Maria Elisa Figueiredo Duarte morreu na madrugada de 29 de Junho, aos 94 anos. Funcionária pública durante 36 anos, autora de poesia, voluntária de várias instituições e figura ligada à memória do Correio do Ribatejo, deixa em Santarém uma vida marcada pelo trabalho, pela fé, pela escrita e pelo serviço aos outros.

Nascida a 9 de Fevereiro de 1932, na Quinta da Marquesa, em Vila Franca de Xira, Maria Elisa Conceição Vicente de Figueiredo Duarte chegou a Santarém aos 14 anos. Aos 17, em 1949, entrou nos serviços da Intendência Geral dos Abastecimentos, numa época em que a presença de uma jovem mulher numa repartição pública ainda causava estranheza. Mais tarde recordaria que a mãe, professora, a esperava todos os dias à saída do trabalho, receosa do olhar de uma cidade conservadora sobre uma rapariga que trabalhava fora de casa.

Casou com José Bernardo de Figueiredo Duarte, jornalista e antigo director do Correio do Ribatejo, com quem teve três filhos. A ligação de Maria Elisa ao jornal começou, no entanto, antes de Bernardo assumir a direcção. Em entrevista ao Correio do Ribatejo, recordou que foi Virgílio Arruda, então director do jornal, quem publicou os seus primeiros poemas.

“Um dia, lembrei-me de levar ao Jornal uma poesia minha, que Virgílio Arruda publicou. Assinei apenas com ‘Maria Elisa’, não coloquei apelido. Não queria que se confundissem as coisas”, contou. A partir daí, os seus poemas passaram a ser publicados com regularidade. Esse incentivo foi decisivo para a sua escrita. “Começa aí o estímulo da minha poesia, pelo facto de ele, um grande intelectual, estar a apreciar o que eu escrevia”, recordou.

A relação com o Correio do Ribatejo ficou-lhe gravada na memória afectiva. “O Correio do Ribatejo está gravado no meu coração para sempre”, afirmou, lembrando também que foi através do jornal que o nome de Bernardo de Figueiredo ficou perpetuado numa rua da cidade.

Maria Elisa publicou em 2003, na Casa do Brasil, em Santarém, o livro “Luz do Poente”, prefaciado por Joaquim Veríssimo Serrão. Considerava-se uma escritora tardia, por só ter começado a escrever depois de casada. Para si, a escrita era “ter a capacidade de transpor para o papel, de uma forma concreta, aquilo que o pensamento transmite”.

A vida foi também atravessada pela doença. Aos 44 anos enfrentou um cancro do colo do útero, experiência que reforçou uma ligação ao voluntariado já iniciada anos antes. Foi voluntária da Cruz Vermelha durante cerca de dez anos, integrou durante duas décadas o Grupo Sócio-Caritativo de Marvila, deu catequese e pertenceu desde a fundação ao Grupo de Apoio de Santarém da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Para Maria Elisa, ajudar os outros não era um acto de piedade, mas de respeito. “Sempre gostei de ajudar as pessoas. Mas não numa perspectiva do ‘coitadinho’ ou do desvalido. Estamos a falar de seres humanos em dificuldades, seja em que situação for, que precisam de alguém que lhes estenda a mão”, afirmou. Era uma lição recebida da mãe, que lhe dizia: “Minha filha, naquela situação em que aquela pessoa está, poderíamos estar nós”.

Foi apontada como a voluntária mais antiga da Liga Portuguesa Contra o Cancro em Santarém e fundou o primeiro grupo de dadores de sangue feminino. Nos tempos livres, costurava à mão próteses em algodão para mulheres mastectomizadas, num trabalho silencioso e profundamente humano.

As cerimónias fúnebres realizam-se na quinta-feira, na Igreja da Piedade, em Santarém, a partir das 14h00, estando prevista missa de corpo presente às 14h45. O funeral segue depois para o Crematório de Santarém.

Maria Elisa Figueiredo Duarte pertenceu a uma geração de mulheres que conquistaram espaço pela persistência, sem proclamações. Em Santarém, deixa a memória de uma vida discreta, mas cheia: no trabalho, na família, na escrita, na fé e no cuidado concreto pelos outros.

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