Movimento já libertou uma dezena de cães acorrentados

O ‘Quebr’a Corrente’ é o primeiro movimento cívico do país a libertar cães acorrentados, através da vedação de espaços exteriores por voluntários e sempre em colaboração com os detentores. O acorrentamento de cães é uma realidade comum, visível em muitas zonas do país, sobretudo rurais, justificada pela tradição, costume ou ainda por motivos de carência económica dos detentores. Para além de presos a correntes, são muitos os cães que vivem sem um abrigo para descansar ou abrigar-se das intempéries. Em Santarém, existe um movimento pioneiro, criado em Dezembro de 2017, que conta com 63 activistas e voluntários e já desacorrentou uma dezena de cães, sendo acompanhado nas redes sociais por centenas de pessoas. O Correio do Ribatejo falou com Tânia Mesquita, que trabalha na área da psicologia comunitária e fundou este movimento cujo objectivo principal é “quebrar as correntes de cães em Portugal”

Como surgiu o movimento Quebr’a Corrente? 

Surgiu numa aldeia do concelho de Santarém, a Póvoa da Isenta, local onde existem dezenas de cães presos a correntes e onde duas cadelas vizinhas viviam permanentemente acorrentadas e em situação precária de alojamento. Abordei o detentor, envolvi voluntários e, juntos, criámos uma área vedada na qual as libertámos. Resultou e foi o arranque do Movimento.

Muitos de nós, direta ou indiretamente, temos ou tivemos contacto com cães acorrentados, seja através de familiares, vizinhos ou até alguém que presta serviços à comunidade. Por exemplo, nesta atura do ano em que há maior mobilidade de pessoas, temos recebido pedidos de ajuda para cães acorrentados no alojamento de férias, sobretudo em turismo rural. E também eu cresci acompanhada de cães acorrentados na minha comunidade próxima e alargada tendo, só mais tarde, vindo a considerar uma prática cruel. Acredito ser possível todos reconhecerem o acorrentamento um ato injusto e perigoso, com efeitos nefastos para os animais que, em restrição de movimentos, se tornam ansiosos e agressivos, para além do risco que correm de asfixia e de enforcamento.

O que é que o movimento defende? 

O Quebr’ a Corrente é um Movimento que atua junto de animais, pessoas e comunidades, e defende os valores da liberdade e da dignidade animal, através do fim do acorrentamento. Ao libertarmos um cão das correntes estamos também a libertar os detentores de uma tradição do passado, incoerente com os valores de uma sociedade evoluída e desenvolvida. O simbolismo histórico das correntes associado à punição, à escravatura, à violência, ao abuso e à submissão permanece viva em cada corrente que se prende a um animal.

Uma comunidade atenta às diferentes formas de abuso, contra pessoas e contra animais, é um local mais saudável, mais desenvolvido e mais agradável para se viver. Se todos assumirmos uma responsabilidade partilhada pelos desafios da nossa comunidade, e interviermos nas situações mesmo ao lado da nossa porta, construímos um melhor lugar para vivermos e sermos felizes. Este é o nosso manifesto.

Quantas ‘correntes’ já foram quebradas? 

Chegam-nos dezenas de e-mails e mensagens diariamente com pedidos de ajuda, tanto de pessoas que conhecem situações de cães acorrentados como dos próprios detentores. Das 70 situações identificadas já foram libertados 10 cães, e temos conhecimento de outros a quem os detentores quebraram as correntes, por influência do Movimento ou através do apoio de ativistas e voluntários ligados a nós.

Através de uma visita ao local, preferencialmente em conjunto com quem nos apresentou a situação e devidamente identificados com a t-shirt do Movimento, um folheto de sensibilização e um biscoito para “quebrar o gelo”, abordamos os detentores cordial e construtivamente, e criamos um diálogo livre de julgamentos. Aceite o nosso apoio, iniciamos o planeamento da vedação e a angariação de fundos com base no orçamento feito.

Nas dezenas de visitas já realizadas, encontramos cães acorrentados a casotas, paredes, rochas, troncos de árvore, carros avariados, alguns dos quais fechados em gaiolas, com a missão de “proteger” bens ou lugares. Os animais são colocados estrategicamente à porta de casa, da garagem, da oficina, do galinheiro ou da horta, para servirem de “guarda”. Acompanhamos uma situação em Aveiro de 5 cães acorrentados em círculo, ao redor daquele que será o alimento da família para os próximos meses, um porco. No entanto, presos, os cães pouco ou nada poderão fazer para guardar o que quer que seja.

Como é que se pode ajudar o Quebr’ a Corrente? 

A solução para quebrar as correntes é simples: içar vedações. Para o efeito, é necessário material como rede; painéis; postes metálicos; portões; ferramentas e muitos voluntários/as e activistas para a montagem das estruturas. Para além disso, há frequentemente despesas veterinárias inerentes à intervenção pois é comum encontrarmos animais doentes, sem vacinação e desparasitação, pelo que são também aceites contribuições financeiras para apoiar nestes gastos. Através da nossa plataforma de crowdfunding é possível ver exemplos do nosso trabalho e contribuir.

Temos desenvolvido parcerias com empresas de vedações e construção que, no âmbito da sua política de responsabilidade social empresarial, se mostram disponíveis e interessadas em colaborar, e é uma forma criamos valor partilhado que beneficia tanto o negócio como a causa em si.

Para quando a constituição da associação? 

O Quebr’ a Corrente nasceu enquanto movimento cívico e assim gostaríamos que se mantivesse. O nosso objetivo não é criar mais uma Associação de defesa animal que assuma a responsabilidade/exclusividade por este tema, mas envolver a sociedade civil numa causa que é de todos/as, evitando desvirtuar a ideia de ativismo local. Os movimentos cívicos da História alcançaram conquistas e ganhos sociais, culturais e políticos determinantes e irreversíveis, pelo que é pela defesa cívica de uma causa que queremos sustentar a nossa ação. Sabemos, no entanto, que do ponto de vista prático, uma Associação tem facilitado o acesso, por exemplo, a financiamentos, pelo que ainda é um assunto em análise.

Considera que as pessoas hoje estão mais sensibilizadas para as questões dos direitos dos animais? 

Indubitavelmente. Os avanços na legislação de proteção animal, sobretudo a mais recente Lei 8/2017 de 3 de Março que estabelece um estatuto jurídico dos animais reconhecendo-os como seres vivos dotados de sensibilidade e os autonomiza face a pessoas e coisas; a representação na Assembleia da República Portuguesa de um partido político que, pela primeira vez na História do nosso país integra exaustivamente na sua agenda, e leva a debate, os direitos dos animais, e a própria evolução natural da sociedade e dos cidadãos, tem contribuído para conferir seriedade ao tema, e reconhecer os animais como sujeitos de justiça e não apenas de objetos de compaixão.


 

Pergunta&Resposta a Tânia Mesquita

Um título para o livro da sua vida?

Atribuir-lhe-ia a citação de Margaret Mead, antropóloga americana: “Nunca duvide que um pequeno grupo de pessoas conscientes e empenhadas pode mudar o mundo. Aliás, foi sempre o que aconteceu”.

Viagem? 

Tibete, terra de espiritualidade.

Música imprescindível? 

Eleanor Rigby, dos Beatles.

Quais os seus hobbies preferidos? 

Cinema; os bons filmes são o meu barómetro e a minha inspiração.

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