foi julgado por recurso, sendo confirmada a pena anterior. Tal como Joaquim Zacarias e pelos mesmos motivos, foi enviado para o Tarrafal, a 1 de Abril de 1939. Da sua passagem pela prisão da ilha de Santiago, temos alguns testemunhos de Pedro Soares, publicados no livro “Tarrafal, campo da morte lenta”.

Este considerava-o um “regenerado” e apresentou-o como um denunciante que ajudou o director da colónia penal do Tarrafal, o capitão João da Silva a perseguir Gabriel Pedro que se encontrava detido juntamente com o seu filho Edmundo Pedro: “quando um dia [de 1940] o “regenerado” Manuel Candeias, ex-polícia de segurança pública, se foi queixar também de Gabriel [Pedro], João da Silva que esperava apenas o mais ligeiro motivo para o castigar outra vez, mandou-o durante vinte dias para o segredo (…) Manuel Candeias voltou com a consciência limpa” (p. 61).

Manuel Candeias manteve-se no Tarrafal até 18 de Agosto de 1945 e regressou a Lisboa no paquete “Guiné”, dez dias mais tarde.

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