Seis meses após a tempestade Kristin, a associação Nersant considera que a recuperação das empresas do Médio Tejo continua incompleta, alertando para apoios ainda por desbloquear e defendendo subsídios a fundo perdido para os casos mais graves.
Em declarações à Lusa, o presidente da Nersant – Associação Empresarial da Região de Santarém, Rui Serrano, disse que o impacto da tempestade Kristin continua a fazer-se sentir no tecido empresarial do Médio Tejo, sobretudo nas micro, pequenas e médias empresas, defendendo que a recuperação “não pode ficar limitada a linhas de crédito de baixa intensidade”.
“A depressão Kristin provocou danos significativos nas empresas do Médio Tejo, afectando instalações, equipamentos, ‘stocks’ e capacidade produtiva. Como cerca de 85% da nossa base associativa é constituída por micro, pequenas e médias empresas, os efeitos colocaram desafios acrescidos à continuidade da actividade, ao emprego e à recuperação financeira”, afirmou.
A tempestade Kristin provocou, no final de Janeiro, danos generalizados, cortes de energia e falhas nas comunicações, coincidindo com um período de precipitação intensa e cheias no Tejo que agravaram os prejuízos em vários concelhos do Médio Tejo.
Segundo Rui Serrano, a agro-indústria e a construção foram os sectores mais atingidos, seguindo-se o turismo e o comércio, sendo que a falta de energia eléctrica e de comunicações esteve na origem de “70% a 80%” das paragens verificadas nos primeiros dias, deixando muitas pequenas empresas totalmente inoperacionais.
Seis meses depois, a principal preocupação da associação centra-se na execução dos apoios anunciados.
“As medidas aprovadas pelo Governo responderam às necessidades mais imediatas, mas continuamos preocupados com a rapidez da sua disponibilização e com a adequação dos incentivos”, afirmou.
Pois, alertou, muitas empresas continuam a necessitar de apoios não reembolsáveis para recuperar a capacidade produtiva.
“Muitas empresas com prejuízos profundos precisam de subsídios a fundo perdido, porque só assim as taxas de retorno se tornam viáveis para negócios que, muitas vezes, não têm capacidade financeira para suportar reparações caras, nem dispõem de seguros adequados”, sustentou.
O responsável revelou ainda que a Nersant acompanha empresas cujas candidaturas ao aviso Inovação Produtiva – Reindustrializar, do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), continuam sem financiamento por insuficiência da dotação disponível.
De acordo com Rui Serrano, a Nersant reuniu recentemente com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) e prepara um encontro com a Estrutura de Missão Recuperar Portugal para procurar soluções que permitam desbloquear estas candidaturas.
A medida, defendeu, deveria ter previsto uma discriminação positiva para empresas com prejuízos provocados pela tempestade, pois é injusto que o critério territorial permita apoiar empresas não afectadas, enquanto outras continuam sem resposta.
Segundo informação divulgada pela Estrutura de Missão Recuperar Portugal após o encerramento do aviso, a linha “Reindustrializar” recebeu 628 candidaturas, correspondentes a 1.350 milhões de euros de investimento proposto, para uma dotação pública de 150 milhões de euros.
Rui Serrano recordou que a Nersant criou, logo após a tempestade, um inquérito para apurar prejuízos e uma linha de apoio técnico às empresas, contribuindo, através do “Livro Negro da Calamidade Empresarial”, para o relatório coordenado pela AIP – Associação Industrial Portuguesa, que serviu de base às propostas apresentadas ao Governo.
Para o presidente da associação, a principal lição deixada pela tempestade Kristin é que “o interior de Portugal precisa de ser visto e ouvido com a mesma atenção” que outras regiões do país.
“Uma crise desta dimensão testou, e continua a testar, a resiliência de todo o território nacional”, salientou.
Vários temporais, com destaque para as depressões Kristin, Leonardo e Marta, atingiram o território continental em três semanas a partir do final de Janeiro, causando pelo menos 19 mortos, mais de metades deles durante trabalhos de recuperação, várias centenas de feridos, desalojados e deslocados, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
Mais de 35 mil habitações foram afectadas no todo do país, um número superior a um milhão de pessoas ficaram sem electricidade, meio milhão de clientes sem telecomunicações, mais de 18 mil sinistros ou ocorrências de emergência foram registadas até ao fim da primeira quinzena de Fevereiro e foram apresentadas mais de 200 mil participações de sinistros.
Os prejuízos estimados são superiores a 5,3 mil milhões de euros.
O Governo decretou que 90 municípios nas zonas afectadas pela depressão Kristin estavam em situação de calamidade, uma declaração que implica uma série de apoios e de medidas de excepção, estendendo posteriormente a situação a todo o território desde que os danos se devam às tempestades.
Na sequência das tempestades foi anunciado, no final de Abril, o programa PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, com um envelope financeiro global de 22,6 mil milhões de euros para executar 96 medidas, até 2035, para recuperação económica do país depois das consequências do mau tempo.
