Acácio Santos é treinador da União Desportiva de Santarém desde 19 de Outubro de 2020. Contratado numa altura em que a equipa lutava pela manutenção na Série F, conseguiu concretizar um objectivo que ninguém pensaria ser alcançado, atingir a fase de acesso à Liga 3. Agora chegado a este fase decisiva, o técnico assume a ambição de subir de divisão, nunca esquecendo o passado e aquilo que foi feito para atingir este patamar. Acácio tem contrato com o clube até ao final desta temporada desportiva mas não adianta se vai continuar a comandar os destinos da equipa no futuro.

Que balanço faz o seu trabalho até agora?
Cheguei a 19 de Outubro. Normalmente não ligo muito essas datas, apesar de gostar de festejar esses marcos. Quando surgiu esta oportunidade, e quando cá cheguei, percebi que era necessário fazer aqui um trabalho forte, exigente, com rigor, com muita expectativa e ilusão que é possível chegar a algum lado com trabalho e rigor. Cá estamos desde essa data, o balanço é positivo porque, primeiro, temos que ser realistas, conseguimos que o clube esteja agora nesta fase final de apuramento para a terceira liga, por ter ficado em terceiro lugar na competição. Esse terceiro lugar já estava praticamente garantido há um mês. Com a série de 11 jogos sem perder, com 5 ou 6 vitórias consecutivas, estando mesmo a dada altura, em primeiro lugar à frente dos poderosos Alverca e Torreense. O balanço é claramente positivo e tem que ser destacado, não só da minha parte, mas da estrutura, de quem manda, e depois de quem consegue pôr em prática, que são os jogadores.
Quando estava a avaliar a possibilidade de vir para cá, porque não passava pela minha ideia pegar nesta equipa mas sim num nível competitivo mais alto, diziam-me que a União Desportiva de Santarém (UDS) não tinha expressão, que estava há vários anos afastada destas lide. Que aquilo que era a expectativa baseada nesse pouco conhecimento, uma vez que a época passada terminou a meio, era que a equipa ia lutar para não descer, que iria ser um campeonato extremamente difícil. E quando me dizem isso, ainda fico mais motivado… Aí é para não descer? Eu já vos mostro! E o que é certo é que estamos com a possibilidade de acesso à terceira liga, ficando em terceiro lugar.

Quais os objectivos que traçou para a equipa, a nível de competição e objectivos pessoais?
Quando cheguei, e dei uma entrevista ao Correio do Ribatejo, sempre disse que os objectivos são de acordo com ambição dos jogadores. Agora claro que é necessário trabalhar essa ambição. Essa foi uma das nossas armas, um dos segredos para termos conseguido, desta forma, atingir o terceiro lugar. Foi-nos indicado que havia o sonho de chegar à fase de subida, ou até à terceira liga, e aos poucos os jogadores foram percebendo que se calhar temos potencial, se calhar temos qualidade, se calhar é possível. Se formos mais rigorosos, mais focados e começarmos a perceber que se calhar estamos demasiado ligados ao ruído, em vez de ligarmos aquilo que é essencial, somos capazes de lá chegar. O trabalho foi desenvolvido nestas premissas e a equipa foi crescendo. E eu fui percebendo que nós somos capazes de atingir a fase de subida.

Os reforços da equipa foram importantes para atingir os resultados?
Foram importantes os dispensados, que permitiram abrir espaço para reforços, os dispensados espero que tenham aprendido porque o foram. Quem veio foi para dar competitividade ao grupo. Tanto o Adélcio Varela, como o Cláudio, são jogadores já com outro tipo de formação, muito perto de entrarem na primeira liga, jovem jogadores, com algumas dúvidas em relação aquilo que iria ser o seu percurso. Tivemos também a capacidade de os contratar e a felicidade de eles aceitarem. Uma das coisas que sempre tentamos fazer foi contratar jogadores com ambição. Quem já lá tocou consegue estar mais próximo de concretizar essa ambição porque já soube e sabe o que é estar numa liga superior. E eu quis jogadores desses, mesmo o Kalika ou o João Fernandes que já treinaram na segunda liga. Também vieram o Gilson e o Jaime jogadores já com outra experiência.

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Como é que o clube tem gerido a situação que vivemos?
Quando peguei na equipa, ela vinha com 6 jogos de atraso em relação aos restantes. Estamos a falar de muito tempo de paragem. Jogadores com proibição de prática desportiva, alguns com Covid-19. Quando cheguei, notei que havia um índice baixo de competitividade fruto dessa paragem. As coisas não estavam ao nível que queria, ainda hoje não estão, sou muito rigoroso e quero sempre mais. Temos que fazer um trabalho forte de início para elevar a capacidade dos jogadores, para poderem ter o rendimento que tiveram. Começámos com o empate contra o Almeirim, depois vitória, depois empate, depois a série de vitórias e jogos sem perder. Ainda tivemos outro momento de paragem, nós queríamos muito jogar esse jogo, estávamos num grande momento, mas não foi possível. Acabou por mexer no calendário, acabamos a jogar três jogos na mesma semana, em que o terceiro foi contra o Torreense, ganhamos dois jogos, perdemos o terceiro…

A UDS vai tentar o acesso na serie 6, com o Alverca, Condeixa e Marinhense. A UDS tem capacidade para ficar num dos dois primeiros lugares?
Sim, tem. Tem qualidade de trabalho, as coisas estão pensadas, estruturadas e o objectivo é claramente subir de divisão. O futuro é incerto. Eu gosto de sentir que estou lá e quero que as pessoas sintam isso. Mas eu digo que vamos estar na terceira divisão.

Foi esta mudança de mentalidade que quis trazer para o clube?
Não posso comparar porque não conhecia a outra mentalidade. Mas esta é a minha. Pragmatismo, realismo, assertividade e não sermos vítimas de nada. Gosto de ser realista e apontar necessidades, e as necessidades surgem de acordo com os problemas, de acordo com aquilo que são as limitações. Nós temos esta necessidade para podermos ter isto, para ser melhor. Agora não permito aos jogadores que fiquem no campo da vitimização, isso não leva a lado nenhum. Isso é só ruído, tem que haver pragmatismo, assertividade e trabalho.

Já pensou no seu futuro? Poderá vir a renovar para a nova época?
Não faz sentido falar nisso nesta altura. Os três objectivos foram cumpridos, a manutenção, ficar nos cinco primeiros, e depois, “um rebuçado” para a direcção, que foi ficar no terceiro lugar. Não havia essa exigência. E agora é subir.

Qual a sua opinião relativamente as condições de treino de que dispõe?
Já estive em patamares profissionais. Mas vamos ser assertivos e não andar com rodeios. Para outros patamares não seria suficiente, como é lógico. Andamos a gerir com pinças um campo relvado. Se faço um treino de relva, e depois como faço? O outro campo é sintético, não é igual. Chove em alguns locais, o ginásio é extremamente pequeno, quando cá chegamos não havia sala de equipa técnica. São condições precárias. E foi um desafio giro. Saltar de uma primeira liga e vir para a UDS.
Estou grato pela oportunidade, vamos ser assertivos e vamos ser claros a identificar o que temos para que tenhamos um futuro possível. Mas não são condições para o clube estar noutro patamar com uma exigência superior. A relva é boa, o trabalho que se faz aqui é bom, nada a dizer. Mas o campo sintético não tem as medidas regulamentares.

Na sua opinião qual seria a obra fundamental nesta estrutura?
Há duas obras fundamentais, o segundo relvado para a prática, de forma a podermos preservar este, e melhorias. Tem que haver gabinete técnico, tem que haver dois gabinetes para treinador e equipa técnica, o ginásio tem que ser maior, balneários com mais qualidade e o departamento médico tem que ser maior.
Vamos por as coisas neste sentido. O futebol é mediático e é importante para a expressão da cidade, que a nível desportivo está um pouco alheada daquilo que são outras cidades. E é preciso aproveitar estas circunstâncias e com isso também aumenta a vontade da prática desportiva.
Há o posicionamento da cidade e daí podem vir várias condições socio-económicas, naquilo que é o desenvolvimento da sociedade e está baseado nas nossas crianças e jovens. Quanto melhores condições eles tiverem também irão ser fomentados para a prática desportiva. O que é fundamental.

Na sua opinião de quem vem de fora, considera que a insígnia histórica da UDS tenha de ser desenvolvida e ainda mais aproveitada nos dias de hoje?
Se houver essa vontade…. Quer no posicionamento da UDS, da cidade de Santarém e das pessoas, sem rivalidades, são circunstâncias momentâneas, são óptimas e tem que ser aproveitadas. É um momento muito bom para que isto seja catalisador desse desenvolvimento, para mim seria uma conquista enorme se estes resultados, se este posicionamento e este acreditar se transformasse em melhorias. Que as pessoas da cidade olhassem e começassem a olhar com mais paz e respeito. Olhar para o que está a ser feito, perceber que é feito na nossa cidade e ter orgulho nisso. Ninguém dizia que a UDS poderia ir à fase final, mas foi. Perante as adversidades eu também posso crescer, posso aprender, e essa é uma das máximas que perseguimos e é um exemplo que podemos partilhar. Do nada conseguimos fazer muito. Perante o trabalho, assertividade, o realismo e muita gratidão conseguimos fazer algo inédito. Ninguém colocava a UDS no patamar em que está neste momento.

Gostava de ver os escalões de formação mais desenvolvidos?
Fruto das questões da Covid-19 o entendimento que tenho é curto. Sei que há uma vontade, há um coordenador técnico, o Gonçalo, que tem experiência e competência, o Rogério é treinador de guarda-redes e há o Mário Amoroso que faz essa gestão. Há uma vontade, porque até recentemente nos pediram formação, com a nossa equipa técnica, sobre várias questões, para estarem disponíveis e serem melhores treinadores para a formação, mas acredito que naquele campo lá em baixo, tão pequeno não seja fácil fazer milagres.

Como avalia a competitividade do Campeonato de Portugal, e onde precisa de crescer?
A competitividade é media. Há um desnível nesta série entre o Alverca e o Torreense, mas é possível fazer bom trabalho. É preciso ser ambicioso. Tenho 10 anos de futebol profissional, tudo o que eu comparar com o nível competitivo estou a ser injusto porque nunca tinha trabalhado neste nível. Comecei no distrital em 2005, no Vasco da Gama da Vidigueira, daí dei o salto para o futebol profissional e nunca mais deixei. Mas acho que é possível tornar os jogadores melhores, mais competentes, as equipas mais objectivas e haver resultados mais difíceis. Não oferecer estes dois lugares cimeiros digamos assim. É um campeonato competitivo com uma margem de crescimento muito grande.

Portugal é campeão europeu de futebol, mas o nosso campeonato está longe das melhores ligas, o que falta para atingir um patamar mais competitivo?
O paradigma das transferências. Gasta-se muito dinheiro a contratar jogadores no estrangeiro. O Benfica se tem gasto os 20 milhões que gastou num jogador, digo o Benfica ou outro clube, se fossem pagar esse mesmo valor aos clubes de segunda liga ou clubes em patamares mais baixos, isso iria criar uma dimensão competitiva superior. O futebol profissional está associado ao fenómeno financeiro. Que é uma coisa que o futebol alemão faz muito, tenta potenciar e aumentar o nível socio-económico dentro das suas estruturas, das suas ligas. Aos poucos ir melhorando a qualidade das infra-estruturas. Alguns cubes ainda tem infra-estruturas muito aquém daquilo que é exigido.

Acha que no nosso campeonato há um excesso de ruído em torno do futebol, um excesso de comentadores que todos os dias comentam a actualidade? Acha que afasta adeptos ou que é útil?
Eu tanto posso ser influenciado pelos meios de comunicação ou não ser. Filtro o que quero filtrar. A questão é que ninguém lança um programa sem analisar se teve impacto e depois do tal impacto se há continuidade ou não. Se as pessoas continuam a ver o programa é porque gostam e é a sociedade que temos. Se não gostam da sociedade que temos então temos que parar para reflectir. Se ninguém vir os programas eles deixam de existir, mas o português gosta disto.
Eu trabalhei na Grécia e é pior que isto, nas rádios, na tv, uma quantidade de jornais, jornais afectos aos clubes, de manhã à noite, comentários e discussões, mas é uma opção.
Se afecta o rendimento? a mim não. Quando entrei para o papel de comentador, que já o fiz, foi com um discurso imparcial, pró-activo, fomentador de educação do jogo. Vamos ser imparciais, mais tranquilos, viver num clima de paz, foi essa a minha mensagem enquanto comentador. Se queremos uma sociedade em que haja essa liberdade toda de comentadores, programas, etc., temos que avaliar se isso tem impacto positivo ou não. E eu enquanto cidadão escolho aquilo que quero ver. Se não gostamos de determinados programas então basta não ver esses e ver outros.

Qual a sua opinião relativamente à arbitragem e da sua qualidade?
Sinceramente, sempre admirei os árbitros. São uma figura ingrata no futebol, são eles os gestores de emoção, mais do que o controlo das regras, são gestores de emoção. É um papel extremamente importante, senão isto seria tudo uma guerra campal. Quem vai para a arbitragem tem que perceber que vai para ser um gestor emocional, mas para o ser tem que ser muito forte emocionalmente. E tive que perceber que neste contexto apanho muitos árbitros em crescimento. E se estão em crescimento vão naturalmente cometer erros. Há qualidade honestamente, vi árbitros com competência. Às vezes também não são bem acompanhados, apanhei um pouco de tudo.

O VAR devia ser estendido aos campeonatos não profissionais?
Neste momento não faz sentido, por necessidade de outras coisas mais urgentes. O dinheiro que envolve ter o VAR é elevado, mesmo por essa razão ainda não é usado na segunda liga. A este nível iria roubar uma parcela muito significativa na construção de infra-estruturas, de apoio jurídico e tornar os clubes mais profissionais. Mas isto é uma falácia. O futebol é muito interessante a partir da segunda liga, então nas primeiras ligas é muito interessante, eu já vivi esse contexto. Mas tenho que respeitar e admirar a quantidade de jogadores e colegas que por meia dúzia de ‘tostões’, praticam futebol e têm esta regularidade, é incrível.

Que mensagem gostaria de deixar à massa associativa?
Uma mensagem de acreditar que mesmo nestas circunstâncias é possível fazer algo pelo aquilo que acreditamos e queremos. Quer seja adepto ou não da UDS, que tenha ficado descrente destas circunstâncias que estamos a passar, que acredite que é possível ter uma vida boa e concretizar objectivos. Se não estou feliz no meu trabalho, tenho de mudar. Se não estou feliz como meu comportamento, tenho de mudar o meu comportamento.
Demonstramos isso com o trabalho feito. Quero também dizer que tenho muita pena de não ter os adeptos no estádio, agradecer aos que se manifestam, ainda assim, e dizer que podem contar com o UDS sempre numa perspectiva de aproveitar o dia, aproveitar as circunstâncias e a oportunidade que a UDS nos dá de poder exercer aquilo que mais gostamos. Eu enquanto treinador, a equipa técnica como treinadores também, e jogadores por poderem ser jogadores.

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