Quando Donald Trump lançou o slogan “Drill, baby, Drill”, no discurso de tomada de posse em 20 de Janeiro do ano passado, estava a retomar um lema já lançado em 2008 na Convenção Nacional Republicana. “Perfurar, baby, perfurar” era o retomar de uma estratégia de exploração de petróleo e gás natural contrária a todas as orientações mundiais de redução do consumo de combustíveis fósseis. Não se trata, apenas, do problema das “alterações climáticas”, mas de uma questão de geopolítica da energia, ou seja, da gestão das energias a nível mundial. A crescente necessidade de energia, a nível global, para satisfazer o desenvolvimento, por exemplo, da inteligência artificial, das centrais de dados e de novas tecnologias associadas à exploração de minérios críticos e terras raras tem justificado uma procura, cada vez mais elevada, das fontes energéticas e progressivamente das fontes de menores custos.
As várias fases de transição energética têm sido lentas desde a passagem do uso de biomassa para o carvão fóssil; do carvão fóssil para o petróleo e para o gás natural. Actualmente esta mudança tem sido mais rápida para formas de produção de energias chamadas renováveis. É de referir que o país que desenvolveu, num primeiro momento, as diferentes tecnologias para a produção de energia solar e eólica, está a perder a supremacia na sua utilização, produção de materiais e manutenção. É evidente, que a opção pelos combustíveis fósseis, petróleo e gás natural e também carvão, é clara e economicamente justificada, mas não tem uma visão de futuro.
A China, embora ainda utilize o carvão e o petróleo como fontes de energéticas principais, já optou por se tornar o maior país produtor de painéis solares e turbinas eólicas (mais de 80%na área solar e de 60% na eólica da produção mundial), aproveitando, assim, uma espécie de oferta americana. Os Estados Unidos recentemente retiraram 321 subvenções para os 223 projetos para o desenvolvimento de produção de energia limpa que segundo o Departamento de Estado: “não contribuíam de maneira significativa para satisfazer as necessidades energéticas do país, não eram economicamente viáveis e não gerariam um retorno positivo do investimento do dinheiro público” (Observador, 3 de Outubro de 2025).
A China viu aqui uma oportunidade de se tornar o primeiro país do ranking e entrar nos mercados dos países emergentes disponibilizando equipamentos de energia solar, eólica e baterias a preços acessíveis. O presidente chinês Xi Jinping declarou à Assembleia das Nações Unidas que “intensificaria o apoio a outros países em desenvolvimento no desenvolvimento de energia verde e de baixo carbono” (https://www.project-syndicate.org/ 4 Junho 2025).
Não estamos a falar de preocupações ambientais… estamos a tratar de geopolítica!
A nível interno, a China necessita de grande produção de electricidade com origem em fontes renováveis, mesmo em situações curiosas. O jornal Xinhua (jornal oficial chinês) no final do ano noticia “o campo petrolífero de Tarim concluiu cinco projetos centralizados de energia solar com uma capacidade instalada total de 2,6 milhões de quilowatts, juntamente com 239 projetos fotovoltaicos distribuídos em estações de produção e poços individuais de petróleo e gás, totalizando 63 mil quilowatts”. A notícia é interessante porque mostra a necessidade do governo chinês em mostrar a sua preocupação em desenvolver, internamente, a utilização de equipamentos solares numa região afastada dos grandes centros populacionais, o Xinjiang (ocidente da China). Segundo o mesmo jornal Xinhua: “Xinjiang, uma região rica em recursos de energia solar e eólica, desenvolveu vigorosamente a indústria de nova energia nos últimos anos”.
Segundo dados não oficiais, a China deve ter investido no sector mais de 220 mil milhões de dólares. Diminuindo, ao longo dos últimos 15 anos, a sua dependência em recursos de combustíveis fósseis que ainda é elevada.
O investimento chinês aplicado, em larga escala, no desenvolvimento das diferentes fases de produção eléctrica limpa, dos equipamentos, às baterias e à manutenção, ou à reciclagem de resíduos, permitiu expandir-se para outros países, dominando, assim, a sua posição de líder global.
Entretanto, o presidente americano aposta na exploração e produção de petróleo e gás. Em Junho passado o Congresso dos EUA aprovou o documento apresentado pelo Partido Republicano, “Big Beautiful Bill” (Grande e Belo Projeto de Lei” que, entre os outros aspectos, criou as condições para a redução dos incentivos fiscais para as energias renováveis de modo a responder à redução da inflação. Os Estados Unidos perdem posições no sector das energias renováveis, nos automóveis eléctricos e nas redes de recarga.
Os elevados investimentos em desenvolvimento, formação e inovação no sector das energias limpas na China têm originado um grande impulso nas novas tecnologias, consequentemente nas outras áreas tecnológicas, criando condições para um novo crescimento económico a nível global. E quem dirige esse desenvolvimento? Claro, a China…
Como foi referido anteriormente, as grandes potências globais necessitam de grandes quantidades de energia para cimentarem o seu domínio. Produzir energia está no centro das disputas geopolíticas e cada dia que passa menos preocupações ambientais estão na discussão.
Todas as fontes energéticas são possíveis desde que se possa ter acesso em grandes quantidades e de baixo preço. Assim, novamente. surge o debate sobre a energia nuclear, quer nos estados Unidos quer na China. A energia nuclear é uma fonte energética sem carbono, embora não se possa afirmar que seja uma energia verde.
Em Maio de 2025, Donald Trump afirma “O tempo para a energia nuclear é agora“ e assina um conjunto de ordens executivas para o “renascimento” da energia nuclear civil. Diga-se que os Estados Unidos continuam a ser a maior potência nuclear civil do mundo, com 94 reatores operacionais A ambição é quadruplicar a produção de energia nuclear até ao ano de 2050. Qual é o argumento? O secretário do Interior justifica: “produzir eletricidade suficiente para ganhar o duelo da Inteligência Artificial com a China”. Não está a conseguir…
É importante dizer que tanto republicanos como democratas apoiaram grandes investimentos para manter reatores nucleares que já estavam a operar e reactivar os que estavam encerrados e lançar novos. Uma opção…
Entretanto, a China tem em operação 57 reatores (situação idêntica à de França) e 27 em construção. Neste sector também não estão atrasados!
Em 2026 vamos assistir a uma corrida às diferentes fontes de energia porque os Estados serão “pressionados” para garantir electricidade acessível, abundante e cada vez mais barata. Esta pressão vai, provavelmente, impulsionar o sector da energia limpa. Diferentes especialistas esperam que a energia solar, em particular, e o armazenamento em baterias continuem a crescer.
Quem está à frente deste processo!? Os EUA que preferem “Drill, Baby, Drill” ou a China que está a apostar no domínio global da produção de energia renovável, dos equipamentos…?
A supremacia da China é muito clara!
