“O surto irá mudar para sempre a nossa forma de interagir e viver em Sociedade”

João Ferreira é médico de família, desde Julho de 2019, na USF Côrtes de Almeirim mas fez a formação em Santarém na USF São Domingos. Para além de médico é também Chefe do Agrupamento 52 – Santarém do Corpo Nacional de Escutas, que segundo o próprio o ajuda a lidar e a gerir toda a situação actual.

Como médico, como é que olha para este surto de Covid-19?

Enquanto médico olho para este Surto de COVID-19 com respeito, pela consciência plena de que esta é uma situação séria e potencialmente muito grave para o nosso país. Uma vez que não irá afectar apenas directamente pelo número de infectados com o COVID-19, mas porque terá implicações importantes na nossa Economia, e na restante Saúde de toda a população de forma indirecta. Por outro lado, acho que devemos olhar para esta situação excepcional como uma forma de aprendizagem, uma vez que irá mudar para sempre a nossa visão dos Cuidados de Saúde e da forma de interagir e viver em Sociedade Global – Internacional.

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O que vai mudar na resposta aos doentes nos próximos dias?

Nos próximos dias a nossa principal preocupação estará focada na individualização dos Cuidados de Saúde. Ou seja, se por um lado estamos preocupados em garantir um correto diagnóstico e vigilância de todos os casos prováveis ou confirmados de infecção por COVID-19, o que poderá significar uma resposta mais descentralizada e adequada ao contexto de cada Concelho, Agrupamento de Centros de Saúde e Unidade de Saúde, tendo por base a situação Epidemiológica Nacional e Local. Por outro lado, dou destaque à nossa preocupação de darmos uma resposta adequada nas restantes situações de doença aguda, uma vez que continuam a existir outros motivos de doença, no acompanhamento adequados dos grupos vulneráveis, com destaque para as crianças, grávidas e idosos, e no acompanhamento das doenças crónicas. A necessidade de uma resposta diferente pelo concreto desta situação, com o favorecer claro das formas não presenciais de acompanhamento, levanta um desafio constante, mas que temos sentido bem acolhidos pela população e pelos profissionais de saúde. Alerto de forma particular para a importância de apesar da situação que vivemos, cada um de nós ser responsável pelo cuidar da saúde individual e dos mais próximos, não apenas pelo reforço das medidas de protecção individual e de grupo, mas também por não ignorar os cuidados gerais, medicação crónica e a gestão das suas doenças crónicas. A visão enquanto médico de família faz-me pensar que devemos antecipar o após desta situação, evitando a todo o custo que este esforço adicional que as Instituições e profissionais estão a sofrer leve a consequências, algumas inevitáveis, na saúde global dos utentes e da população. Acredito que o esforço, nomeadamente com as novas tecnologias e formas de comunicação, com o entusiasmo de todos os profissionais, tem sido a grande arma para combater os diversos riscos directa ou indirectamente associados ao surto de COVID-19.

Na sua opinião, os números reflectem a dimensão da epidemia em Portugal neste momento?

Esta é uma questão que muitos fazem, mas que a resposta apenas poderá ser dada pela Direção-Geral de Saúde, na qual devemos ter plena confiança. Tenho a convicção pessoal e profissional de que neste momento o Governo e a Direção-Geral de Saúde tudo estão a fazer para que a saúde dos Portugueses sofra o menos possível com esta situação, sendo as decisões baseadas nos números que diariamente divulgam. Sabemos no entanto que pelas características do Vírus COVID-19, pela evolução epidemiológica, e pela existência de casos com sintomas ligeiros, poderão existir casos na população que não foram testados, pelo que não surgem nos relatórios epidemiológicos. No entanto as medidas tomadas actualmente irão ajudar a identificar mais estas situações e em simultâneo a conter a propagação do vírus COVID-19 por essas pessoas. Foi nesse sentido que recentemente foram alargadas as possibilidades para a realização de testes de diagnóstico, bem como se encontram a ser criadas estruturas descentralizadas para o diagnóstico e seguimento das situações de infecção pelo COVID-19, de acordo com a evolução da situação. 

Qual é, neste momento, o principal conselho à população?

O principal conselho é simples… Seguir as várias recomendações do Governo e da Direção-Geral de Saúde. No global estas podem ser resumidas em reforçar as medidas de higiene das mãos, etiqueta respiratória e evitar aglomerados e contactos sociais. O papel de cada um é da maior importância, pelo que devem também estar atentos aos sintomas de doença, com destaque para a tosse, dificuldade respiratória e febre, e na presença dos mesmos, contactar a Linha de Saúde 24, aguardando tranquilamente pelas instruções. É importante compreender que a presença destes sintomas, isoladamente, sem contacto de risco com doente possivelmente infectado, não constitui a definição de caso confirmado de infecção por COVID-19, uma vez que são sintomas muito frequentes em doenças típicas desta época. A deslocação aos Centros de Saúde e Hospitais deverá ser reservada para as situações urgentes, favorecendo sempre o contacto telefónico ou por correio electrónico.

O presidente da Associação de Médicos de Língua Portuguesa de Macau defende que Portugal deve pedir ajuda à China para combater o surto de Covid-19. Qual é a sua opinião?

Neste momento a Solidariedade Internacional deve ser o sentimento que rege as relações entre os países. É importante compreender que no mundo de hoje a partilha de informação científica e epidemiológica de forma generalizada, principalmente dos países que iniciaram precocemente este surto de COVID-19, como é o caso da China, constituem importantes armas para antecipar o cenário em cada país e tomar as medidas de forma adequada e atempadamente. Tem existido entre os principais países afectados uma troca constante de informação, bem como de alguns meios materiais médicos e de protecção civil, que são um sinal claro de que esta é uma Pandemia Mundial, devendo todos os países prestar auxilio aos que atravessam esta situação.

Quais são os grandes ‘mitos’ acerca da doença que se devem desmistificar?

Acima de tudo compreender que o vírus COVID-19 é uma doença de origem natural, que na maior parte dos casos irá originar uma doença ligeira, sem risco de vida para o indivíduo afectado. A grande particularidade que possui é a sua elevada taxa de contágio, pelo que o mais importante é tomar medidas que travem este contágios, mas importa esclarecer que na maior parte dos casos não existem vias de transmissão a longa distância, nomeadamente pelo ar a mais de alguns metros, sendo por isso possível a presença em espaços abertos desde que cumpridas as medidas de distanciamento social e de higiene dos contactos. Serão as populações de risco, principalmente os idosos e pessoas com doenças crónicas que deverão estar mais protegidos, uma vez que nestes grupos a doença poderá ser mais grave, mas não é sinónimo de que em todas estas pessoas a doença seja mais frequente ou mais grave, apenas que existe esse risco. Temos sido contactos por diversas pessoas que têm doença crónicas e que têm receio de ficar infectadas, nesta situação particular importa salientar que o risco de contágio não é maior na generalidade das doenças crónicas, com excepção dos casos em que exista uma diminuição das defesas, pelo que nestas pessoas o mais importante é cumprirem as medidas de protecção individual, não sendo por isso uma razão para isolamento profilático, ou seja, permanecerem em casa isoladas, longe do seu trabalho e deslocações essenciais, desde que seguidas todas as orientações já amplamente divulgadas pelas Autoridades de Saúde.

Como combater esta pandemia de desinformação que vai alastrando?

Acima de tudo é necessário que cada um dê a sua colaboração nesse sentido, confiando apenas nas informações provenientes das Autoridades de Saúde, com destaque para a Direção-Geral de Saúde. O impacto da desinformação depende da cadeia de transmissão da mesma, tal como a infecção pelo Vírus COVID-19, pelo que cada pessoa deve apenas difundir/partilhar, nomeadamente nas redes sociais, a informação que seja considerada confiável, sendo que neste momento toda a informação se encontra concentrada na Direção-Geral de Saúde, a qual dispõe de um sítio na Internet dedicado apenas a esta questão. Esta mensagem lembra-nos que o papel de cada um é da extrema importância, pois apenas se cada um de nós cumprir a sua missão podemos minimizar o impacto e diminuir o tempo que durará esta situação, quer seja do surto de infecção pelo COVID-19, quer seja da desinformação associada a este, esta segundo um dos piores inimigos ao sucesso de todos os esforços realizados pelas Autoridades de Saúde e do Governo.

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